Em 2021, crimes cibernéticos já viraram parte do cotidiano. Mas, nos primórdios da internet — quer dizer, nos anos 1980 e 1990 — hackers eram um fenômeno tão novo quanto bizarro, que a sociedade americana ainda não conhecia direito. Muitos dos pioneiros dessa tendência não eram criminosos inescrupulosos, mas adolescentes de óculos — nerds de carteirinha com tendência a usar seus avançados poderes em computação para causar estrago. Nessa época, hackear tinha menos a ver com extorsão e uma forma de fazer dinheiro fácil, e mais com conquistas narcisistas e o desejo de fazer algo que nunca tinha sido feito antes.

Dito isso, vamos a alguns dos maiores nomes dessa época.

Kevin Mitnick

Kevin Mitnick [o homem que você vê na imagem acima] é um dos mais notáveis arruaceiros digitais dos primórdios da internet — e, quase sempre, é considerado o hacker mais conhecido do mundo. Ainda muito jovem, Mitnick era considerado um gênio da computação — e suas habilidades rapidamente o levaram a protagonizar inúmeras invasões digitais. Em 1982, quando tinha 19 anos, ele hackeou o NORAD (Comando de Defesa Norte Americano), o centro de comando nuclear subterrâneo dos Estados Unidos. O episódio supostamente serviu como inspiração para o clássico filme War Games, que conta a história de hackers. Em outras ocasiões, ele também hackeou companhias como a Pacific Bell, a Digital Equipment Corporation e muitas outras.

Depois de receber um mandado de prisão em 1992, Mitnick fugiu, permanecendo foragido por mais de dois anos. Durante todo esse tempo, ele continuou a hackear redes e a roubar dados. Esse período chegou ao fim em fevereiro de 1995, quando o FBI finalmente o prendeu. Mitnick foi, posteriormente, alvo de uma série de acusações federais — e acabou condenado a vários anos de prisão. Hoje, ele leva a vida como consultor de TI, palestrante e, claro, celebridade nas comunidades de hackers e TI.

Robert Tappan Morris (o criador do “worm de Morris”)

Creditado como o primeiro criador de um worm [vírus de computador que se auto reproduz] — e o primeiro a ser preso por isso — Morris era um sujeito peculiar e, assim como vários dos hackers de sua época, um criminoso pouco provável. Aluno de Harvard, Morris dava continuidade à sua carreira acadêmica na Universidade Cornell, quando criou um programa de computador que causou estrago. O worm, que nasceu nos servidores do MIT, foi liberado no dia 2 de novembro de 1988, e causou um ataque generalizado, que afetou grande parte da Internet existente na época.

Não se sabe ao certo se o tal programa foi criado para ser nocivo ou se isso aconteceu de forma acidental. Independentemente da resposta, o fato é que o worm se espalhou por aproximadamente 10% dos computadores conectados à rede nessa época (um número relativamente pequeno), deixando muitos deles como num estado zumbi. O programa ficou conhecido como “worm de Morris”. Por causa de sua criação, Morris foi posteriormente condenado por violar a Lei de Fraude e Abuso de Computador — uma condenação inédita, já que a lei havia sido aprovada apenas dois anos antes. Ele foi condenado à liberdade condicional e, nos 30 anos seguintes, acumulou fama pelo seu feito.

Os 414s

Ok, tecnicamente, não estamos falando de apenas um hacker, mas de vários. Um entre os vários coletivos de hackers que emergiram ao longo dos anos 1980, os 414s eram um pequeno grupo de adolescentes espinhentos e jovens na casa dos vinte e poucos anos de Milwaukee, nos EUA. Eles conseguiram invadir as redes de uma série de órgãos do governo americano, bancos e outras organizações. Entre os alvos estavam o Laboratório Nacional de Los Alamos, a Sloan Kettering e o Security Pacific National Bank – à época, um dos maiores bancos da Califórnia. Eventualmente, eles acabaram recebendo uma visitinha ao FBI, e diversos membros do coletivo acabaram cumprindo penas por passar trotes por telefone.

Mark Abene

Mark Abene, que ficou conhecido pelo apelido de gosto duvidoso “Phiber Optik”, era um membro do grupo de hackers “Mestres da Decepção” (ou MOD, da sigla em inglês). Quando era menor de idade, Abene foi acusado de ter envolvimento em uma série de pequenos crimes hackers. Como vítimas da repressão do governo federal aos hackers na década de 1990, segundo argumentam defensores, Abene e outros membros do MOD foram presos em 1991 e posteriormente indiciados por um júri federal. Ele acabou sendo condenado a 12 meses de prisão. Após ganhar liberdade, ele manteve sua reputação como uma espécie de herói popular da comunidade hacker. Desde então, seguiu carreira na área de segurança cibernética e teve empreendimentos em TI, de acordo com seu LinkedIn.

David L. Smith

Pouco mais de 10 anos após o verme de Morris espalhar o caos, os vírus de computador já haviam evoluído bastante. David L.Smith, que trabalhava como programador temporário para a AT&T, ajudou a consolidar o poder de espalhamento de programas maliciosos. Em 1999, Smith criou e lançou o “vírus Melissa”, um programa que, quando aberto, se auto-enviava automaticamente para as primeiras 50 pessoas que apareciam na lista de endereços de um usuário no Microsoft Outlook. O vírus, supostamente, foi responsável por causar danos estimados em “milhões de dólares”. Depois de ser preso, Smith foi condenado a cumprir a pena em uma prisão federal.

Julian Assange

Antes de se tornar um ativista polêmico e (segundo as autoridades dos EUA) criminoso internacional, Julian Assange era o típico hacker adolescente, obcecado por notoriedade e realizações. Usando a alcunha “Mendex”, Assange começou a hackear em 1987, aos 16 anos. Embora as façanhas de seu início de carreira não estejam totalmente confirmadas (há rumores de que ele tenha ajudado a hackear a NASA e, junto de amigos, teria se gabado de hackear um complexo militar-industrial dos EUA), o que se sabe é que, em 1991, ele e seus camaradas cibernéticos foram pegos invadindo a Nortel, uma grande empresa de telecomunicações canadense. Como resultado, Assange foi preso e recebeu 31 acusações por parte das autoridades australianas.

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Assange, mais tarde, acabaria se envolvendo em coisas maiores, e fundando o WikiLeaks, famosa organização hacktivista. Desde a sua fundação, o WikiLeaks vazou milhões de documentos, incluindo um vídeo que indica possíveis crimes de guerra dos EUA no Iraque. Atualmente, o australiano está sob custódia no Reino Unido, mas autoridades americanas buscam sua extradição para que ele possa ser julgado em um tribunal dos EUA. Se for condenado, ele pode pegar até 175 anos de prisão.