O que acontece se você colocar 15 pessoas juntas em uma caverna escura e tirar sua capacidade de rastrear a passagem do tempo? Uma experiência extraordinária na França tentou responder a essa pergunta e os resultados são fascinantes.

Às 10h30, horário local, no sábado, 24 de abril, 15 pessoas emergiram da caverna Lombrives em Ussat les Bains, França, após 40 dias de isolamento total do mundo exterior. Muitos deles tinham sorrisos em seus rostos, apesar das condições lá embaixo estarem longe das ideais.

O ambiente era certamente difícil, com a temperatura fixada em 10ºC e a umidade relativa em 100%. Nem um único raio de sol entra nesta caverna, obrigando a equipe a depender exclusivamente de iluminação artificial. E sem nenhuma maneira de se comunicar com o mundo exterior, os membros da equipe perderam o contato com seus amigos, familiares e o ciclo diário de notícias.

É importante ressaltar que eles também perderam a noção do tempo, já que nenhum tipo de relógio era permitido na caverna. Pois foi este o ponto do projeto “Deep Time”, organizado pelo Human Adaptation Institute, que estuda como os humanos se adaptam e trabalham em conjunto para recriar “sincronizações fora dos indicadores habituais”, como explica o grupo em seu site.

A equipe saindo da caverna em 24 de abril de 2021. Imagem: Renata Brito (AP)

Quando questionados por quanto tempo eles permaneceram na caverna, a equipe coletivamente calculou que foi em torno de 30 dias (embora, como relata o The Guardian, uma pessoa estimou a duração total em 23 dias!). O fato de a equipe ter perdido a noção de 10 dias inteiros (ou mais) é um tanto espantoso e prova de nossa dependência de relógios ou do ciclo dia-noite para controlar o tempo. Parece que nossos relógios internos são realmente ruins e estão sujeitos a variações consideráveis ​-​- mesmo no período de tempo relativamente curto de 40 dias.

O projeto Deep Time de € 1,2 milhão (US$ 1,45 milhão) incluiu 50 protocolos de pesquisa diferentes, abrangendo diversos campos científicos. Usando sensores, uma equipe externa foi capaz de monitorar todos os 15 membros, seguindo seus padrões de sono, interações sociais, temperatura corporal e outras métricas. As acomodações eram primitivas, mas aceitáveis. Imagens tiradas dentro da caverna bem iluminada mostram tendas, refrigeradores, mesas dobráveis, cadeiras, plataformas de madeira e grande quantidade de tecnologia. Os membros da equipe, alguns vestindo casacos e gorros, podem ser vistos fazendo experimentos ou envolvidos em discussões casuais.

A expectativa é que esta pesquisa lance luz sobre os processos fisiológicos e cognitivos envolvidos com o isolamento social, a privação do relógio e o rastreamento do tempo, mas também há um aspecto prático nisso. Este trabalho poderia levar a melhores condições para as tripulações de submarinos, mineiros e operadores de máquinas de perfuração. Também pode ser benéfico para futuros exploradores na Lua e em Marte, que da mesma forma experimentariam interrupções em um dia de 24 horas.

Os organizadores do projeto Deep Time escolheram a caverna em vez de um laboratório porque, após “anos de estudos variados, descobrimos que, para compreender plenamente as habilidades e o funcionamento humano, é necessário estudá-los em um ambiente natural e em situações da vida real, ao invés de simulação em um espaço pequeno e fechado.”

Surpreendentemente, dois terços dos participantes disseram que teriam ficado mais tempo na caverna se pudessem, mas alguns, como Johan François, tiveram dificuldades às vezes, afirmando ter “desejos viscerais” de sair, como disse ao The Guardian. François se mantinha ocupado caminhando mais de 10 km por dia em círculos ao redor do perímetro da caverna. Marina Lançon, uma das sete mulheres a participar do experimento, disse que a experiência foi “como dar uma pausa” em sua vida, e ela vai ficar longe de seu smartphone por pelo menos mais alguns dias para evitar um retorno “brutal” à vida normal, de acordo com o The Guardian.

Sem relógios ou um pôr do sol, a equipe teve que contar com dicas corporais de quando ir dormir, quando acordar e quando comer. A equipe monitorou o tempo não por dias, mas por ciclos de sono acumulados. Fascinantemente, o grupo permaneceu em sintonia, apesar de estar alheio ao tempo “real”.

Mas, como os resultados mostraram, eles não conseguiram avaliar com precisão a duração de cada dia. Dada a estimativa de 30 dias para a estadia de 40 dias, a equipe calculou que cada dia durava cerca de 32 horas, em média. No final do experimento, provavelmente foi muito pior, talvez chegando perto de 40 horas. Quanto ao membro da equipe que achava que apenas 23 dias haviam se passado, seu “dia” foi de 42 horas em média e, novamente, ainda mais no final (ou seja, a deriva temporal não apareceu imediatamente).

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Esses resultados são incríveis. Isso significa que os membros da equipe iam dormir cada vez mais tarde devido à sensação de dias mais longos, em vez de mais curtos. A equipe estava em sintonia na maior parte do tempo, mas claramente alguns indivíduos tiveram experiências diferentes em relação passagem do tempo (me faz pensar se haviam discussões sobre a hora de dormir).

Será interessante ver os pesquisadores analisarem essas descobertas e as traduzirem em estratégias para o mundo real, mas uma coisa é certa — agora, eu valorizo ​​o nascer e o pôr ​​do sol de uma forma que nunca pensei ser possível.