Há não muito tempo, por tédio ou diversão, milhões de americanos ligavam seus televisores para assistir pessoas comendo minhoca por dinheiro. Fazia bem ver gente destruindo seus estômagos. As coisas na sua vida podiam até não estar indo muito bem, mas pelo menos você não estava competitivamente mastigando baratas durante o horário nobre.

De certa forma, o apelo de um show como Fear Factor era a nostalgia – nostalgia, talvez da época que a nossa espécie descobria através da tentativa e erro que não era muito bom comer mofo, fezes, etc.

Mas como era o processo de tentativa e erro? Onde chegamos com ele? Em outras palavras: que gosto, nesta fase do jogo evolutivo, podemos identificar como o mais repugnante? A maioria de nós não quer passar por essa experiência revoltante, então é por isso que nós pedimos a especialistas para fazerem isso por vocês. Pelo que parece “nojento” é relativo – uma das inúmeras construções sociais que bloqueiam os nossos desejos, enriquecem pessoas e nesse caso em especial, nos impede de jantar carcaças de ratos doentes.

Richard Doty

Diretor do Smell and Taste Center da Universidade da Pensilvânia

Nojo é uma questão complicada no que diz respeito ao gosto. Primeiro, a maioria dos gostos são realmente cheiros. Nossas papilas gustativas só identificam doce, azedo, amargo, salgado e umami. Temos muitos mais receptores amargos do que doces ou outros tipos, presumivelmente porque os venenos muitas vezes são alcaloides amargos. No entanto, quando um agente “repugnante” é colocado na boca, as moléculas alcançam os receptores olfativos através da faringe nasal. É por isso que café ou chocolate não tem gosto quando seu nariz está fechado. Isto bloqueia o fluxo de ar a partir da cavidade oral para os receptores.

A concentração muitas vezes está envolvida, com agentes de cheiro ou gosto sendo agradáveis em baixas concentrações mas desagradáveis em concentrações elevadas. O contexto também está envolvido (mercaptanos de gambá podem ser agradáveis em baixas concentrações mas desagradáveis em concentrações elevadas, especialmente se não dizem que é o odor de um gambá). Algumas secreções anais de cachorro tem cheiro de queijo Limburger. Se disserem para você que o odor é a de queijo Limburger você iria achá-lo menos repugnante do que se dissessem que veio do ânus de um beagle. Embora talvez não seja o mais repugnante de todos os odores, o cheiro da piridina foi descrito por uma cobaia em nosso laboratório como cheiro de “vômito em um mictório no carnaval”. Eu acho que a maioria de nós acharia isso um pouco nojento. As respostas psicológicas das pessoas às secreções anais de um cachorro, no entanto, superam piridina na minha experiência.

Asifa Majid

Professora de Língua, Comunicação e Cognição Cultural, Centro de Estudos de Línguas, Radboud University Nijmegen

A ideia de experimentar o vômito e as fezes de outra pessoa é provavelmente universalmente nojenta. Geralmente, no entanto, o que é repugnante para uma pessoa é uma iguaria para outra. Os holandeses e franceses comem cavalos; mas para a maioria dos americanos a ideia de colocar a carne de cavalo em suas bocas é nojenta. Então leve em conta que os americanos médios comem mais de 20 quilos de carne por ano. Por que você comeria algo sagrado que nos fornece leite nutritivo? Esse pensamento horroriza os hindus. Tradicionalmente muitos europeus comem porcos, mas para os 1.5 bilhões de muçulmanos no mundo de hoje, isso é impensável. A lista continua. Desde sangue coagulado, lagartas, cérebros de ovelhas, olhos de atum ou mãos de babuíno: em algum lugar é uma iguaria; em outros lugares é de revirar o estômago.

Talvez possamos encontrar o sabor mais repugnante se pudessemos testar as pessoas antes delas se tornarem aculturadas. Examinar as preferências dos bebês nos dá uma visão interessante. Bebês preferem doce, salgado e gostos umami acima dos mais amargos; e afastam suas cabeças, franzindo o nariz, quando são apresentados a peixes, alho ou odores podres. No entanto, se suas mães são ávidas comedoras de alho, os odores de alho não são mais aversivos para o bebê. Durante a gravidez a mãe transmite os sabores que ela está absorvendo através do líquido amniótico para o bebê. Assim, os bebês já começam a desenvolver preferências de sabor antes de serem expostos a alimentos sólidos. A exposição precoce é tão crítica que ela pode literalmente transformar o podre em saboroso. Os povos Chukchi e Yupik que tradicionalmente viviam na região do Estreito de Bering da Rússia e Alasca comiam alimentos cujo cheiro traria lágrimas aos seus olhos. Eles enterravam peixes inteiros ou rolos apertados de carne e gordura de morsa no chão e deixavam o tempo fermentar a comida durante meses antes de comerem. Durante a era soviética pequenos assentamentos de comunidades indígenas foram fundidos a comunidades culturalmente diversas maiores e durante este tempo as pessoas abandonaram estes alimentos tradicionais. Em seguida, na era pós-soviética, algumas pessoas tentaram voltar para suas formas tradicionais, mas os alimentos não pareciam mais ser um prazer. Sem a exposição precoce aos aromas mais fortes, as pessoas não acham mais que os alimentos são comestíveis.

Então, o que é nojento de sentir o gosto é tanto sobre a nossa cultura, contexto e educação quanto qualquer outra coisa.

Rachel Herz

Rachel Herz, é uma neurocientista cognitiva da Brown e Boston College. Ela é um especialista nos sentidos e emoções que orientam a percepção de alimentos e autora de The Scent of Desire, That’s Disgusting, e um novo livro Why You Eat What You Eat.

O sabor mais repugnante é o amargo. De uma perspectiva ecológica e evolutiva,  sermos repelidos pelo sabor amargo nos ajuda a nos manter vivos já que coisas de gosto amargo são ricos em alcaloides (pH maior do que 7) e tendem a ser venenosas.

Todo mundo acha o sabor de uma casca de limão amargo, mas o quão difícil é para você comer ela depende da genética que determinam o número de papilas gustativas que você tem. Supertasters têm muitas papilas gustativas e tudo tem um sabor mais intenso para eles, especialmente o amargo. Se você é incapaz de comer endívia e couve de bruxelas, você provavelmente é um supertaster. Curiosamente, o quanto você é sensível ao amargo também influencia suas reações emocionais. Supertasters são menos tolerantes a dor e mais facilmente irritados e enojam mais facilmente que os non-tasters, mas non-tasters tendem a ter mais pontos característicos que estão associados com uma personalidade psicopata. Um detalhe interessante é que os psicopatas criminosos são muito piores em reconhecer a expressão facial de nojo do que qualquer outra emoção. Então se você quer assistir um filme de terror sangrento com um amigo chame alguém que come endívia crua, mas se você precisa de alguém para levá-lo ao hospital, você pode querer chamar o amigo que não come couve.

Tim Jacobt

Professor Emérito da Universidade de Cardiff

Geralmente as coisas tem um gosto repugnante porque elas são prejudiciais ou venenosas. Mas há um outro aspecto muito diferente e pessoal para o desgosto, envolvendo associação condicionada. Se um alimento é ingerido antes ou durante uma experiência realmente negativa ele pode se tornar desagradável para nós. Por exemplo, as pessoas com cirurgia ou quimioterapia muitas vezes comem uma refeição alternativa antes do início do processo. Isto porque podemos associar a dor, desconforto ou doença com a última refeição que tivemos, por isso é melhor não comer o seu prato favorito nessas circunstâncias.

Eu comi bolinhos de carne enlatada quando eu era criança quando eu estava com uma gripe muito forte. Não havia uma conexão causal mas meu cérebro determinou que a partir daquele momento eu ia odiar carne enlatada (que é bastante nojenta de qualquer forma).

Donald Katz

Professor de Psicologia da Universidade Brandeis, que ensina neurociência comportamental e estuda o que faz com que os alimentos tenham gosto bom ou ruim

Entre os neurocientistas, há um consenso geral de que existem apenas cinco gostos, dos quais apenas um é verdadeiramente repugnante – o amargo. É lógico, portanto, que o amargo vá ser a coisa mais repugnante que você pode (acidentalmente) colocar na sua boca.

Eu ofereceria uma recomendação específica… mas se os leitores forem experimentar a recomendação, o Gizmodo iria encontrar-se em uma situação jurídica perigosa. A amargura nos enche de desgosto especificamente porque muitas toxinas naturais são amargas. Graças à evolução, bichos que acham alimentos amargos nojentos são criaturas que sobrevivem e portanto, o sabor mais repugnante será o sabor que você prova apenas uma vez e depois morre.

É claro que apesar do que nós cientistas dissermos, você sabe que existem muitos mais do que cinco sabores. A maioria de nós pode nomear cinco alimentos que são nojentos apesar de não serem amargos, assim como substâncias amargas que consideramos o oposto de nojento; muitas pessoas amam o amargor do café ao ponto de atacarem quem estraga seu gosto com o açúcar. Mas onde isso nos deixa na busca pelo gosto mais repugnante?

A pluralidade de gostos reflete a mistura de vários ingredientes em qualquer alimento e o envolvimento de outros sentidos na percepção do sabor (se você não acha que o cheiro e visão são importantes para o sabor, tente identificar diferentes Skittles™ sem usar qualquer um desses sentidos). O fato de a dieta normal de uma pessoa poder ser nojenta para outra, por sua vez, reflete a dependência da experiência do gosto. A maioria dos animais são dotados de um mecanismo bem conhecido de jovens estudandes de faculdade que exageraram um pouco na bebida. Meu ódio da vida inteira por coco ralado vem de uma experiência de vômito que eu tive de um bolo de aniversário que comi quando eu tinha cinco anos.

Este processo também funciona em sentido inverso – alimentos que inspiram sentimentos de bem-estar são favorecidos, mesmo se amargos. Adolescentes aprendem a gostar de cerveja e café porque parceiros legais ou sexualmente desejáveis tomam cerveja e café. Vegetais verdes e amargos são bons para a saúde. Alcaçuz para os holandeses, vegemite para o australiano, natto para os japoneses; todas substâncias que são repugnantes para a maioria, mas tornadas saborosas pela aceitação cultural.

Então que alimento “ganha?” Quando você traz todos esses fatores juntos, o que emerge como o gênero alimentício com o pior gosto do mundo?

É coco. Confie em mim. É simplesmente desagradável.

Ilustração de topo: Sam Woolley/Gizmodo