Uma espécie resistente de bactéria pode sobreviver às duras condições do espaço por longos períodos, mas somente depois de formar um aglomerado espesso e coagulado, de acordo com uma nova pesquisa. A descoberta pode reforçar a hipótese da panspermia: a ideia de que os asteroides semearam vida na Terra.

Deinococcus radiodurans é um micróbio extremófilo capaz de sobreviver a temperaturas extremamente baixas, radiação ionizante, luz ultravioleta e desidratação. E, como mostra uma nova pesquisa publicada nesta terça-feira (25) no Frontiers in Microbiology, esta bactéria também pode sobreviver às condições adversas do espaço sideral.

Amostras secas de Deinococcus foram trazidas de volta à vida depois de passar mais de três anos em um painel fora da ISS (Estação Espacial Internacional). Mas o problema é seguinte — as bactérias sobreviventes haviam se formado anteriormente como um aglomerado espesso, ou agregado, na linguagem dos pesquisadores. O grupo de cientistas foi liderado por Akihiko Yamagishi, professor da Universidade de Tóquio.

A nova descoberta sugere que certas bactérias, quando reunidas em uma massa, têm as condições necessárias para fazer longas viagens pelo espaço. Assim, Yamagishi e seus colegas dizem que isso aumenta a hipótese da panspermia, na qual a vida microbiana pode criar raízes em um planeta alienígena. A nova pesquisa também fala sobre um cenário de panspermia potencial envolvendo Terra e Marte, em que um dos planetas poderia ter semeado o outro — embora, para ser justo, ainda não saibamos se Marte já foi habitável.

Em 2008, Yamagishi e seus colegas usaram aeronaves e balões para detectar e documentar micróbios flutuando na atmosfera superior. Natualmente, amostras de Deinococcus radiodurans — um micróbio que o Guinness World Records lista como a forma de vida mais resistente à radiação — foram encontradas em altitudes que chegam a 12 km acima da superfície da Terra. Com esta bactéria confirmada na alta troposfera do nosso planeta, Yamagishi procurou descobrir como ela poderia se sair no ambiente hostil no espaço.

Astronauta japonês Kimiya Yui preparando o módulo de experimento para exposição. Crédito: JAXA/NASAAstronauta japonês Kimiya Yui preparando o módulo de experimento para exposição. Crédito: JAXA/NASA

O projeto experimental da equipe envolveu a exposição das amostras ao espaço por período de um, dois e três anos, enquanto descansava em um módulo de experimento de exposição fora da Estação Espacial Internacional.

Isso permitiu aos pesquisadores desenvolver uma curva de sobrevivências e estimar a capacidade da bactéria de resistir por um longo período de tempo, explicou Yamagishi em um e-mail. Agregados bacterianos de espessura variável foram expostos ao espaço. O experimento foi realizado de 2015 a 2018 sobre o Kibo, módulo experimental japonês da ISS.

Os resultados mostraram que todos os aglomerados com mais de 0,5 milímetros sobreviveram parcialmente à exposição ao espaço por três anos. Bactérias localizadas ao longo das superfícies externas dos agregados foram mortas, mas isso criou uma espécie de crosta protetora para os micróbios desidratados debaixo delas, de acordo com a nova pesquisa.

Depois de extrapolar os dados de sobrevivência para todos os três grupos de amostra, os cientistas previram que lotes com mais de 1 mm de diâmetro poderiam ter sobrevivido por um total de oito anos no espaço sideral e que agregados mais grossos teriam sobrevivido de 15 a 45 anos.

Quando questionado sobre como Deinococcus radiodurans é capaz de sobreviver a tais condições adversas, Yamagishi disse que é porque “eles têm várias cópias de genomas e uma capacidade elevada de reparar danos causados ao DNA”, o que eles fizeram assim que foram reidratados.

As novas descobertas fornecem a melhor estimativa até o momento da sobrevivência bacteriana no espaço, embora ela se aplique a um extremófilo conhecido. Mostra que certas bactérias, quando devidamente protegidas, podem sobreviver por longos períodos no espaço. Essa blindagem pode assumir a forma de agregados ou até mesmo de sepultamento dentro de uma rocha.

A descoberta levou Yamagishi a cunhar um novo termo: massapanspermia, “a hipótese de que os agregados microbianos podem ser transferidos entre planetas”, disse ele.

A nova pesquisa é empolgante, mas muito trabalho é necessário para fortalecer ainda mais as hipóteses de panspermia e agora massapanspermia. Teoricamente, os micróbios poderiam durar o suficiente para fazer a jornada até Marte, mas essa afirmação vem com algumas ressalvas.

“O tempo médio necessário para a transferência de objetos entre Marte e a Terra é cerca de dezenas de milhões de anos”, explicou Yamagishi. “No entanto, na órbita mais curta leva apenas meses ou anos, embora a frequência seja muito baixa.”

Portanto, embora seja possível que micróbios que pegam carona façam uma viagem rápida até Marte, isso está em baixa escala de probabilidade. E embora os micróbios extremófilos possam sobreviver mais de 45 anos no espaço, é uma questão em aberto se eles poderiam durar milhões de anos, o que certamente seria o caso de viagens interestelares ou mesmo de longas viagens até Marte.

As coisas ficam ainda mais complicadas quando se consideram outros fatores, como a capacidade dos micróbios de sobreviver a uma viagem chocante no espaço (provavelmente devido ao impacto de um asteroide), entrada aquecida na atmosfera de um planeta alienígena e impacto com a superfície alienígena.

Panspermia é uma boa ideia, mas muitas coisas teriam que acontecer para ela realmente dar certo. Se algum dia provarmos que é verdade, no entanto, isso significa que a vida é muito mais prevalente no universo do que jamais poderíamos ter imaginado.