Os fatos estão embutidos no tecido do Universo, mas a ciência às vezes pode ser uma ferramenta problemática para estabelecê-los. Por vezes, mesmo as descobertas mais empolgantes podem sofrer reviravoltas com novas evidências.

Pegue por exemplo a água corrente em Marte. Dois anos atrás, a NASA fez um anúncio surpreendente baseada na aparição de fluxos sazonais, chamados de Linhas de Declive Recorrente (RSL na sigla em inglês). Obviamente, a primeira coisa que veio à mente de muita gente foi: vida. Mas um novo estudo parece jogar dúvida se a água era a verdadeira causa dessas características. Talvez tenha sido areia esse tempo todo.

“[A presença de] água líquida corrente no atual clima marciano sempre foi uma alegação extraordinária”, escreveram os autores no estudo publicado no periódico Nature Geoscience nessa segunda-feira (20). “As observações e interpretações apresentadas aqui sugerem que as RSL não são mais provas extraordinárias.”

Cientistas estabeleceram a evidência original de água em Marte baseados no escurecimento dependente de temperatura das estreitas e estriadas RSL. Dados do Orbitador de Reconhecimento de Marte sugeriram que o escurecimento havia sido causado pela água fluindo e hidratando os sais, de acordo com um estudo também publicado na Nature Geoscience.

O novo estudo, feito por uma equipe de pesquisadores de Estados Unidos e Reino Unido, observou a topologia marciana. A equipe descobriu que as especificidades dessas RSL, especialmente seu comprimento em comparação com o declive da colina, seriam melhor explicadas por grãos correntes de areia. Mais água fluiria declive abaixo, algo que não foi observado.

O estudo não descarta completamente a presença de água — existe, definitivamente, provas de sua presença nos polos. Mas ele joga dúvida sobre a quantidade de água corrente que existe lá e sobre a potencial presença de vida. “A água líquida envolvida provavelmente existe em pequeno volume, com pouca atividade, de forma inóspita para a vida terrestre conhecida, aliviando as preocupações de proteção planetária”, continua o artigo.

Mas ainda existe trabalho a ser feito para entender as RSL. “O entendimento completo das RSL provavelmente dependerá de investigações em solo dessas características”, disse, Rich Zurek, cientista de projetos do Orbitador de Reconhecimento de Marte que não esteve envolvido no estudo, em comunicado do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. “Em particular, ainda nos escapa uma explicação completa dessas enigmáticas características escuras e apagadas. A detecção remota, em diferentes momentos do dia, poderia nos fornecer pistas importantes.”

E se os humanos visitarem Marte, as preocupações de proteção planetária seguirão até que o local seja completamente compreendido, de modo que “se evite a introdução de micróbios da Terra”, disse Zurek, “pelo menos até que eles estejam definitivamente caracterizados”.

[Nature Geoscience]