VAMOS FALAR DE BARULHO! Sabe aquele cara que ouve música alta dentro do trem? O fone de ouvido dele está alto! Barulho é bom e faz a gente se sentir bem, mas, infelizmente, ele também está arruinando as músicas.

Por que gostamos de música barulhenta

O conceito de barulho é enganoso, considerando que o barulho não é uma propriedade física do som, e sim a forma como nós humanos percebemos a força do som. É tão psicológico quanto físico. Não vou entrar em detalhes físicos aqui, mas quero discutir uma faceta específica do barulho, aquele que faz com que queiramos aumentar o volume.

Em primeiro lugar, há uma diferença entre barulho e nível de pressão sonora, a perturbação mensurável causada por uma onda sonora em um determinado ponto, geralmente denotada em decibéis (dB). Barulho também não é o mesmo que volume, que é tecnicamente a amplitude de uma onda sonora. Estamos falando do que o seu cérebro e ouvido percebem versus o que um instrumento (como o microfone) percebe.

A forma como a audição humana funciona faz com que nossa percepção de diferentes frequências de som mude conforme o nível de pressão sonora aumenta — para ser mais específico, nossa percepção enfraquece conforme o som fica mais alto. Como o Mix explicou há alguns anos:

O ouvido não é um dispositivo linear — sua resposta varia com a frequência. A sensibilidade da audição tem como pico o alto-médio e cai nos extremos, e a curva de audição também muda com volume, se tornando mais plana em pressão sonora mais alta. Para manter o equilíbrio entre altos e baixos (e médios e assim por diante), um sistema de reprodução “plano” talvez precise ser equalizado de maneira diferente para diferentes níveis de reprodução.

Então se a equalização do seu sistema de som — seja pelo alto-falante do computador, fones de ouvido etc. — não estiver devidamente calibrada para o nível de pressão sonora que você está ouvindo, aí você vai colocar o volume no máximo até conseguir ouvir tudo suficientemente — ou até ficar incômodo demais para aumentar ainda mais o volume.

O resultado é que a música parece soar melhor quanto mais você aumenta o volume.

Como o barulho está arruinando a música

Nos últimos 20 anos, mais ou menos, produtores musicais participaram de uma verdadeira corrida armamentista de áudio, que aqui chamaremos de Guerras do Barulho. Para agradar os ouvidos dos potenciais clientes, produtores começaram a mixar álbuns cuja intensidade sonora ia aumentando relativamente ao longo do tempo. O problema é que aumentar o nível de áudio tem um efeito danoso na qualidade da gravação — tanto que um movimento de profissionais da indústria tentou dar um fim a essa guerra, mas sem sucesso.

Deixe-me explicar o motivo: na transição da produção analógica para a digital, engenheiros de gravação e masterização conseguiram uma grande expansão no que é chamado de headroom — é a partir disso que você consegue aumentar o nível de som em uma gravação sem que ela seja distorcida. Entendendo que as pessoas percebem música mais barulhenta como sendo melhor, os produtores aumentaram os níveis de áudio cada vez mais com o passar do tempo. O objetivo era ser a faixa mais barulhenta dentro do seu iPod.

Aumentar o nível de som das gravações não é uma coisa ruim por si só, já que o ouvinte pode decidir qual será o volume durante a reprodução. Mas a escalada em direção a mixagens mais altas fez com que os produtores esmagassem o alcance dinâmico das gravações na tentativa de fazer com que o nível de som fosse o mais alto possível.

Isso significa que em vez de permitir que uma gravação mantenha seus momentos quietos naturais ao lado dos mais barulhentos, tudo é colocado no mais alto possível. Em termos mais técnicos, alcance dinâmico “esmagado” significa que durante uma gravação — ou melhor, durante a duração de uma canção — a diferença média entre o mais alto e o mais baixo fica cada vez menor.

Agora, de volta ao passado da gravação musical, era preciso definir o nível geral de uma canção para que o som mais alto não ficasse distorcido. Era possível usar equalização e truques de mixagem para aumentar certas frequências, mas a ideia geral era de que você queria que as coisas soassem naturais. Algumas partes de uma gravação deveriam ser mais calmas do que outras. Isso é normal! Se você assistir a uma banda tocando ao vivo, perceberá que o show não tem um nível de som uniforme do começo ao fim.

Mas a guerra do barulho fez com que produtores usassem seu arsenal de ferramentas para fazer as partes mais silenciosas de músicas chegarem a níveis incrivelmente altos, comprimindo o alcance dinâmico, ou pior, fazendo os níveis de áudio superarem o headroom usável, o que causa distorção.

No último caso você prejudica e/ou perde partes inteiras de informações gravadas. No outro caso, você ganha um som não-natural que faz nerds audiófilos comentarem que aquela música não é emocionalmente satisfatória. Música com alcance dinâmico natural frequentemente é considerada mais emocional. O balanço na dinâmica é como o andamento de um filme: os sustos em um filme de terror são mais intensos por causa de toda a preparação desenvolvida para que eles aconteçam.

Pessoas diferentes têm ouvidos diferentes e ouvem coisas diferentes, e se você nunca foi treinado para ouvir a dinâmica em uma música, provavelmente você não conseguirá notar a diferença. O que é certo é que o barulho não soa natural. Mesmo que isso não seja desagradável para você do ponto de vista estético, algumas pessoas sugerem que esses sons pouco naturais podem te levar à fadiga auditiva, um sentimento que tenho certeza que você já teve: aquele momento em que você simplesmente não consegue ouvir mais nada.

As vítimas da guerra do barulho

Existem muitos exemplos do efeito terrível que essa guerra causou à música. Muitas pessoas gostam de citar o disco Death Magnetic de 2008 do Metallica como um grande caso do efeito perigoso do alcance dinâmico comprimido. São músicas terríveis e inaudíveis no melhor dos casos. Mas se você quiser comparar gravações pré e pós guerra do barulho, ouça essa playlist do Spotify criada por Ian Shepherd e compare a canção “Holier Than Though”, de 1992, com “Broken, Beat & Sacred”, do Death Magnetic — ambas são do Metallica. Sim, heavy metal é alto! Mas a gravação mais antiga tem momentos de silêncio relativo. A outra, não.

Minha ilustração favorita da guerra do barulho vem da explicação sobre barulho do Chicago Mastering Service (de longe a explicação mais concisa e clara). Os engenheiros do CMS compararam gravações de um lançamento em CD de 1990 do clássico Raw Power, lançado em 1973 pelo The Stooges, com uma remasterização de 1997 do mesmo disco.

Iggy Pop cuidou da remasterização por conta própria em uma tentativa de saciar as demandas do seu corpo envelhecido e prejudicado pelo uso de drogas, e acabou estragando tudo. Ele não apenas comprimiu o alcance dinâmico como também colocou o nível geral tão alto que acabou prejudicando completamente a música. É uma abominação. O disco ganhou uma remasterização bem melhor em 2010.

Imagem: Chicago Mastering Service. Como o nível de pressão do som, o barulho aqui é medido em decibéis, exceto que dessa vez os decibéis são um nível relativo ao potencial total do alcance dinâmico na escala de áudio digital padrão.
Imagem: Chicago Mastering Service. Como o nível de pressão do som, o barulho aqui é medido em decibéis, exceto que dessa vez os decibéis são um nível relativo ao potencial total do alcance dinâmico na escala de áudio digital padrão.

Então por que tão alto?

São muitos os motivos que fazem produtores quererem aumentar tudo, mas em resumo podemos dizer isso: se você quer que sua canção se destaque entre as demais, o jeito mais fácil e óbvio de conseguir isso é aumentando os níveis de áudio.

No melhor cenário possível, você sacrifica a qualidade da música para levá-la a uma quantidade maior de pessoas, o que é uma troca bastante compreensível. Mas nem sempre funciona assim. De acordo com esta ótima apresentação de Earl Vickers na Convenção da Sociedade de Engenharia de Áudio, a guerra do barulho não teve nenhum impacto mensurável na venda de discos. Muito pelo contrário — ela ocorreu enquanto a indústria estava vendendo cada vez menos discos.

Além disso, as estações de rádio costumam normalizar os níveis de playback, assim como YouTube, Spotify e iTunes. Então mesmo que você consiga fazer sua música ser mais alta, o ouvinte não vai conseguir apreciar isso já que todas as músicas são tocadas nos mesmos níveis.

E ainda assim a guerra do barulho persiste. Alguns sugerem que o esforço contínuo em busca do barulho pode ser culpado pela proliferação de alto-falantes de baixa qualidade. Mesmo que você tenha um aparelho de som bom e ótimos fones de ouvido, você também ouvirá música a partir do seu smartphone ou computador. Colocar o barulho o mais alto possível garante que você não perca a atenção de uma pessoa só porque ela não tem os melhores equipamentos possíveis.

Do produtor Mark J. Feist:

Todos os gadgets têm alto-falantes hoje em dia, seja um telefone celular, relógio, computador, fone de ouvido ou speaker, Bluetooth que é pequeno e monofônico. É importante que as gravações sejam competitivas, limpas, claras e altas o suficiente em qualquer speaker que forem reproduzidas.

De fato, é exatamente por isso que Trent Reznor lançou duas versões diferentes do álbum Hesitation Marks, de 2013 do Nine Inch Nails. O lançamento principal foi mixado para a realidade na qual as pessoas ouvem música eletrônica em pequenos speakers de notebooks. Mas Reznor também preparou uma versão especial para pessoas com paciência e equipamento para uma mixagem diferenciada.

Então O QUE VAI ACONTECER COM O BARULHO? Alguns músicos com recursos, como Trent Reznor, vão disponibilizar suas músicas na forma como eles acharem que devem, mas a maior parte provavelmente vai preferir que a mixagem seja feita de acordo com o mainstream. É muito mais difícil remar contra a maré — mesmo que você seja uma banda alternativa.

No lado da produção, muitos engenheiros musicais tentam espalhar a palavra do alcance dinâmico. A explicação excelente do Chicago Mastering Service começa assim: “Esperamos que alguma informação de fundo desse aspecto do processo de masterização faça com que você seja capaz de tomar as decisões corretas para o seu projeto.” Mas, no fim das contas, os engenheiros pouco podem fazer enquanto estiverem trabalhando para gravadoras e artistas. E as gravadoras? Bom,  elas têm problemas muito maiores para se preocupar do que um bando de audiófilos.

Um dia provavelmente olharemos para trás e lembraremos da guerra do barulho como apenas uma parte da história da produção musical. As batalhas sequer tiveram uma resistência de verdade. A música ficou mais alta. Não foi bom, não fazia sentido, mas ninguém se importou o suficiente para abaixá-la.

Ilustração por Sam Woolley