Cerca de duas semanas antes da sua morte, houve uma mudança em Dave Kleiman. O anteriormente generoso e vivo perito em computação forense se tornou confrontador e amargo. Naquela época, Kleiman deixou o hospital do Departamento de Assuntos de Veteranos, onde era um paciente, e ligou para seu amigo próximo e parceiro de negócios Patrick Paige para contar a novidade para ele. “Decidiram te liberar? Isso é ótimo”, Paige lembra ter perguntado.

“Não,” respondeu Kleiman. “Eu mandei os médicos irem se foder.”

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David Kleiman era um veterano de guerra, um paraplégico, e um mago da computação ocasionalmente entrevistado por emissoras de TV devido ao seu conhecimento em computação forense e segurança. De acordo com uma investigação de um mês publicada pelo Gizmodo, Kleiman também era profundamente envolvido com Bitcoin. Documentos e entrevistas obtidas pelo Gizmodo e pela Wired em investigações diferentes mostram que Craig Wright, um CEO australiano, repetidamente alegou que ele e Kleiman tiveram participação na criação do Bitcoin.

Se é verdade, Kleiman parece ter deixado de acessar uma soma de dinheiro muito grande a qual ele presumivelmente teria direito como um dos arquitetos da moeda. Quando morreu, estava para ser despejado da sua casa em Palm Beach County, e ele nunca mudou do Miami VA Medical Center para um hospital melhor. Quem era Dave Kleiman, e por que ele não usou o dinheiro que tinha?

O começo da vida

Kleiman nasceu em 1967, e, de acordo com um obituário, foi adotado por Louis e Regina Kleiman de Palm Beach Gardens algum tempo depois disso. (Regina já morreu e Louis, com 94 anos, não respondeu às nossas tentativas de contato). Ele disse a amigos que começou a se interessar por tecnologia e computadores quando criança. Mas mesmo para Paige, que chama Kleiman de seu melhor amigo, o começo da sua vida é misterioso.

Em 1986, Kleiman começou a servir o Exército dos EUA como técnico de helicóptero. Ele voltou para casa em 1990 e passou a trabalhar na polícia de Palm Beach County. Seu professor durante o treinamento para a polícia foi Patrick Paige, com quem ele depois fundou uma empresa chamada Computer Forensics, LLC, em 2012. Eles eram grandes amigos. Kleiman deu a Paige seu primeiro computador, uma máquina com DOS que precisava da entrada de linhas de comando para operar, e passou a visitar Paige em sua casa para ajudar a filha dele a acessar jogos antes dos dois saírem para patrulha.

“Por que você continua com esse trabalho, com o conhecimento que tem?” Paige lembra ter questionado Kleiman enquanto eles trabalhavam. Foi no começo dos anos 90 – a revolução dos computadores pessoais estava acontecendo, e o talento de Kleiman poderia render um salário muito maior do que o que ele recebia na delegacia. Kleiman sempre respondia que seu sonho era trabalhar como agente da lei.

Então em 1995 ele sofreu um acidente de motocicleta que o deixou em uma cadeira de rodas, o que parece ter intensificado seu interesse em computação. Ele continuou pouco tempo trabalhando na delegacia com computação forense antes de perseguir um trabalho parecido como freelancer para o setor privado.

Ao longo dos anos, a reputação de Kleiman como um especialista cresceu. Quando ele participava de conferências, diz Carter Conrad, o terceiro sócio da Computer Forensics LLC, ele era conhecido como “Dave Mississippi” pela quantidade sem fim de certificado de três letras que apareciam junto ao seu nome, que, juntas, pareciam até o nome do estado dos EUA. Ele apareceu na CNN e ABC News e co-escreveu livros sobre senhas perfeitas, ameaças de segurança para empresas, e software arcana. Em relação a segurança, Kleiman praticava o que pregava: Paige e Conrad lembram assistir a ele digitar senhas de 40 a 50 caracteres para acessar seus dispositivos e arquivos, e sua rede wireless doméstica era tão segura que Paige tinha dificuldade em conseguir trabalhar enquanto estava lá. “Cara, não consigo carregar a página”, ele disse em seu escritório imitando conversas que teve com Kleiman. “Não consigo rodar esse script!”

No começo dos anos 2000, Kleiman começou a contribuir com mailing lists de segurança computacional como as mantidas pelo securityfocus.com e metzdowd.com, sendo que essa última também foi usada por Satoshi Nakamoto nos primórdios do Bitcoin.

No fim de 2010, um amigo foi a casa de Kleiman ver como ele estava, e descobriu que ele tinha caído durante o banho e não conseguia se levantar. Esse amigo chamou o resgate, e Kleiman foi levado a um hospital próximo. Pelo resto da sua vida, por causa de feridas que ficaram infectadas com SARM, Kleiman só deixava centros de tratamento médico ocasionalmente, normalmente para ajudar Conrad e Paige em um trabalho. Em outras situações, a dupla levava discos para serem examinados pelo amigo durante visitas, e ele ajudava no que conseguia. Depois de cirurgias, e ele passou por várias, Kleiman era conhecido por retornar imediatamente ao computador para começar a trabalhar.

Criação do Bitcoin

Satoshi Nakamoto apresentou o framework por trás do Bitcoin em um paper submetido à lista Metzdowd em 2008, e a primeira iteração do software em 2009. Se Dave Kleiman realmente ajudou na criação, isso deve ter acontecido antes da sua hospitalização e criação da Computer Forensics LLC, quando ele trabalhava como autônomo. Um e-mail enviado ao Gizmodo parece mostrar Wright pedindo ajuda a Kleiman com o paper alguns meses antes da sua publicação. “Preciso da sua ajuda para editar um paper que foi lançar nesse ano. Venho trabalhando em uma nova forma de dinheiro eletrônico. Bitcash, Bitcoin…”, diz. “Você sempre esteve presenta para mim, Dave. Quero que faça parte disso tudo.”

Conrad parece mais cético do que Paige que o antigo parceiro deles era uma das mentes por trás de um dos maiores mistérios da internet, mas ambos reconhecem que ele tinha habilidade para criar e manter a discrição necessária para não vazar o segredo. A descrição que Conrad usou mais frequentemente em nossas conversas sobre Kleiman era “compartimentado”: ele mantinha as partes separadas da vida dele separadas, e se você não participasse dos negócios dele, ele não falaria nada sobre isso. A descrição que Paige usou com mais frequência foi “gênio”.

Kleiman deixou o hospital Miami VA em 2013 no que marcou o começo do que Paige se refere ao seu “período unabomber”. Ele se escondeu em casa e recusou contato com o mundo exterior, incluindo seus amigos mais próximos. Ele não estava bem fisicamente. Em um momento, disse a Paige que estava tremendo e lutando contra uma febre, mas continuaria trabalhando. Em outra ocasião, disse que chamaria a polícia se Paige continuasse ligando para saber se ele estava bem.

Menos de um mês depois, Dave Kleiman foi encontrado morto em sua casa. De acordo com relatos oferecidos pelo Palm Beach County Medical Examiner Office, a cena da morte de Kleiman era nojenta. Seu corpo estava em decomposição, havia trilhas de sangue e matéria fecal deixadas pela cadeira de rodas, garrafas abertas de álcool, e uma arma carregada ao seu lado. Um buraco de bala no colchão pode sugerir suicídio ou um acidente, mas nenhuma cápsula de bala foi encontrada, o que pode significar que ele atirou e teve tempo de limpar antes de morrer. A causa oficial da sua morte é natural, e Conrad lembra ter ouvido que a SARM parou o coração dele.

Mas e o dinheiro?

O fim de vida miserável do parceiro é o maior ponto de discórdia de Paige e Conrad em relação à ideia de que Kleiman esteve envolvido com o Bitcoin. Ele nunca pediu dinheiro, mas seus amigos frequentemente escreviam cheques com a esperança de mantê-lo bem mesmo quando sua condição era péssima.

Os documentos fornecidos ao Gizmodo incluem o que parece ser um rascunho não finalizado de um contrato de truste mostrando Wright confiando a Kleiman 1,1 milhão de Bitcoin em 2011. Isso equivale a centenas de milhões de dólares, mas de acordo com o contrato, o dinheiro deveria ser devolvido a Wright no futuro. O senso de honra de Kleiman pode ter feito ele não acessar o dinheiro que não acreditava pertencer a ele, mesmo nas piores condições, segundo Conrad.

Enquanto estava vivo, Kleiman mantinha um drive USB sempre consigo. Paige acredita que ele era feito pela Corsair – uma empresa que faz produtos com “acabamento de alumínio anodizado nível de aviação”. Se ele realmente possui uma fortuna digna de Satoshi Nakamoto, ela pode estar nesse dispositivo.

De acordo com Paige, o drive foi passado para o irmão de Kleiman, Ira, que se recusou a falar sobre o caso. Mas mesmo que os Bitcoins estejam lá dentro, recuperá-los não será fácil como simplesmente copiar arquivos de um drive USB convencional. Kleiman, um homem especializado em segurança, trancou tudo o que tinha com uma criptografia tão forte que até amigos com muito conhecimento em criptografia duvidam que conseguirão quebrar. “Se você me dissesse que tem um milhão de dólares no computador de Dave nessa sala, eu nem me daria ao trabalho de procurar,” disse Paige. “Seria uma perda de tempo.”