Uma nova pesquisa da Gallup mostra que 40% dos adultos americanos têm uma visão estrita do criacionismo, na qual Deus criou os seres humanos nos últimos 10.000 anos. O que é mais encorajador é que um número recorde de americanos agora diz que Deus não teve absolutamente nada a ver com isso.

O biólogo evolucionista Charles Darwin publicou Sobre a Origem das Espécies em 1859, mas para os americanos, este livro de ciência seminal ainda está se mostrando difícil de ser vendido. Apesar de mais de 150 anos de investigação científica – desde estudos de fósseis transicionais e traços vestigiais até a descoberta do DNA e observações empíricas da evolução em ação – uma porção considerável da população americana ainda prefere a intervenção divina à seleção natural.

Uma pesquisa da Gallup realizada de 3 a 16 de junho de 2019 via telefones fixos e celulares mostra que 40% dos adultos americanos ainda atribuem uma interpretação bíblica estrita das origens da humanidade, enquanto um em cada três acredita que a evolução é verdadeira, mas que Deus desempenhou um papel importante em direcionar o desenvolvimento de nossa espécie ao longo do tempo. A proporção de criacionistas estritos é 2% maior do que uma pesquisa similar feita em 2017, mas caiu 6% em relação a uma pesquisa feita em 2012.

Quanto aos americanos que acreditam na evolução, com Deus não desempenhando nenhum papel, agora chega a até 22% – o maior número já registrado desde que a Gallup começou a fazer essa pesquisa há 37 anos. Como a Gallup apontou, isso “coincide com um número crescente de americanos dizendo que eles não têm identificação religiosa”. Em 1982, apenas 9% dos americanos tinham a visão estrita da ausência da participação de Deus sobre as origens da humanidade.

Para a pesquisa, a Gallup realizou entrevistas por telefone com 1.015 adultos americanos que vivem em todos os 50 estados dos EUA e no Distrito de Columbia. Os entrevistados foram solicitados a escolher qual destas afirmações se aproximava mais de suas próprias opiniões sobre a origem e o desenvolvimento dos seres humanos:

(1) Os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos avançadas de vida, mas Deus guiou esse processo.

(2) Os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos avançadas de vida, mas Deus não teve participação neste processo.

(3) Deus criou os seres humanos praticamente em sua forma atual em algum momento nos últimos 10.000 anos.

Durante as quase quatro décadas em que a Gallup realizou essa pesquisa, cerca de 47% dos adultos americanos a 38% adotaram uma visão criacionista estrita das origens humanas. Da mesma forma, entre 31% e 40% dos americanos atribuíram uma combinação de Deus e processos naturais ao desenvolvimento evolutivo humano.

Como mostram os novos resultados, os pontos de vista dos americanos sobre criacionismo e evolução são fortemente influenciados pela identificação religiosa, frequência à igreja, educação, gênero e orientação política.

Dos americanos que frequentam a igreja semanalmente, 68% disseram que Deus criou a humanidade em sua forma atual, e quase metade dos americanos que frequentam a igreja mensalmente descreveu suas opiniões como estritamente criacionistas.

Quase 60% dos norte-americanos que não declararam filiação religiosa disseram que Deus não desempenhou qualquer papel na evolução humana, enquanto 89% dos protestantes e 80% dos católicos atribuíram uma visão rigorosa criacionista ou uma visão de que Deus exerceu um papel sobre a evolução humana.

Dos adultos americanos sem diploma universitário, 48% atribuem possuem uma visão criacionista, mas 30% com um diploma universitário ainda acreditam que Deus guiou a evolução humana. Um em cada três americanos com diploma universitário disse que Deus não desempenhou nenhum papel.

Em termos de gênero, as mulheres (45%) eram mais propensas a ter uma visão estrita do criacionismo em comparação aos homens (35%). Daqueles que disseram que Deus não desempenhou nenhum papel, 18% eram mulheres e 26% eram homens. Mulheres e homens representaram uma proporção igual (50% – 50%) no caso da visão de que Deus desempenhou um papel na evolução.

Por fim, 54% dos conservadores adotaram uma visão rigorosa do criacionismo, enquanto 38% dos liberais disseram que Deus não participava do processo.

Vale ressaltar que a crença em um Deus que guia a evolução ainda é uma forma de criacionismo; a potência da seleção natural, como articulada por Darwin, é que ela é um processo autossustentável e totalmente autônomo que não requer intervenção externa. Consequentemente, a crença na evolução e um Deus interveniente não é tão benigna quanto parece. Com isso em mente, o número total de adultos americanos que acreditam em algum tipo de criacionismo chega a impressionantes 73%.

Isso é incrivelmente desanimador, mas pelo menos o número de americanos que não acreditam que Deus desempenhou um papel na evolução humana está aumentando constantemente. Esperamos que continue a aumentar.

Aqui no Brasil, a última pesquisa sobre o assunto foi realizada em 2010 pelo Datafolha. Na época, o estudo feito com mais de 4 mil pessoas com mais de 16 anos revelou que 59% dos brasileiros acreditavam em uma evolução guiada por Deus. Já 25% eram estritamente criacionistas e 8% evolucionistas (não acreditavam em uma intervenção divina).

Apesar da pesquisa não ser tão recente, outros números atuais mostram que há mais assuntos relacionados à ciência e com evidências concretas que ainda são contestados por alguns grupos. Exemplo disso é o terraplanismo que, segundo pesquisa do Datafolha realizada este mês, é uma teoria defendida por 7% dos brasileiros, o que corresponde a cerca de 11 milhões de pessoas. De acordo com o estudo, a crença é maior entre menos escolarizados e cristãos.