No final de dezembro de 2019, um homem de 42 anos com sintomas de pneumonia foi internado em um hospital de Paris. Uma amostra de muco do paciente que foi armazenada passou por novos testes e deu positivo para COVID-19, sugerindo que o novo coronavírus já estava na Europa muito antes do que se pensava.

Os três primeiros casos oficiais de COVID-19 na França foram registrados em 24 de janeiro de 2020. Esses também foram os primeiros casos confirmados em toda a Europa. Os três pacientes tinham viajado de Wuhan, China, o epicentro em que surgiu a pandemia de COVID-19, que registrou seu primeiro caso oficial em 31 de dezembro de 2019.

O provável é que o novo coronavírus estava circulando sem ser detectado há semanas. Novas pesquisas publicadas no International Journal of Antimicrobial Agents sugerem que o COVID-19 já tinha chegado à Europa no final de dezembro, como evidenciado por essa amostra de um paciente hospitalizado que foi mantida em uma câmara fria e reanalisada.

“Identificar o primeiro paciente infectado é de grande interesse epidemiológico, pois muda drasticamente nosso conhecimento sobre o SARS-CoV-2 e sua disseminação no país”, de acordo com os autores do estudo, que incluiu Yves Cohen do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica (INSERM). “Além disso, a ausência de uma ligação com a China e a ausências de viagens recentes sugerem que a doença já estava se espalhando entre a população francesa no final de dezembro de 2019.”

Até o momento, a França tem quase 170 mil casos confirmados de COVID-19 e 25.204 mortes, segundo o mapa da Universidade Johns Hopkins.

É plausível que o vírus estivesse na Europa antes mesmo de ganhar um nome e ser identificado, dadas as evidências de sua existência já em novembro de 2019 – possivelmente até antes. A resposta inadequada da China ao início do surto, que incluiu a contenção de informações de alerta de um novo coronavírus em Wuhan, contribuiu para que a doença se tornasse uma espiral fora de controle e uma pandemia global.

Em 27 de dezembro de 2019, um homem chegou ao hospital em Paris tossindo sangue, com febre e reclamando de dores de cabeça – sintomas agora associadas ao vírus SARS-CoV-2. O homem de 42 anos disse que seus sintomas tinham piorado nos últimos 4 dias, de acordo com o estudo. Dado que o COVID-19 tem um período de incubação de cerca de 6 a 11 dias, o paciente provavelmente foi infectado em algum momento entre 16 e 21 de dezembro.

Após fazer exames, seus médicos não conseguiram conferir um diagnóstico formal ou detectar patógenos, então eles o medicaram com antibióticos. O paciente foi levado para casa dois dias após a internação e se recuperou, mas o hospital manteve sua amostra respiratória.

Autoridades de saúde na França revisaram recentemente todas as amostras de pacientes internados em UTIs entre 2 de dezembro de 2019 e 16 de janeiro de 2020, para determinar se o COVID-19 tinha entrado no país mais cedo do que o imaginado. Todos os exames deram negativo, exceto um.

Para se certificarem que não foi um falso positivo, duas equipes independentes foram trazidas para analisar a amostra com testes diferentes para COVID-19, mas os resultados foram os mesmos: positivos para o SARS-CoV-2. Ou seja, para que esse seja um falso positivo, seriam três falsos positivos distintos, com base nas precauções extras utilizadas durante o estudo.

Não está totalmente claro como o paciente contraiu o COVID-19, supondo que os exames estejam corretos. O homem não viajava para o exterior desde uma visita à Argélia, em agosto de 2019, e não tem histórico de viagens ou vínculo com a China, explicaram os autores.

Dito isso, o filho do paciente estava doente antes de ele apresentar os sintomas. Além disso, sua esposa trabalha em uma loja de conveniência perto do aeroporto de Roissy-Charles-de-Gaulle, e frequentemente atende clientes vindos diretamente do aeroporto, de acordo com a emissora francesa BFMTV. É possível, portanto, que ela tenha contraído o vírus de passageiros que desembarcaram em Pais e se tornou uma transportadora assintomática do vírus, espalhando-o para sua família. Mas isso é apenas especulação.

“Essa notícia esclarece que há uma propagação significativa do vírus que desconhecemos e que o vírus está circulando há muito mais tempo do que sabemos”, disse Brandon Brown, professor associado da Faculdade de Medicina da UC Riverside, ao Gizmodo.

Com esse resultado, é possível que outros países que realizarem testes em retrospectiva apresentem resultados semelhantes. Evidências recentes da Califórnia sugerem que o COVID-19 também estava na região em dezembro de 2019. Esses resultados são alarmantes, apontando para a difusão rápida do novo coronavírus durante seus estágios iniciais.