Seria incorreto me dirigir aos famosos usuários do Vine como simplesmente “criativos”. Com grande popularidade no Facebook, a página “Best Vines” ultrapassa a marca de 9 milhões de leitores que assistem às obras criadas por alguns dos mais de 13 milhões de usuários do app que, em outubro do ano passado, era comprado pelo Twitter.

Lançado em janeiro, o Vine tinha como promessa ser a maior rede social voltada para o compartilhamento de vídeos curtos: em abril de 2013, foi o app mais baixado na App Store. Entretanto, pouco depois, em junho, o Instagram decidiu entrar no mercado anunciando sua ferramenta de compartilhamento de vídeos. Mais prática e com mais funcionalidades, ela ocasionou a migração de mais de 100 mil usuários.

O que parecia o fim do Vine logo surpreendeu: apesar da forte concorrência, ele continua sendo a mais famosa e mais acessada rede de compartilhamento de vídeos atualmente. Por trás de todos esses dados, é possível que o Vine tenha algo importante a nos ensinar sobre a dinâmica do humor e da cultura do compartilhamento na internet.

Esse artigo da Wired explica bem a diferença principal entre o Vine e o Instagram: basicamente, o Vine sobrevive porque foi capaz de criar uma cultura. Vulgo, conquistou um nicho de usuários que estão aí pra avacalhar e isso atrai fãs e faz o aplicativo crescer em número de adeptos, seguidores e afins. Coisa que o Instagram não consegue porque sempre se caracterizou por ser todo bonitinho, foto de comida, foto de gente bem arrumada – e quando a ferramenta de vídeos foi lançada, o padrão seguiu o mesmo. “Já o Vine surgiu do nada. Construiu uma cultura informal, solta e – francamente – bastante bizarra”, comenta o autor do artigo.

A interface é simples: baixa-se o aplicativo, cria-se um login e então já é possível assistir aos vídeos, curtir, comentar e reblogar em sua própria conta. O Vine foi criado com um intuito parecido com o do Twitter: não para ser uma rede social propriamente dita, mas sim uma rede de microblogs. É um fenômeno curioso, mas a popularidade de ambos os serviços apenas reflete a tendência contemporânea que norteia nossa sede por informação rápida e sem muitos obstáculos cognitivos: nada de palavras difíceis, parágrafos longos ou interferência dos arredores, apenas a piada ou a surpresa inesperada após 5 segundos de vídeo.

Esse fenômeno tem um nome: a busca pelo frisson. Inicialmente esboçado por Nicholas Carr em um artigo da Wired e, posteriormente, explorado por Roger Ebert em seu blog, o conceito do frisson tem a ver com nosso decrescente desejo por conteúdo e cada vez mais necessidade por impacto, por bombardeio visual instantâneo (rápido parênteses: não é a toa que Michael Bay é interpretado como gênio por ter sacado isso e se aproveitar dessa tendência colocando explosões a cada 30 segundos em seus filmes… audiência ele consegue).

O Vine tem muito a ver com isso: como vídeos de 7 segundos conseguem nos divertir tanto? O Youtube já havia nos apresentado um novo paradigma por disponibilizar formas rápidas de ver conteúdo audiovisual online, cuja duração ficava entre 3 ou 10 minutos no máximo nos primórdios do site. Mas o Vine ousou ainda mais e faz sua dashboard parecer mais com uma lista de gifs animados do que com um catálogos de vídeos.

As semelhanças entre os históricos do Vine e do Youtube podem nos dar um prognóstico de como será o futuro dessa forma de compartilhamento. Estima-se que, em 2015, dois terços do conteúdo da internet sejam de material audiovisual. Isso é muita coisa. O Google admitiu que o Youtube nunca foi lucrativo e que causava grandes prejuízos para manter espaço físico e cuidar da manutenção dos seus servidores. Mas ainda assim, ele é uma ferramenta diária de entretenimento e pode ser responsável por grandes mudanças na nossa forma de se comportar a esse tipo de mídia: streamings ao vivo, o material publicitário produzido especialmente para o site e a fácil ligação dele com outras redes sociais demonstram isso.

É provável que o Vine não permaneça o mesmo daqui a pouco tempo. A dinâmica da internet é caracterizada pela efemeridade: se a rede social sobrevive hoje graças à cultura de seus usuários, nada garante que o aspecto orgânico de toda cultura não seja também a causa de sua ruína – e isso pode acontecer da noite pro dia, como foi o caso do Orkut ou do MSN. Resta saber que estratégias financeiras, visuais e culturais ele empregará para não não deixar seus muito-mais-do-que-criativos usuários irem embora, entediados ou atraídos por algo mais promissor.


sobre comediaDiscutir comédia é algo que fazemos pouco. O blog Sobre Comédia é sobre isso, é sobre a comédia no Brasil e no mundo.

Republicado com autorização.