O novo coronavírus é zoonótico, o que significa que ele chegou aos seres humanos a partir de animais. Os cientistas não têm certeza de qual animal o espalhou para nós, embora alguns acreditem que as cobras ou morcegos pegam coronavírus a partir de pangolins. Mas não são apenas os animais exóticos e selvagens que disseminam doenças. Novas pesquisas mostram que a próxima crise global de saúde pública pode chegar até nós por meio da agropecuária industrial.

O estudo, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences nesta segunda-feira (4), mostra que os métodos agropecuários contemporâneos – incluindo o uso excessivo de antibióticos, o alto número de animais amontoados em pequenos espaços e a falta de diversidade genética – fazem com que seja mais provável que os patógenos se espalhem para as pessoas a partir de animais de fazenda e iniciem uma epidemia entre os seres humanos.

“Nosso trabalho mostra que as mudanças ambientais e o aumento do contato com os animais de fazenda fizeram com que as infecções bacterianas passassem também para os humanos”, disse Sam Sheppard, professor do Centro Milner de Evolução da Universidade de Bath e autor do estudo, em comunicado.

Em particular, os cientistas analisaram a evolução da bactéria Campylobacter jejuni, que é comumente encontrada nas fezes dos animais de fazenda e, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, é a principal causa bacteriana da gastroenterite. Os pesquisadores estudaram a evolução genética da bactéria e descobriram que cepas específicas do gado bovino surgiram no século 20 – na mesma época em que os humanos começaram a criar gado em grande número.

“Campylobacter são excretados pelo gado no meio ambiente todos os dias”, escreveram os autores. “A magnitude da excreção é claramente importante em termos de contaminação ambiental direta e potenciais infiltrações na cadeia alimentar humana”.

Os cientistas argumentam que as mudanças na dieta, anatomia e fisiologia do gado, resultantes da agricultura industrial, permitiram que as bactérias sofressem mutações e se tornassem capazes de infectar humanos. Isso inclui práticas comuns hoje, como a alimentação das vacas com suplementos vitamínicos para mantê-las saudáveis e torná-las mais gordas.

Galinhas, porcos e animais selvagens podem espalhar o Campylobacter jejuni, mas o maior problema é o gado. Pesquisadores encontraram a bactéria em suas fezes um quinto das vezes.

“Estima-se que haja 1,5 bilhão de cabeças de gado na Terra, cada uma produzindo cerca de 30 quilos de esterco por dia”, disse Sheppard. “Se cerca de 20% desses animais são portadores de Campylobacter, isso representa um enorme risco potencial para a saúde pública.”

Se a bactéria for transmitida para as pessoas, o tratamento se torna difícil. Como são utilizados muitos antibióticos na agricultura animal, a bactéria é resistente a esses medicamentos. Os pesquisadores esperam que o mundo examine sua relação com a agricultura e faça mudanças para evitar a propagação do micróbio.

“Acho que este é um alerta para sermos mais responsáveis sobre os métodos de criação, para que possamos reduzir o risco de surtos de patógenos problemáticos no futuro”, disse Sheppard.

Além de tudo isso, a agropecuária é responsável por 14,5% de toda a poluição de gases de efeito estufa em todo o mundo – provavelmente deveríamos rever alguns dos métodos.