A empresa de fonógrafos de Thomas Edison lançou uma linha de bonecas “falantes” em 1890. Elas duraram apenas seis semanas antes de serem tiradas das lojas, porque ela soavam como se Satanás estivesse cantando canções de ninar. Mas agora, com a ajuda da tecnologia, você também pode ouvir a voz destas bonecas e e nunca mais ficar em paz.

As bonecas falantes de Edison devem ter parecido uma invenção mágica e uma ótima ideia para a época — no papel, pelo menos. A manivela nas costas do brinquedo, quando virada, operava um pequenino fonógrafo; pequenas rimas infantis, gravadas em cilindros de cera, eram então reproduzidas pelas bonecas.



E como mostra o New York Times, essas bonequinhas foram muito significantes:

Historiadores do som dizem que os cilindros foram as primeiras gravações de entretenimento da história, e as pequenas garotas contratadas para recitar as rimas foram as primeiras artistas de gravação.

Tudo muito bem, tudo muito bom e também muito legal para a história tecnológica da gravação. No entanto, para o público que as bonecas pretendiam atingir o esganiçado som emergia como um show de horrores. Eu ouvi uma gravação — uma “boneca” recitando “Now I Lay Me Down To Sleep” — e precisei sair um pouco de casa e observar o pôr do sol, longe do pesadelo que saía dos meus alto falantes.

Eu amo tecnologia antiga, quanto mais estranha melhor. O Musée Mécanique, que tem todo tipo de autômatos antigos, é um dos meus locais favoritos do mundo. Já gastei horas fazendo máquinas de escrever digitarem meu futuro e dei moedas a dioramas mecânicos um tanto dramáticos. Mas há muito tempo fico incomodada com a ideia de bonecas “conscientes”, o que me faz incapaz de assistir filmes de terror que as usem. E deixe o Chucky fora disso; eu culpo maratonas de Twilight Zone e o episódio “The Dummy”. Não, não, não.

Tudo bem que estas gravações talvez me incomodem um pouco mais do que deveriam — mas se você as ouvi-las enquanto se imagina como uma pequena criança, sozinha em um quarto, girando a manivela da voz da boneca sem expressão, você vai entender porque elas não foram um sucesso nos dias de Edison. A tecnologia por trás delas, no entanto, era imensamente inovadora — assim como a tecnologia usada para gravar as vozes delas.

Os Rolfs, uma dupla que coleciona os fonógrafos de Edison, manteve um par de bonecas por anos, mas tinha medo de “ligá-las”, temendo que a agulha de metal do fonógrafo fosse danificar a delicada cera de mais de uma centena de anos (além do medo de involuntariamente invocar o capeta). Mas eles queriam saber o que a gravação guardava, então buscaram ajuda.

E aí entra um laboratório do governo dos EUA que desenvolveu uma nova tecnologia que reproduz gravações frágeis sem a necessidade de uma agulha para arranhar a superfície. A invenção, chamada de Irene (Image, Erase Noise, Etc.), é a menina dos olhos do físico de partículas Carl Haber e do engenheiro Earl Cornell. A Irene funciona da seguinte maneira:

Cilindros carregam o som numa ranhura em espiral cortada pela agulha do fonógrafo que vibra para cima e para baixo, criando uma superfície que se parece com pequenas colinas e vales. Na configuração da Irene, um microscópio empoleirado sobre a estrutura captura milhares de imagens de alta resolução das pequenas ranhuras.

Juntas, as imagens providenciam um mapa topográfico da superfície do cilindro, expondo os detalhes que são muito menores que a grossura de um dos fios do cabelo humano. Altura, volume e timbre são todos codificados nas colinas, vales e na velocidade em que a gravação foi feita.

A Irene pode também ajudar a reconstruir gravações de áudio danificadas que achávamos que nunca mais poderiam ser ouvidas, o que é um uso incrível dessa tecnologia de ponta para nos ajudar a descobrir e restaurar o passado.

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Agora, pela primeira vez desde os anos 1890, as estranhas bonecas de Edison podem ser ouvidas, e as gravações foram digitalizadas para distribuição em massa e para causar o máximo de terror. Você pode ler mais sobre estas bonecas aqui ou no próprio Gizmodo. O Quartz colocou as gravações no Soundcloud, caso você queira assustar os seus amigos mais desavisados pelo resto da vida.

Agora se me dão licença, preciso voltar lá para fora e assistir ao vídeo de um gato em uma fantasia de tubarão sobre um Roomba que persegue um pato. E eu sei que nunca poderei “desouvir” essas gravações. Vou dormir com as luzes acessas hoje. [Quartz; New York Times]

Imagem de capa via edisontinfoil.com; Imagem das bonecas via NY Times / a coleção de Robin and Joan Rolfs