Os baby boomers — como são chamados os nascidos durante o súbito aumento da natalidade após a Segunda Guerra Mundial — estão passando por uma queda mais acentuada nas funções cognitivas em relação às gerações anteriores, de acordo com um estudo recente. As descobertas não apenas sugerem que os boomers terão maior probabilidade de desenvolver condições como demência do que as gerações passadas, mas as gerações futuras podem enfrentar riscos semelhantes ao envelhecer.

O estudo, publicado no The Journals of Gerontology: Series B, no final do mês passado, analisou os resultados dos testes cognitivos de mais de 30 mil americanos com mais de 50 anos que estavam matriculados em um projeto de pesquisa de longa duração da Universidade de Michigan, chamado Pesquisa de Saúde e Aposentadoria.

Como parte do projeto, foram feitas perguntas aos voluntários para avaliar suas funções cognitivas a cada dois anos. As perguntas incluíam contagem regressiva em incrementos de 7 começando em 100 e lembrar o nome de objetos que haviam sido mostrados. No total, o estudo analisou quase 20 anos de resultados de testes, coletados de 1996 a 2014.

Embora as pessoas geralmente percam um pouco do poder cerebral como parte do processo normal de envelhecimento, o estudo descobriu que houve uma tendência de melhoria nas funções cognitivas nas gerações nascidas antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

O estudo obteve dados das seguintes coortes:

  • geração grandiosa (nascidos entre 1890 e 1923);
  • primeiros filhos da depressão (nascidos entre 1924 e 1930);
  • últimos filhos da depressão (nascidos entre 1931 e 1941);
  • filhos da guerra (nascidos entre 1942 e 1947);
  • primeiros baby boomers (nascidos entre 1948 e 1953);
  • baby boomers intermediários (nascidos entre 1954 e 1959).

Embora cada geração tenha melhorado a cognição depois de certa idade em comparação com a anterior, os boomers mostraram um declínio em comparação aos filhos da guerra, quebrando o padrão de melhoria.

“É chocante ver esse declínio no funcionamento cognitivo entre os baby boomers após gerações de aumentos nas notas dos testes”, disse Hui Zheng, autor do estudo e professor de sociologia da Universidade Estadual de Ohio, em comunicado divulgado pela universidade. “Mas o mais surpreendente para mim é que esse declínio é visto em todos os grupos: homens e mulheres, em todas as raças e etnias e em todos os níveis de educação, renda e riqueza.”

Zheng também tentou observar os declínios na cognição relacionados à idade, observando apenas os resultados de pessoas no início dos 50 anos. Mas, novamente, os primeiros baby boomers na faixa dos 50 anos tiveram, em média, resultados mais baixos do que as pessoas das gerações anteriores na mesma faixa etária. Isso provavelmente significa que, o que quer que esteja causando essa queda na cognição, o declínio começou a se tornar aparente quando os baby boomers ainda estavam na meia-idade.

Este tipo de estudo não é capaz de mostrar o que pode estar por trás da queda nas funções cognitivas. Mas Zheng tentou explicar os possíveis fatores que poderiam ter influenciado essas tendências em sua análise.

Melhorias na nutrição e saúde da infância ao longo do século 20 provavelmente ajudam a explicar por que as gerações anteriores à Segunda Guerra Mundial começaram a ter uma melhor cognição do que a geração anterior, segundo dados obtidos por Zheng.

Mas os baby boomers tiveram essas vantagens e muito mais, pois também passaram por ganhos gerais em educação e condições de trabalho. Ao mesmo tempo, os baby boomers em geral foram provavelmente expostos a taxas mais altas de outros fatores ligados ao declínio das funções cognitivas.

As causas subjacentes incluem menor riqueza, menor probabilidade de se casar, níveis mais altos de solidão e depressão e maior nível de fatores de risco cardiovascular (por exemplo, obesidade, inatividade física, hipertensão, diabetes, derrames, doenças cardíacas)”, disse Zheng em um email para o Gizmodo. Ele também observou que os EUA têm seus próprios obstáculos adicionais, como a falta de assistência médica universal e acessível.

As descobertas também podem explicar um padrão aparentemente contraditório que pesquisas anteriores mostraram, disse Zheng. Sabe-se que os baby boomers sofrem mais problemas de saúde crônicos do que as gerações recentes anteriores na idade. Mas outros estudos sugeriram que a taxa de incidência de demência e comprometimento cognitivo entre americanos mais velhos vem melhorando ao longo das décadas em relação às gerações passadas. A pesquisa de Zheng sugere que essa tendência não continuará e que ainda não chegamos ao momento em que muitos boomers seriam mais afetados por condições como a de Alzheimer.

No entanto, os boomers mais velhos estão agora na casa dos 70 anos, enquanto os mais novos estão chegando aos 60 anos. Portanto, se as descobertas de Zheng representam um declínio genuíno e generalizado da cognição através das gerações, é provável que haja um aumento nas taxas da doença de Alzheimer e de outras formas de demência, já que o declínio cognitivo precoce é um importante fator de risco para demência posterior.

E se quaisquer fatores que estão afetando negativamente os baby boomers ainda estão por aí ou pioram no futuro, a geração X e os millennials vão enfrentar este mesmo desafio — ou uma situação ainda pior.

Como agora existem mais americanos do que nunca, especialistas em saúde pública preveem que haverá mais casos de Alzheimer em um futuro próximo. A Alzheimer’s Association, por exemplo, estima que o número de americanos acima de 65 anos com Alzheimer possa crescer para 13,8 milhões até 2050, acima dos 5,8 milhões estimados agora. É possível, de acordo com Zheng, que o problema possa ser ainda pior do que pensamos. Ao mesmo tempo, ele não acha que estamos necessariamente condenados.

“O funcionamento cognitivo pode continuar em declínio entre os baby boomers se não houver intervenções e respostas políticas efetivas, o que pode fazer com que a prevalência de demência aumente substancialmente nas próximas décadas”, disse ele. “Mas essa não é uma tendência irreversível.” Zheng sugere esforços por mais atividade física, dieta saudável e fortes laços sociais para reduzir o risco de declínio cognitivo na idade avançada.