A Apple removeu um aplicativo usado por manifestantes pró-democracia em Hong Kong nesta quarta-feira (10). Essa é mais uma medida da Apple a favor do governo autoritário da China.

O aplicativo, HKmap.live, permitia que as pessoas vissem os movimentos policiais de Hong Kong por meio de informações de outros usuários. A Apple havia retirado o aplicativo de sua loja, voltou a oferecê-lo há alguns dias e agora o removeu novamente.

A decisão de retirar o aplicativo veio apenas um dia depois de a agência de notícias estatal da China, People’s Daily, publicar um artigo sugerindo que a Apple estava cometendo “atos ilegais” ao ser “cúmplices” dos manifestantes – que o site de propaganda chama de “baderneiros”.

O People’s Daily também reclamou que a Apple permitiu que uma música, “Hong Kong Independence”, estivesse disponível em suas plataformas.

A Apple tem cedido em algumas questões para agradar o governo chinês nos últimos dois anos. Entre as ações recentes estão a retirada da bandeira de Taiwan dos emojis dos usuários chineses, a proibição de centenas de VPNs na AppStore, entre outras formas de censura.

A empresa também baniu o aplicativo de notícias do site Quartz nesta quarta por causa da cobertura dos eventos em Hong Kong.

Considerados em conjunto, China, Hong Kong e Taiwan são o segundo maior mercado da Apple depois dos EUA, de acordo com a Bloomberg News. É evidente que a companhia tem incentivo financeiro pesado para acatar os pedidos de Pequim.

A Apple não respondeu ao pedido de comentário do Gizmodo até esse momento, mas enviou ao repórter da Bloomberg, Mark Gurman, uma declaração confirmando que a empresa removeu o aplicativo por “violar nossas diretrizes e as leis locais”.

“Criamos a App Store para ser um lugar seguro e confiável para se descobrir aplicativos”, disse a Apple. “Soubemos que um aplicativo, HKmap.live, tem sido utilizada de maneiras que põem em perigo a aplicação da lei e os residentes de Hong Kong”.

“Muitos consumidores preocupados de Hong Kong nos contataram sobre esse aplicativo e imediatamente começamos a investigá-lo”, continua a declaração da Apple. “O aplicativo exibe a localização da polícia e nós verificamos com o Gabinete de Cibersegurança e Crimes Tecnológicos de Hong Kong que o app foi usado para atacar e emboscar a polícia e ameaçar a segurança pública. Criminosos o usaram para vitimar residentes em áreas onde eles sabem que não há imposição da lei”.

Manifestantes pró-democracia em Hong Kong estão saindo às ruas desde junho, quando um controverso projeto de extradição foi apresentado pela primeira vez – o projeto facilitaria ao governo chinês a extradição de cidadãos de Hong Kong.

A região opera sob o arranjo “um país, dois sistemas” que historicamente tem permitido a Hong Kong alguma autonomia sobre a forma como governa, mas o modelo está ameaçado.

Embora o projeto de extradição tenha sido retirado, os manifestantes estão pedindo reformas democráticas e querem uma investigação sobre a brutalidade policial contra os manifestantes, que só parece piorar a cada semana.

A líder de Hong Kong, Carrie Lam, supostamente trabalha de acordo com os interesses do governo chinês e não do seu próprio povo. Os cidadãos de Hong Kong exigiram que ela se demitisse.

Recentemente, Trump colocou 28 empresas de tecnologia na China na lista de corporações impedidas de fazer negócios com os EUA. A justificativa é a participação dessas empresas num sistema de campos de concentração que detém cerca de 1 milhão de uigures – uma minoria muçulmana que vive na China.

Porém, as alianças podem mudar repentinamente com o presidente dos EUA. Trump teria dito à liderança chinesa que não se colocaria a favor dos manifestantes de Hong Kong, desde que obtivesse termos comerciais favoráveis com o governo chinês.

Até agora o presidente tem mantido sua palavra. Nesta quarta, ele não teceu comentários sobre o regime chinês ao falar sobre a pressão do país asiático sobre a NBA. A liga de basquete entrou na pauta política chinesa depois que o gerente da franquia Houston Rockets, Daryl Morey, expressou apoio aos manifestantes de Hong Kong no Twitter, uma plataforma de mídia social que sequer é permitida na China continental.

“Esse tem de ser um acordo melhor do nosso ponto de vista. Eu acho que eles entendem isso completamente”, disse Trump. “Acho que a China tem muito respeito por mim, pelo nosso país, pelo que estamos fazendo”.

Trump, assim como a Apple, só se preocupa com os negócios. Seria um choque para muita gente se Trump decidir que finalmente conseguiu o que queria em um acordo comercial entre os EUA e a China.

Alianças globais tradicionais estão se desmoronando rapidamente enquanto Trump procura alinhar os EUA com a Coreia do Norte, Rússia, Arábia Saudita e Turquia contra aliados europeus como o Reino Unido, França e Alemanha.

A proibição de um aplicativo pró-democracia pode ser a menor das preocupações nos próximos meses enquando a ordem mundial liberal, anteriormente liderada pelos EUA, for violentamente virada de cabeça para baixo.