Conheça o cara que está tentando virar um vibrador humano

Rich Lee quer te dar um orgasmo, um “cyberorgasmo”.

Há anos, Lee tem sido acossado com o sonho de virar um vibrador humano, um homem biônico dotado de um implante explicitamente desenhado para dar prazer ao sexo oposto. Ao fazer o upgrade de suas partes baixas para incluir um pequeno dispositivo vibratório implantado logo abaixo da pele, ele espera também fazer o upgrade de seu status de pai padrão de Utah para o de um Casanova ciborgue. Quando ligado, o dispositivo irá dar ao seu pacote capacidades maquinais que rivalizam alguns dos mais populares brinquedos sexuais do mundo, pelo menos em teoria. Ele chama isso de, espera… Lovetron 9000. E ele não enxergou esse futuro cybersexual apenas para si próprio. Ele também quer vender o aparelho para você.

• Eu tenho um ímã implantado no dedo
• Esta mulher implantou na mão um chip NFC que distribui jogos de graça
• O estranho futuro bioelétrico das tatuagens

Lee é um grinder, um membro de uma comunidade de nicho de biohackers que está testando os limites do que significa ser um humano ao melhorar seus corpos com diversos tipos de partes sintéticas. Ele tem pequenos imãs implantados em seu ouvido que funcionam como fones de ouvido embutidos e outros ímãs em seus dedos só para brincar. Ele tem um implante para saber sua temperatura e outro equipado com comunicação de campo de proximidade que ele usa junto com um aplicativo de texto para voz para fazer seu celular ler textos em voz alta.

Em seu experimento mais recente, Lee instalou tubos de espuma não-Newtoniana que absorvem energia sob a pele da sua perna para funcionar como uma espécie de caneleira embutida. Foi um desastre. Depois de voar para a Califórnia onde dois amigos que trabalham em um hospital instalarem os compridos e finos tubos de armadura em suas duas canelas, suas pernas incharam tanto que os pontos estouraram, expondo os implantes. Sempre que ele levantava, seu corpo era atingido com um fluxo contínuo de dor. Uma noite, com uma coragem desesperadora, ele arrancou os implantes sozinho.

“A minha concepção do Eu ideal é algo como um Senhor Cabeça de Batata”.

Ainda assim, ele não parou. Alguns podem enxergar o passatempo de Lee na modificação corporal como auto-mutilação, ele enxerga como auto-aperfeiçoamento.

“Algum dia eu gostaria de viver em um mundo onde tudo com que você lida é permutável, fluido”, Lee me disse. “A minha concepção do Eu ideal é algo como um Senhor Cabeça de Batata, onde eu possa trocar livremente próteses para diferentes sentidos e habilidades”.

O LoveTron 9000 é o mais arriscado e ambicioso projeto de Lee até o momento.

Documentar suas modificações no YouTube transformou Lee em um tipo de celebridade dentro da comunidade grinder. Mesmo entre aqueles que enxergam ter implantes eletrônicos em seus corpos como algo “divertido”, as excursões de Lee vão na direção extrema. Mas ele acha que não vai ser assim para sempre. Ele enxerga um mundo não tão longe no futuro onde as pessoas comuns tenham implantes que façam de tudo de destrancar sua porta da frente até, isso mesmo, melhorar sua vida sexual.

Eu encontrei Lee no mês passado no segundo Body Hacking Con anual, em Austin, onde centenas de pessoas se reuniram para ver protótipos do futuro. Na passarela, modelos exibiram novas modas que despertam novos sentidos, entre eles direção e ecolocalização. No salão de exposição, múltiplos estandes ofereciam implantes de imã e chips RFID na hora. Um estande oferecia manicure de alta tecnologia que injetava luzes LED e chips NPC em brilhantes unhas de acrílico. Um colega ciborgue, o cineasta canadense Rob Spence, deu uma palestra sobre sua jornada em se transformar no “Eyeborg” depois de perder um olho em um acidente de caça, o substituindo com uma câmera analogica.

Nenhum dos dispositivos ou implantes expostos, no entanto, eram tão ousados quanto a visão de Lee de um pênis cibernético.

No ano que vem, Lee espera que o Lovetron 9000 tenha seu próprio estande na conferência. Ele planeja apresentar o implante para consumidores de cabeça aberta, esperando que se torne o próximo sucesso dos brinquedos sexuais, vendendo através do site do Lovetron diretamente aos consumidores que queiram ter o dispositivo implantado por um piercer ou artista de body modification de uma lista pré-aprovada de sua companhia. O procedimento é relativamente não invasivo, no que concerne implantes, e provavelmente vai receber uma aprovação regulatória graças à falta de legislação que antecipe que alguém queira implantar aparelhos eletrônicos em sua pele para sua própria diversão.

Conforme planejado, o Lovetron 9000 vai consistir de um dispositivo háptico do tamanho de um polegar para ser implantado logo abaixo da pele do púbis, na pele gordurosa logo acima do pênis. Depois de raspar, desinfetar e anestesiar localmente a área, o piercer faria uma incisão de mais ou menos quatro centímetros, criando uma pequena bolsa onde depositar o depositivo antes de fechar com pontos. O Lovetron vai consistir de um motor, bateria e um interruptor que permite que o usuário o ligue e desligue com força magnética. O ligue, e ele vai mandar uma vibração através do eixo do pênis. Lee não tem nenhum treinamento médico formal, mas uma companhia de biotecnologia está ajudando ele a desenvolver o dispositivo. Depois de duas semanas de recuperação, Lee disse, o dispositivo estará “pronto para a recreação”. Um parceiro, ele envergonhadamente disse, também pode aproveitar ao sentar diretamente em cima do dispositivo.

Para Lee, o implante de pênis vibrador é uma óbvia e necessária expressão das linha embaçadas que separam o homem e a máquina.

“Era a coisa mais fácil”, ele disse.

rich-leeRich Lee na Body Hacking Con em Austin, Texas. Imagem: Kristen V. Brown

Se tem alguém no mundo que pareceria o apoiador obvio de uma safada revolução sexual ciborgue, não seria Rich Lee. Com uma barba espessa, óculos nerd e uma tendência para camisas xadrezas, seu visual parece mais de um esnobe de um café em Seattle do que um entusiasta pela modificação corporal extrema. Lee é o pai divorciado de duas crianças e mora no sudoeste de Utah onde é gerente do depósito de uma firma de venda de embalagens. Quando eu pedi para ele desenhar um esboço do seu implante, logo depois ele ficou com tanta vergonha da aparência do pênis na página do caderno que ele rapidamente transformou o desenho em uma caretinha com um nariz bem comprido.

Lee entrou na cena grinder lá em 2008, bem antes de ter uma conferência dedicada à ela. Ele cresceu sendo uma pessoa religiosa, achando que havia pouco sentido em pensar no futuro já que o juízo final estava próximo.

“Embora eu me interessasse em viagem espacial e extremos avanços científicos, parecia algo frívolo em frente ao apocalipse que estava chegando”, ele disse. “Então mais tarde na vida eu masturbei meu caminho para fora da igreja e eventualmente encontrei o ateísmo. Eu substitui Deus e o paraíso com ciência e transhumanismo”.

“Eu comecei a desenvolver formas de virar o ciborgue mutante e imortal que eu sempre desejei ser”.

Anos mais tarde, ele estava folheando pilhas de antigas revistas deixadas para trás por sua avó. Ele ficou impressionado com as chamadas, décadas de notícias antigas prometendo que um mundo livre da morte estava logo alí. Obviamente, nenhuma dessas duas promessas foi cumprida.

“Eu entrei em pânico”, ele disse. “Mais uma vez eu tomei o papel passivo de um futuro que outra pessoa me prometeu que tinha zero garantia de realizar”.
Ele decidiu fazer as coisas por conta própria.

“Eu comecei a desenvolver formas de virar o ciborgue mutante e imortal que eu sempre desejei ser”, ele disse.

Na internet, ele encontrou o blog do conhecido biohacker das antigas, Lepht Anonym. Anonym apresentou uma visão abordável do transhumanismo, possível com pouco mais de alguns dispositivos cibernéticos feitos em casa e um entendimento básico da biologia humana. Um dos hacks de Anonym era um dedo magnético, um implante inventado por Steve Haworth, o padrinho do bodyhacking. Assim que ele leu sobre o implante, Lee marcou uma consulta e viajou 650 quilômetros até o Arizona para fazer seu primeiro implante com o padrinho em pessoa.

Desde então, seus experimentos ficaram mais ousados, com variados graus de sucesso.

Em 2013 seus implantes de fone de ouvido foram seu primeiro projeto a viralizar. A ideia era criar implantes que o dessem a capacidade de ouvir música em uma sala cheia de pessoas, escondido. Haworth implantou dois pequenos ímãs sob a pele do tragus de Lee, a pequena aba interna da orelha. Lee podia usar uma coleira magnética, sob a camiseta, que criaria um campo magnético que faz os implantes vibrarem e produzirem som. seus planos para o dispositivo eram ambiciosos. “Eu consigo me enxergar usando ele com o GPS do meu smartphone para navegar pela cidade a pé”, ele disse na época.

Na prática, no entanto, suas capacidades foram bem menores. A qualidade do áudio não é boa o bastante para ser audível em uma sala cheia de pessoas. Mas Lee disse que ele ainda usa o implante regularmente, para ouvir música e ao noticiário, para relaxar ao fim do dia, livre de fones de ouvido.

Suas modificações geralmente vem com um senso de humor. Seu chip NFC já foi programado para fazer seu celular dizer “sequência de autodestruição iniciada. Detonação em 10… 9… 8…” sempre que ele passava o dedo com o implante embaixo do seu celular. (“era um bom truque de festa”, ele se recorda).

Dois anos atrás, Lee quase se eletrocutou no banho enquanto tentava desenvolver um sistema contra a hipotermia. Ele encheu uma banheira de gelo, então se envolveu com um aquecedor elétrico em volta de seu braço e entrou. Sua pergunta era se um dispositivo instalado em uma parte do corpo, como o braço, poderia esquentar o sangue o bastante para impedir a hipotermia enquanto circula pelo resto do corpo. Enquanto ele estava lá tremendo e fazendo anotações na banheira cheia de gelo, ele percebeu que o aquecedor tinha caído na banheira, com fio e tudo. Ele ainda precisa repetir o experimento, mas seus colegas grinders descrevem como o melhor exemplo da curagem grinder.

“Eu acho que qualquer cirurgião recomendaria não fazer esse tipo de cirurgia faça você mesmo”.

Para o LoveTron 9000, Lee está trabalhando com uma companhia vagamente transhumanista chamada Ascendance Biomedical para desenvolver um protótipo. Lee espera que ele esteja pronto para ser implantado em três a quatro meses. Ele até recebeu um pequeno investimento da companhia para ajudar a desenvolver os micro eletrônicos personalizados necessários para fazer um motor forte o bastante para abastecer o dispositivo adequadamente e ainda assim ser pequeno o bastante para implantar sem ser desajeitado ou notável. Ele atualmente está atrás de pessoas para testar o dispositivo, apesar da primeira cobaia ser, obviamente, ele mesmo.

Lee insiste que isso tudo é seguro, o dispositivo virá hermeticamente selado e ele está dependendo de consultas médicas para aperfeiçoar os detalhes do procedimento. Mas os profissionais médicos estão cientes desse crescimento da cirurgia faça você mesmo.

“Sem nem entrar na questão ética ou se esse tipo de modificação corporal deveria ser feita, eu acho que qualquer cirurgião licenciado não recomendaria esse tipo de cirurgia faça você mesmo”, disse Michael Terry, um professor do departamento de cirurgia plástica da Universidade de Califórnia em São Francisco. Sem um cirurgião treinado ou uma sala de operação estéril, Terry disse que existe risco muito maior de infecções, sangramento incontrolável ou dano aos nervos. Além disso, ele disse, é difícil dizer como o corpo vai reagir aos implantes em si.

“Esses são só algumas das muitas razões que existem procedimentos tão complicados de credenciamento para centros cirúrgicos, e porque leva anos de pesquisa e estudos clínicos para obter a aprovação de qualquer dispositivo médico implantado”, Terry disse.

Lee, no entanto, não é o único apostando no potencial economico dos implantes. Há anos startups como a Grindhouse Wetware e Dangerous Things tem vendido implantes e os kits necessários para implantá-los para uma crescente comunidade de grinders nos EUA e Europa. Os dados demográficos dessa comunidade podem não surpreender você: geralmente jovens nerds brancos, o mesmo grupo de pessoas que formou os primeiros coletivos hackers e fóruns de internet. Mas podemos ver algo começando a mudar.

“No começo todas as perguntas que me faziam eram técnicas”, disse Amal Graafstra, o fundador da empresa de Seattle, Dangerous Things, conforme uma horda de visitantes da conferência o rodeavam para ver sua demonstração onde ele destrancava uma porta com sua mão. “Agora é mais, o que eu posso fazer com isso? O público geral está interessado”.

Moon Ribas, uma artista performer e “ativista ciborgue” que tem um chip implantado que a permite sentir atividade sísmica, recentemente co-fundou a Cyborg Nest, uma companhia desenvolvida para trazer implantes divertidos para as massas. Seu primeiro produto é um implante que permite que o usuário “sinta” o norte ao vibrar toda vez que seus corpos se voltarem para o norte magnético. Ao invés de ser implantado sob a pele, ele fica em cima, segurado por quatro piercings. Desde que foi lançado em dezembro, o North Sense vendeu 250 unidades. Ribas disse que ela se surpreendeu ao descobrir que os compradores não eram tipos grinder. Alguns pais, ela disse, até comprou os implantes para eles e seus filhos.

“Modificação genética é a coisa moral e ética a se fazer”.

Lee está tentando acalmar suas expectativas, ele não espera que seus implantes de pelvis vibradora venda como água.

“Eu acho que vai demorar um tempo pra pegar”, ele admitiu.

Ainda assim, ele antecipa que pessoas o bastante se interessem para tornar um negócio viável.

“Eu planejo vender cerca de 100.000 nos próximos cinco anos”, ele disse.

Em uma reunião de quarto de hotel de alguns dos mais proeminentes grinders, eles discutiram como lidar com o eventual escrutínio regulamentar que o interesse, e preocupação, do público em geral pode atrair. Regulamentações para implantes tipicamente só se aplicam quando o implante é considerado um “dispositivo médico”, mas os ímãs e chips RFID que os body hackers usam por enquanto não caem nessa categoria. Mas a comunidade está rapidamente indo além desses limites, uma companhia disse que está planejando um implante que faz a ligação com o sistema nervoso dentro de um ano.

Lee e seus colegas grinders estão prontos para ir em frente estando o mundo pronto para eles ou não. “Modificação genética é a coisa moral e ética a se fazer”, Graafstra falou durante uma palestra sobre a ética do biohacking. “A coisa ética a se fazer é avançar a sociedade humana”.

É claro, no entanto, que o resto do mundo ainda não chegou a esse ponto.

Lee experimentou isso em primeira mão. No ano passado, a ex mulher de Lee pediu a custódia de seus dois filhos, argumentando que seu hobby é perturbador e perigoso, tornando ele um pai pior. “Eu parei de compartilhar a guarda física conjunta”, dizia o documento, “Porque Rich escolheu expor as nossas crianças ao seu comportamento perturbador de cirurgias feitas em casa e bio-hacking”. Até uma data marcada no tribunal esse ano, Lee perdeu a guarda compartilhada.

A batalha pela guarda, no entanto, por enquanto não impediram seus planos para o Lovetron. Para Lee, implantar aparelhos vibratórios em suas regiões baixas não é só para ser o cara da festa com o hobby mais interessante. É destino, o caminho óbvio da evolução humana.

“Tudo o que você implantar eventualmente vai ter que ser removido”.

Na última manhã da conferência, eu me sentei em um quarto de hotel onde outros cinco ou seis grinders estavam ficando, enquanto um respeitado (e anônimo) cirurgião trabalhava em extrair o imã mal implantado dos dedos de um homem. O homem sentou estoicamente, olhando para o outro lado enquanto o cirurgião o anestesiava, então puxou um tanto de pele para trás e começou a cavar o seu dedo atrás do imã. Trinta minutos depois do começo da operação e o imã ainda não tinha sido encontrado. O quarto ficou em silêncio, seguido de uma repreensão anterior.

“Foda-se”, o cirurgião amador disse, indo para frente e para trás, então tragando de um vaporizador. O imã, como descobrimos, escorregou até uma bolsa de pele próxima ao tendão do homem, bem fundo no seu dedo. Um imã mais forte ainda foi necessário para puxar o imã para fora. O culpado desse problema todo era só um pouco maior do que uma ponta de lápis quebrada. Depois de um implante ruim em uma casa de piercing em Portland, o imã estava causando desconforto há mais de um ano. Sem medo, ele implantou dois chips durante a conferência.

“Tudo o que você implantar eventualmente vai ter que ser removido”, Lee me disse. “Nós fazemos o implante com isso em mente”.

Talvez, nesse caso, não estejamos completamente prontos para abraçar o nosso inevitável futuro ciborgue no final das contas.