Em 1º de dezembro de 2013, os americanos assistiram a um segmento do programa 60 Minutes sobre os planos da Amazon de fazer entregas por drone em apenas “quatro ou cinco anos”. Bem, já faz oficialmente cinco anos.

E o fracasso da Amazon em tornar a entrega por drones uma realidade é um ótimo lembrete de que as promessas públicas de grandes empresas de tecnologia muitas vezes não valem muito. E, sinceramente, também é uma oportunidade de agradecer que a Amazon ainda não está zumbindo com seus drones sobre nossas cabeças como se fosse dona dos céus.

A agência de notícias Associated Press divulgou uma nova reportagem nesta segunda-feira (3) que serve como um acompanhamento raro às promessas tão frequentemente feitas por empresas de tecnologia para o futuro.

Várias companhias focadas em tecnologia se safam ao dizer que algo está a dois, três, cinco anos de virar realidade e nunca cumprir a promessa, e dificilmente a imprensa cobra esse compromisso depois. Mas é importante lembrar daquela entrevista chapa-branca com o CEO da Amazon, Jeff Bezos, conduzida pelo então apresentador do 60 Minutes, Charlie Rose, em 2013, que não trouxe nenhuma informação valiosa, apenas servindo como propaganda positiva para a Amazon.

Muita coisa mudou no mundo desde 2013. Por exemplo, o repórter que cobriu essa propaganda velada, Charlie Rose, foi demitido depois que várias mulheres o acusaram de má conduta sexual. Teve também a ascensão global do fascismo, que tem o potencial de realmente frear o progresso da sociedade desde 2013, para dizer o mínimo.

Mas, quando se trata dos esforços da Amazon, não mudou muita coisa. A empresa ainda está trabalhando para dominar o mundo do varejo em detrimento dos direitos dos trabalhadores, e ainda estamos comprando produtos de lá porque a Amazon geralmente nos dá o melhor preço e entrega rapidamente.

O serviço Prime Air, por drones, da Amazon, foi propagandeado como um projeto “secreto de pesquisa e desenvolvimento” que iria revolucionar o comércio nos Estados Unidos.

Não é preciso nem dizer que ainda não temos as entregas por drones da Amazon. E tudo que aquela aparição na TV fez foi dar algo para os telespectadores assistirem naquela noite de domingo. Sem falar nas 16 milhões de visualizações no YouTube, que é definitivamente uma vitória em termos de jogada de marketing.

A Amazon não respondeu ao pedido do Gizmodo de entrevista, e nem vamos esperar uma resposta. As empresas de tecnologia e a imprensa desenvolveram uma relação mais combativa desde 2013, com cada vez mais repórteres percebendo que não estão ajudando os leitores quando agem apenas como extensão da assessoria de imprensa de uma companhia.

Não tem nada errado em sonhar alto, claro, especialmente quando se trata de tecnologia que tem o potencial de ajudar a humanidade. Mas esse segmento do 60 Minutes sobre drones de entrega da Amazon nunca deveria ter sido transmitido.

A entrega por drones é certamente uma possibilidade tecnológica hoje, assim como foi em 2013, mas, assim como muitos outros sonhos quase inalcançáveis de bilionários (alguém se lembra do Hyperloop?), os obstáculos são mais políticos do que tecnológicos.

Como aponta a Associated Press, as regras federais que permitiriam que os drones voassem fora da linha de visão de um operador estão provavelmente a pelo menos dez anos de surgirem.

Há uma longa lista de regras da Administração Federal de Aviação dos EUA que regem os voos de drones. Eles geralmente não podem voar acima de 121 metros, sobre várias instalações federais ou a menos de oito quilômetros de um aeroporto. Voos noturnos são proibidos. Para o negócio de entrega, o maior problema é que as máquinas devem permanecer sempre à vista do operador.

E outra: queremos mesmo viver em um mundo em que os drones estão constantemente zunindo sobre a gente para que possamos entregar nosso papel higiênico um pouco mais rápido? Talvez algumas pessoas queiram. E talvez aqueles que rejeitam essa versão do futuro possam ser justamente chamados de ludistas. Mas, à medida que fica cada vez mais claro que muitas das tecnologias de nossa geração fizeram muito pouco para realmente melhorar nossas vidas, definitivamente temos o direito de ser céticos.

[Associated Press]