Características enigmáticas escondidas dentro de duas crateras de impacto marcianas podem ser os remanescentes de colossais avalanches de gelo, a maior das quais viajou mais de 15 km.

Duas crateras de impacto nas latitudes mais ao norte de Marte têm estranhas características lineares em suas encostas internas. Novas pesquisas publicadas no Planetary and Space Science sugerem que essas cordilheiras com morenas (cristas ou depósitos de fragmentos de rocha) são o que resta de avalanches monumentais de gelo que ocorreram cerca de um milhão de anos atrás.



Especialistas dizem que é uma teoria interessante, mas serão necessários mais trabalhos para reforçar a alegação.

Cientistas já haviam argumentado que essas formas lineares pareciam morenas (ou moreias), porque é exatamente isso que elas são. Morenas são estruturas lineares montanhosas formadas por geleiras de movimento lento, que empurram poeira e rochas à frente de seu avanço. Nas regiões polares de Marte, essas geleiras são feitas de dióxido de carbono (em vez do gelo d’água que compõe as geleiras da Terra), mas seus efeitos geológicos são os mesmos.

O novo artigo, que tem Sergey Krasilnikov como coautor, da Academia Russa de Ciências, propõe uma explicação alternativa: crescimento rápido de geleiras. Essencialmente, o novo artigo argumenta que grandes torres de gelo d’água, chamadas maciços, localizados ao longo da encosta superior das crateras, desabaram, resultando em avalanches épicas. As cristas parecidas com a morena eram formadas pelo acúmulo de detritos empurrados para o fundo das crateras pelo colapso de maciços.

As duas crateras que contêm as cristas parecidas com a morena. Pensa-se que o gelo em colapso tenha caído da direita para a esquerda, começando perto das encostas externas das crateras de impacto. Crédito: NASA/Planetary and Space ScienceAs duas crateras que contêm as cristas parecidas com a morena. Pensa-se que o gelo em colapso tenha caído da direita para a esquerda, começando perto das encostas externas das crateras de impacto. Crédito: NASA/Planetary and Space Science

Krasilnikov e seus colegas simularam esses surtos hipotéticos usando dados coletados pela NASA e realizando cálculos independentes. Juntos, esses métodos apoiaram um cenário em que o “acúmulo excessivo de gelo d’água nas encostas” atingiu “uma condição instável crítica”, resultando nas avalanches de gelo e na formação de cristais parecidas com a morena abaixo.

Os maciços se formam por meio do acúmulo constante de geada. Eventualmente, o peso e a pressão ficaram tão intensos que os maciços desabaram, liberando seu conteúdo para o fundo da cratera, de acordo com essa interpretação. Esses colapsos teriam sido um espetáculo de se ver. O maior dos dois colapsos envolveu cerca de 2,42 quilômetros quadrados de gelo, enquanto o menor envolveu 1,1 quilômetro quadrado. O maciço maior tinha cerca de 150 metros de altura e o menor, 100 metros de altura.

A queda de gelo e detritos teria viajado a uma estimativa de 80 metros por segundo (cerca de 288 quilômetros por hora, praticamente a velocidade máxima de um carro esportivo). E como a gravidade é menor em Marte, os detritos se espalham por um amplo território, atingindo cerca de 15 quilômetros do ponto de partida no colapso maior e 12 km no menor. Durante o maior colapso de maciço, a avalanche abrangeu uma área total de 104 quilômetros quadrados.

“É uma explicação alternativa”, disse Mike Sori, cientista planetário da Universidade do Arizona, que não participou da nova pesquisa, ao EOS, uma publicação da American Geophysical Union. As avalanches marcianas já foram documentadas antes, disse ele, mas essas cordilheiras parecem muito com morenas criadas por geleiras de dióxido de carbono. Sori disse que mais evidências serão necessárias para fazer reforçar este argumento.

Pesquisas futuras também terão que descobrir por que apenas dois exemplos de avalanches de gelo foram encontradas em Marte, como aponta ao EOS. De fato, mas exemplos desses cumes estranhos acrescentariam credibilidade à alegação de que avalanches de gelo realmente ocorrem no Planeta Vermelho.