Na última quarta-feira, a News Media Canada, grupo que reúne a mídia jornalística do país, publicou uma carta aberta ao primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau. Na carta, o presidente da entidade, Jamie Irving, cobrava providências de Trudeau para romper o que chamou de “monopólio” de Google e Facebook no mercado de mídia do país.

Dois dias depois, o órgão regulador da mídia no Reino Unido revelou que, naquele país, os consumidores passam 30 vezes mais tempo nos sites de Google (YouTube incluído) e Facebook do que na BBC.

O Brasil, que é o terceiro país que mais passa tempo em redes sociais: três horas e 42 minutos. Entre Facebook, Instagram, Whatsapp e, principalmente, YouTube, não só não sobra tempo pra ver notícias em mais lugar nenhum como parece não sobrar interesse.

Na carta da New Media, Irving chama a atenção para o fato de que embora distribuam conteúdo de numerosos veículos (como este Gizmodo Brasil), Google e Facebook não pagam um tostão a eles. Não só isso: ambos têm um histórico de mudanças nos algoritmos para tirar tráfego dos produtores de conteúdo original e manter nos próprios sites.

Como disse alguém no Twitter (sinceramente não consegui novamente o original): não adianta dar bolsas para veículos e jornalistas de um lado e matar os veículos do outro.

O assunto não é novo, obviamente. Há anos a tendência se acentua, veículos pequenos fecham e todo mundo continua dizendo que algo precisa ser feito. Recentemente a Austrália promulgou lei que obrigava as plataformas a negociar com os veículos para publicar seus conteúdos. O Google foi rápido para negociar, o Facebook peitou — e ganhou. A lei australiana foi desvirtuada e nada mudou.

Não se trata de questão de mercado. Nem o mais empedernido capitalista acredita que os mercados devem funcionar sem regulação. Se um dos atores tem recursos financeiros e tecnológicos que permitem a total aniquilação dos outros, isto não é capitalismo. Assim sempre foi em qualquer área de atividade econômica historicamente.

Desde o reaganismo, porém, a desregulação se tornou a regra nos EUA, e o resto do mundo acompanhou a tendência. O resultado é que hoje as pessoas se informam por plataformas que não admitem que têm responsabilidade por isso, que não remuneram quem produz o conteúdo que gera dinheiro para eles e que, muito pior do que os dois outros juntos, não se orienta por qualquer tipo de ética ou interesse jornalístico.

O resultado disto é conhecido: se chama YouTube. Enquanto canalhas e picaretas ganham milhões enganando as pessoas e promovendo a desinformação, quem produz jornalismo de qualidade e regido pelo interesse público tem cada vez menos dinheiro. Outro resultado perverso disto, que abordaremos em uma coluna no futuro próximo, é a morte lenta do jornalismo local.

Também, obviamente, não existe bala de prata nem solução fácil. A lei australiana é um excelente exemplo de que a regulação tem que ser feita aos poucos, e de que provavelmente é melhor envolver Google e Facebook em sua elaboração, do que tentar resolver em uma canetada a situação.

É necessário entender primeiro quais são os problemas a serem enfrentados; quem são os atores nesta conversa; e que interesses é importante preservar, levando-se em conta que a liberdade econômica pode, sem dúvida, ser preservada sem que o interesse público e da sociedade como um todo seja ignorado.

O que a história do Brasil tem mostrado nos últimos anos, é que o jornalismo sempre estará sob ataque de quem detém o poder político e econômico, em maior ou menor intensidade, e nunca com tão pouco respeito às leis e à Constituição. Nunca foi tão importante ter bom jornalismo e bons jornalistas e, paradoxalmente, nunca houve tão pouco dinheiro para jornalismo.

De outro lado, em outro assunto que também será abordado por aqui em breve, há um entendimento maior do público de que é necessário pagar os veículos para que eles possam pagar o jornalismo e serviços de jornalismo bancados por assinaturas digitais e campanhas de apoio são cada vez mais numerosos, embora ainda sejam, em sua maioria, pequenos.

O risco maior para a sociedade é perder a noção do valor do jornalismo, é perder o medo de perder o jornalismo. Não são poucos os países do mundo em que praticamente não há mais mídia independente do governo e de grupos econômicos ligados ao governo — a Rússia é só o modelo mais pronto e acabado. No fim das contas, para a maioria das pessoas o que importa ainda é ter pão na mesa e algo pra distrair a cabeça.

Não é outro o mecanismo que Google e Facebook exploram. Se isto pode ter surgido inadvertidamente, é impossível hoje fechar os olhos para o papel exercido por redes sociais e YouTube, assim como pelo não exercido. O algoritmo do YouTube privilegia o lixo, e o lixo é perigoso. A história de calamidades recentes estimuladas desta forma é enorme.

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Não foi de repente que aconteceu, não é de repente que vai acabar. Depende de regulação, depende de boa vontade das empresas mas depende principalmente de pressão da sociedade. Que a gente possa ter tempo mental pra entender que sem esta pressão todos os problemas que nos tomam tempo mental só ficam maiores.


Esta coluna é sobre mídia, mas ela é no Gizmodo, então não falamos de mídia “pura”, o enfoque é em assuntos que tenham intersecção com os assuntos que o Gizmodo trata no dia a dia. Ainda assim é impossível ignorar em uma coluna de mídia mais um assassinato cometido pela polícia, e a maneira como ele é noticiado. A única maneira de noticiar quando a polícia mata uma pessoa é: “POLICIA MATA UMA PESSOA”. Mais especificamente: “POLICIA MATA UMA MULHER NEGRA GRAVIDA”. E não “Mulher morre em operação policial” ou “Operação policial acaba com morte”.

Todo o resto é passar pano para os assassinatos que a parte podre da polícia comete contra a população negra e pobre todos os dias. E passar pano para assassinato é ser cúmplice


A dica de hoje é a newsletter Farol Jornalismo, feita pelos jornalistas Moreno Osório, Livia Vieira e Marcela Donini. É um panorama bem completo do mercado de mídia não só no Brasil como lá fora. Você pode assinar aqui e apoiar aqui. É uma parte do começo do que falamos acima.


As opiniões do autor não necessariamente refletem as do Gizmodo Brasil.