A Amazon tem enfrentado investigações antitruste nos Estados Unidos e na União Europa: a companhia tem sido acusada de mudar algoritmos para favorecer seus próprios produtos e usar os dados de vendedor para seu próprio lucro. A companhia nega que tenha cometido algum delito, mas uma investigação do Wall Street Journal afirma que a companhia tem adotado esse tipo de prática, além de coletar informações para criar produtos similares de alguns dos sucessos do e-commerce.

Em entrevistas com vários ex-funcionários da Amazon que cuidavam dos produtos fabricados pela própria companhia e documentos obtidos pelo WSJ, esses funcionários supostamente “consultaram informações de vendas de fornecedores terceirizados ao desenvolverem mercadorias de marca própria”.



Esse tipo de informação teria guiado a Amazon no preço de seus produtos com sua marca ou se ela deveria ou não começar a produzir um determinado produto com base no potencial de lucros.

O Gizmodo procurou a Amazon, mas não obteve resposta. A Amazon disse ao WSJ que o uso de dados de vendedores para informar decisões de suas marcas viola suas políticas e que iniciou uma investigação interna.

“É simplesmente incorreto dizer que a Amazon foi intencionalmente enganosa em nosso testemunho [ao Congresso]. Como dissemos ao Wall Street Journal e explicamos em nosso testemunho, proibimos estritamente os funcionários de usar dados não públicos, específicos do vendedor, para determinar quais produtos de marcas próprias lançar”, disse um porta-voz em uma declaração divulgada à mídia. “Embora não acreditemos que essas alegações feitas pelo Wall Street Journal sejam precisas, levamos essas alegações muito a sério e iniciamos uma investigação interna”.

O comunicado se referia ao testemunho do conselheiro geral associado da Amazon, Nate Sutton, ao Congresso, em julho de 2019. Na ocasião ele disse que a empresa não “usa dados individuais de vendedores diretamente para competir” com as empresas em seu próprio mercado.

Um dos exemplos identificados pelo WSJ é um organizador de porta-malas de carros feito e vendido por um terceiro na Amazon, da marca Fortem – pequena empresa sediada no Brooklyn.

A Fortem vende seus organizadores de porta-malas na Amazon desde março de 2016, e se tornou um best-seller não muito tempo depois de começar os negócios no site. A Amazon lançou um produto muito parecido com o da Fortem com a sua marca e pelo mesmo preço. Ao obter os dados de lucro por unidade a partir das informações dos vendedores terceirizados, a Amazon poderia “garantir que os potenciais fabricantes pudessem entregar uma margem maior sobre um produto concorrente da marca Amazon antes de se comprometerem com ela”, indica a reportagem do WSJ.

Resumindo: a gigante do varejo teria obtido informações privilegiadas de um vendedor de marketplace para criar seu próprio produto.

Ex-funcionários da Amazon disseram ao WSJ que embora a empresa tenha regras destinadas a impedir que executivos das marcas próprias acessem os dados dos vendedores, essas regras não eram aplicadas de forma consistente; o uso desses dados supostamente se tornou tão comum que às vezes eram levantados em reuniões.

Se um executivo da marca ainda não tivesse acesso aos dados do vendedor como o Fortem, os gerentes pediriam a um analista de negócios da Amazon relatórios contendo essas informações específicas, de acordo com a reportagem.

Embora seja prática comum das redes de varejo venderem suas próprias marcas para competir com outras empresas (pense em produtos com marcas de supermercado, como acontece no ramo alimentício no Brasil, por exemplo), essas outras empresas de varejo não têm o mesmo tipo de acesso aos dados de vendedores terceirizados que a Amazon tem.

A Amazon supostamente fez o mesmo tipo de relatório com outra empresa, a Upper Echelon Products, no ano passado. Essa companhia faz uma popular almofada de cadeira de escritório. Após analisar todos os dados, segundo o WSJ, a Amazon lançou sua própria versão em setembro do ano passado.

Quando o WSJ revelou os casos à Fortem e à Upper Echelon Products, as duas empresas ficaram incomodadas.

Travis Killian, CEO da Upper Echelon que emprega sete pessoas, disse que não se conformava com o fato de funcionários da Amazon analisarem os dados de suas empresas para fins de concorrência. Um dos fundadores da Fortem, Oleg Maslakou, disse que essa informação foi uma grande surpresa. Parece que ambas as empresas não faziam ideia de que a Amazon estava supostamente puxando esse tipo de informação sobre elas.

Enquanto quase 40% de todas as compras online nos EUA acontecem na Amazon, os produtos de marca própria da empresa representam apenas 1% de suas vendas anuais de varejo – que chega a US$ 158 bilhões, sem contar os gadgets da marca, como Echo e Kindle.

No entanto, de acordo com ex-executivos, a Amazon quer que esse número suba para 10% até 2022, e os gerentes de diferentes marcas da Amazon foram informados de que criariam negócios de US$ 1 bilhão para suas respectivas seções. De acordo com a reportagem, 58% de todas as vendas da Amazon vêm de vendedores terceirizados.

Investigação contra a Amazon

A reportagem já está causando reações e uma carta assinada por sete membros do Congresso dos EUA enviada para Jeff Bezos, CEO da Amazon, diz que “se verdadeiras, as alegações [da reportagem] contradizem testemunhos anteriores e respostas escritas que a Amazon apresentou ao Comitê”. Os legisladores ainda caracterizam as declarações da Amazon como sendo “enganosas, e possivelmente criminosamente falsas ou perjurosas”.

Os signatários utilizaram a oportunidade para repreender a Amazon por sua falta de cooperação até o momento com a investigação antitruste em andamento no Congresso.

“Em setembro passado, solicitamos documentos e comunicações referentes ao relacionamento da Amazon com os vendedores, incluindo o uso de dados de vendedores terceirizados pela Amazon”, diz a carta. “A Amazon não fez uma produção adequada em resposta a esta solicitação, e sete meses após a solicitação original, lacunas significativas permanecem.

Dado o histórico de atrasos e descumprimento da empresa, eles terminam com uma ameaça velada ao CEO afirmando que “embora esperemos que você testemunhe voluntariamente, reservamo-nos o direito de recorrer ao processo compulsório, se necessário”.