A partir de hoje o Gizmodo Brasil passa a ter um espaço para discutir mídia. Quem fará isso por aqui sou eu, Caio Maia. Estou há quase dez anos na F451, empresa responsável pela versão brasileira do Giz. Ajudei também a criar vários outros sites por aqui e, pra quem se preocupa com essas coisas, tenho até um mestrado em mídia (e viva o credencialismo)!

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Comecemos com a notícia de que a Verizon, gigante da telefonia americana, resolveu desovar seu braço de mídia, que incluem Yahoo e AOL (mas também sites como TechCrunch e Engadget) para um fundo de investimentos chamado Apollo. Esse foi só o se último movimento no sentido de se desfazer dos veículos que foi comprando no decorrer dos anos: em novembro de 2020 já havia vendido o HuffPost, que veio junto com a AOL, para o BuzzFeed em uma troca de ações; e, em agosto de 2019, também tinha passado para frente o Tumblr, que era parte do Yahoo.

A primeira coisa que chama a atenção na operação é o tamanho do prejuízo que a Verizon engoliu: a AOL custou US$ 4,4 bi, enquanto Yahoo foi comprado por pouco mais que isso, US$ 4,5 bi. O Apollo pagou US$ 5 bi por ambas.

É bom contextualizar: houve um momento na história em que a AOL era “a internet”. Quase todos os americanos acessavam a rede por meio da AOL, e praticamente não saíam dela. Quando a AOL se fundiu com a Time Warner – naquela que é considerada por muitos como a pior operação de fusão da história do capitalismo americano – ela era avaliada em US$ 200.

Um pouco mais para frente, o Yahoo também se tornou gigante. Ele era como a AOL e o Google juntos. A empresa chegou a ser avaliada em US$ 125 bi. Em 2008, a Microsoft fez uma oferta de US$ 44 bi, que foi rejeitada. Nove anos depois e o Yahoo é vendido por quase um décimo disso.

Isso é o que eles foram, mas o que são hoje AOL e Yahoo? E por que alguém ainda acha que faz sentido investir diversos bilhões de dólares neles? Pra responder essa pergunta é necessário primeiro entender quem é o comprador.

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O Apollo é um fundo de private equity com ativos avaliados em US$ 455 bi. É um fundo famoso no mercado por ser um comprador voraz. Diferentemente das estrelas deste mercado, que costumam fazer grandes cheques para poucos negócios, o Apollo gosta de distribuir os recursos, compra muito mais empresas e coloca menos dinheiro em cada uma.

A lenda diz que o fundo já comprou empresas que não tinham nem um plano de negócios formatado. O modelo certamente tem uma taxa de sucesso menor no que se refere ao número de investimentos que dão certo, mas a diversificação do risco tem levado a resultados melhores do que os concorrentes. Se você investe em 100 caras, é mais provável achar um vencedor do que se investe em 10, e se coloca menos dinheiro em cada um, perderá menos com os que não derem certo.

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Podemos gastar linha aqui especulando sobre o que um fundo de investimentos quer com uma empresa de mídia em 2021, mas o fato é que isso pouco importa. Ainda que AOL e Yahoo continuem sendo bons geradores de caixa, o que interessa a um fundo como o Apollo é “comprar barato”. Porque se você comprar barato, sofre menos com uma possível perda. E parte da mágica de ganhar bilhões de dólares no atual modelo do mercado de capitais americano está em ter o sangue frio pra despejar bilhões esperando que os dólares que não se se perderem serão multiplicados para compensar com.

Quando a Verizon comprou tanto AOL como Yahoo o racional era parecido: “as empresas não ganham mais dinheiro como ganhavam, mas ainda geram receita e há espaço para aumentar isso e reinventar as marcas”. Não havia e a Verizon não teve paciência para esperar alguma coisa acontecer. É pouco provável que o Apollo tenha tal paciência, assim como é bem pouco provável que marcas que tiveram valor combinado de US$ 350 bi e hoje valem US$ 5 bi ainda tenham qualquer lenha para queimar. É como jogar na loteria — o que é um pouco mais fácil quando seus ativos chegam a US$ 455 bi e você chegou a isso com algumas jogadas que pareciam ruins e se tornaram boas.

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Dicas legais

Aqui semanalmente eu vou colar algumas coisas legais que eu li e que acho que vale a pena, e pode não ter nada a ver com mídia – é, aliás, bem provável que não tenha. A chance de eu ter recebido a dica no Twitter ou em alguma newsletter é de 100%. Se eu lembrar quem indicou eu vou contar. 

Aliás, se eu não lembrar tem 50% de chance da dica ser da Margem, newsletter do jornalista Thiago Ney.