Após trabalhar como médico em um país afetado pela epidemia de Ebola, Ian Crozier sentiu algo de errado no olho esquerdo. Ele estava certo: lá dentro tinha um reservatório vivo de vírus Ebola.

De acordo com um artigo no The New York Times, Crozier contraiu Ebola enquanto trabalhava para Organização Mundial da Saúde em Serra Leoa, no fim de 2014. Em outubro, os sintomas tinham passado e um teste sanguíneo deu negativo para o vírus, e assim ele deixou o hospital e voltou para casa.

Dois meses depois, ele estava de volta. Ele descreveu seus sintomas para médicos: seus olhos queimavam, ele estava sensível demais à luz, sua visão, normalmente 20/15, tinha mudado para 20/20 (durante o pico da inflamação, ela chegou a 20/400), e ele tinha a sensação de que havia algo em seu olho. A pressão dentro do seu olho esquerdo era muito maior do que o normal, o que prejudicava sua visão. Médicos diagnosticaram Crozier com uveíte, uma inflamação severa no olho, mas quando eles tiraram uma amostra do seu humor aquoso (o fluído dentro do olho), eles ficaram espantados com a causa da inflamação: Ebola.

Testes revelaram que o vírus não estava presente nas lágrimas de Crozier nem em nenhuma outra superfície do seu olho — só dentro dele. O olho virou um reservatório do vírus. O fenômeno dos reservatórios de vírus acontecem quando um vírus encontra um caminho para uma parte do corpo que normalmente está bastante isolada do sistema imunológico. Assim que chegam lá, os vírus começam a se replicar, mas normalmente não chegam a vazar para outras partes do corpo já que, por definição, reservatórios são isolados do resto do corpo. É como encontrar a única sala silenciosa de uma festa e decidir ficar por lá mesmo, mas trocando uma pessoa por vírus mortais.

Os olhos são blindados do sistema imunológico. As respostas imunológicas dadas a coisas como inflamações poderiam causar danos enormes aos frágeis mecanismos da visão. Isso faz do olho um lugar perfeito para um reservatório. Os testículos são igualmente protegidos, e pesquisadores acreditam que é por isso que o Ebola pode aparecer no sêmen meses após o sangue do paciente estar livre do vírus.

O caso de Crozier marca a primeira vez que médicos encontraram um reservatório do Ebola no olho, e isso destaca como sabemos pouco sobre as consequências da doença. O The New England Journal of Medicine publicou esse caso em detalhes, com Crozier sendo um co-autor do artigo.

Não está claro se casos como o de Crozier são comuns. De acordo com o artigo do NEMJ, uma pesquisa com 85 sobreviventes na Libéria concluiu que 40% tinham problemas parecidos com os sintomas de Crozier: dor, pontos cegos e visão turva. No entanto, pesquisadores não sabem quantos desses têm uveíte. Considerando casos que podem ser de uveíte, é difícil determinar quais pacientes possuem reservatórios de Ebola nos olhos e quais possuem outras infecções nos olhos, devido também ao sistema imunológico enfraquecido. E, inicialmente, médicos achavam que isso tinha alguma relação com o que aconteceu com Crozier, segundo o New York Times.

Reservatórios são mais comuns em pacientes com o vírus da herpes. Médicos também sabem que algo parecido aconteceu com ao menos um paciente com Marburg, um vírus relacionado ao Ebola. O sangue do paciente foi testado como negativo para o vírus, mas ele apareceu no olho do paciente três meses após os primeiros sinais da doença. Duas semanas depois, seus olhos estavam livres de vírus. Isso foi em 1975, e ainda não está claro quantas vezes isso acontece com o Marburg ou Ebola.

No caso de Crozier, após o tratamento com um medicamento anti-viral experimental e com esteroides para combater a inflamação, o vírus Ebola finalmente saiu do seu olho, três meses após ele relatar os primeiros sintomas. Para sobreviventes do Ebola na África, isso não significa muita coisa até os reservatórios virais serem melhores compreendidos. [NEJM]

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