O Google não quer mais brincar de siga o mestre. Com o Android Froyo, a Google TV, a publicidade móvel e a mídia em streaming, o Google não está mais interessado em mostrar que é tão importante quanto a Apple. Ele passou à frente.

A conferência Google I/O foi estonteantemente densa, com novos anúncios vindo de praticamente todos os cantos do universo Google. As notícias mais carnudas vêm diretamente dos campos de batalha mais intensos da empresa: o Android Froyo (codinome da versão 2.2), uma variedade de novos e inteligentes serviços de internet na nuvem e uma plataforma de publicidade mobile junto com a Google TV marchando em batalha contra produtos similares da Microsoft e, mais notavelmente, da Apple.

Os últimos 18 meses foram, para o Google, um período de corrida desesperada atrás da Apple, no qual vimos o Android alcançar a paridade de recursos com o iPhone OS – e até passar em algumas -, o Android Market explodir e a confiança do Google aumentar aos poucos. A Apple vinha ditando o tom da batalha. Apesar da competição ser acirrada, a Apple estava lutando nos seus termos.

O Google cansou disso. No espaço de dois dias, ele tomou a dianteira de um modo espetacular: o Android igualou-se ao iPhone OS de maneiras previsíveis e deixou-o  no chinelo em outras (Flash móvel pode não ser tão horrendo quanto a Apple vem dizendo); eles invadiram a sala de estar com uma dedicação e um vigor que fazer a Apple TV parecer uma ideia de estagiário; eles chegaram rasgando no mercado de publicidade móvel com um plataforma tão sólida quanto a da Apple e, mais importante, cheia de parceiros anunciantes; eles deram passos gigantes na computação em nuvem e no streaming — o tipo de coisa que os nerds discutem muito, mas não esperavam ver tão cedo.

"Nós descobrimos algo bacana: chamamos de internet"

Nós aqui do Gizmodo destilamos muito veneno sobre a falta de sincronização de mídia do Android e que parecia um sistema de sincronia meia-boca. As partes não somavam um inteiro. Não havia necessidade de sincronizar o seu aparelho com um desktop na maior parte do tempo, mas também não havia um modo fácil e bem pensado e transferir mídia. Os apps eram manuseados exclusivamente no App Market do telefone, o que era um saco. A experiência estava quebrada, por isso as pessoas reclamavam. Por que não podíamos ao menos ter algo parecido com o iTunes para essas coisas?

Bem, agora sabemos por quê. Com o Android Froyo, os apps são sincronizados sem fio entre o seu navegador de internet no desktop e o seu telefone. As músicas são entregues via streaming pelo 3G. E endereços de destino num mapa, termos de busca, páginas da web e potencialmente um monte de outras coisas podem ser enviadas para o seu telefone pelo seu navegador no desktop ou num notebook. O "Sync", do jeito que a Apple o inventou, subitamente se tornou lento, feio e cansado. O novo sync é instantâneo, menos redundante e faz muito mais sentido. E o novo sync pertence ao Google.

Propaganda é a alma do negócio

Sem contar os sempre presentes problemas técnicos, a apresentação do Google foi surpreendentemente segura de si. Principalmente durante a apresentação do AdSense Mobile. Vimos o Google apresentar algo bem parecido com o que Jobs apresentou com o iAds, incluindo o mantra "os usuários não gostam de sair dos apps".

Mas a apresentação da Apple foi sobre uma nova plataforma de publicidade. Vamos ser francos: ugh. Vocês fizeram uma moldura bonitinha para propagandas, Apple? O público não se importa com isso, porque, bem, nós não gostamos de propagandas. Os desenvolvedores também não se empolgaram demais, porque o sistema da Apple era novo, não havia provas da sua eficácia e, pra falar a verdade, não era assim tão interessante.

A apresentação do Google foi mais sagaz: eles não precisaram ficar falando sobre o mecanismo dos anúncios, porque, para o Google, o AdSense móvel é só uma ponte dos seus centenas de milhares de anunciantes já existentes para todo o qualquer telefone tocado pela empresa. Quando a gente se foca neste lado das coisas que fala sobre produtos e gadgets, é fácil esquecer que o Google é, principalmente, uma empresa de publicidade. A Apple pode apresentar anúncios bonitinhos o quanto ela quiser, mas o Google tem um histórico de vender.

Apple TV sem Ibope

A Apple TV definhou não por falta de potencial, mas por falta de ambição. É como se a Apple tivesse decidido invadir as nossas salas de estar, desenvolvido a máquina para isso, mas aí desistido no meio do caminho, quando viu que o sucesso não foi imediato. Ao fazer isso, eles jogaram fora uma vantagem de vários anos que seria útil agora.

A Google TV é um produto diferente da Apple TV — é mais como um sucessor do TiVo do que um Mac Mini aleijado — mas isso é só porque o Google está com uma conduta muito mais agressiva. Em vez de uma simples caixinha para complementar a sua TV, o Google que dominá-la toda. Eles querem combinar a TV com a internet de um modo real, não com widgets sem graça e lojas de conteúdo. Eles querem desenvolvedores de apps, parceiros de hardware, parceiros de conteúdo e tráfego de buscas, o que para nós se traduz em aplicativos, toneladas de opções de hardware, muito conteúdo e uma janela real para a internet. Onde a Apple TV tinha o iTunes, a Google TV terá Amazon, Netflix, YouTube e Hulu. Onde a Apple TV tinha um repositório isolado de conteúdo pago e baixado, a Google TV terá uma massiva seleção de conteúdo, grátis e pago, complementando os seus canas de TV, e não teimosamente isolado deles.

Google atingindo a maioridade

No passado, o Google sempre chegou atrasado às festas, e raramente ultrapassava a Apple no que quer que fosse. O iPhone criou as regras da guerra mobile, com o iTunes e a App Store impondo sua ameaçadora estatura sobre qualquer desafiante, incluindo o Android.  A Apple TV chegou em 2007. O iPad é a medida de comparação para todo e qualquer tablet a ser lançado. Através dos seus sucessos, a Apple definiu uma visão: é uma empresa que adora estar no controle, que mudou o significado e a importância dos "apps" e que se vê dominando praticamente todos os aspectos da vida tecnológica dos seus usuários. É uma visão que ignora a nuvem, a menos quando inevitável. E é uma visão com prazo de validade.

O Google também tem uma sede de dominação, mas eles têm uma visão própria: uma visão dos celulares e computadores conectados de maneira descomplicada — revolucionária e mágica, poderíamos acrescentar — pela internet; uma visão que prevê mídia que vem por streaming quando você precisa e desaparece quando você não precisa mais; uma visão que vê a televisão como uma extensão da internet, não como uma tela burra.

O Google tem muito trabalho pela frente. O Android está fragmentado, com boa parte dos seus usuários atuais incapazes de atualizar seus aparelhos para aproveitar as novidades da nova versão. Qualquer produto de TV leva anos para chegar até a casa do consumidor médio. Streaming de mídia é uma inevitabilidade, mas a infraestrutura para fazer isso direito ainda não está disponível, e o que o Google mostrou na sua conferência não resolve todos os problemas. (Não há um componente para vídeo em seu novo software de streaming de áudio baseado no Simplify Media, por enquanto.) Mas ao ouvir um Vic Gundotra, mais poderoso e o audacioso do que nunca, falar sobre o futuro de cada empresa, especialmente depois de uma série de apresentações semi-decepcionantes do Steve Jobs, eu vejo o Google passando à frente nesta guerra. E com uma vantagem impressionante.