O pensamento convencional em antropologia afirma que a caça pré-histórica era uma atividade reservada aos homens, enquanto as mulheres faziam a coleta. Acontece que essa suposição está errada, de acordo com um novo estudo provocativo.

Ela morreu jovem, com idade entre 17 e 19 anos. Enterrada cerca de 9.000 anos atrás nas montanhas andinas da América do Sul, a mulher foi cuidadosamente colocada para descansar, sua sepultura consistindo de pontas de projéteis de pedra e ferramentas de processamento de animais.

Em outras palavras, um poderoso kit de ferramentas de caça.

O fato de a mulher ter sido enterrada ao lado de equipamento de caça é uma forte indicação de que ela era uma caçadora de grandes animais, de acordo com uma nova pesquisa publicada na Science Advances. Não parando por aí, os autores do artigo, liderados pelo antropólogo Randall Haas, da University of California-Davis, realizaram uma revisão subsequente da literatura arqueológica para ver se existiam exemplos semelhantes. Assim, eles encontraram uma série de casos em que mulheres foram enterradas ao lado de equipamentos de caça de grande porte.

Escavações em Wilamaya Patjxa. Imagem: Randall Hass

A nova pesquisa está colocando em dúvida noções preconcebidas sobre os papéis pré-históricos dos gêneros, mostrando que a caça era uma atividade mais neutra em termos de gênero do que normalmente se supõe. Como apontam os autores, é um caso clássico de machismo nas ciências.

“Nossas descobertas me fizeram repensar a estrutura organizacional mais básica dos antigos grupos de caçadores-coletores, e grupos humanos em geral”, explicou Haas em um comunicado à imprensa da Science Advances. “Entre os caçadores-coletores históricos e contemporâneos, quase sempre acontece que os homens são os caçadores e as mulheres as coletoras.

Por causa disso – e provavelmente por causa das suposições sexistas sobre a divisão do trabalho na sociedade ocidental – as descobertas arqueológicas de mulheres com ferramentas de caça simplesmente não se encaixavam nas visões de mundo predominantes. Foi necessário um caso forte para nos ajudar a reconhecer que o padrão arqueológico indicava o comportamento real de caça das mulheres”.

O túmulo da mulher, junto com outras 26 pessoas, foi encontrado no sítio arqueológico Wilamaya Patjxa, no Peru. Os autores descreveram a preservação de seus restos mortais como “pobre”, mas conseguiram recuperar partes de seu crânio, dentes e ossos da perna. Um total de 24 artefatos de pedra e seis pontas de projéteis foram encontrados próximos aos restos do esqueleto da mulher. Como observam os autores, 20 dos artefatos estavam “fortemente concentrados e parcialmente amontoados em uma pilha” logo acima de um osso da coxa, sugerindo que os itens foram deliberadamente colocados como bens mortais.

“Foi necessário um caso forte para nos ajudar a reconhecer que o padrão arqueológico indicava o comportamento real de caça das mulheres”.

Um segundo indivíduo, um homem com idades entre 25 e 30 anos, também foi encontrado enterrado ao lado do equipamento de caçador. A descoberta desses dois é notável, pois agora eles representam os primeiros túmulos de caçadores conhecidos nas Américas.

A datação por radiocarbono mostrou que as pessoas enterradas em Wilamaya Patjxa viveram cerca de 9.000 anos atrás, durante o Holoceno Inferior. A análise odontológica, junto com a análise da estrutura óssea, confirmou a idade da morte e o sexo dos indivíduos. Uma análise isotópica mostrou que os dois eram comedores de carne, reforçando seu suposto papel de caçadores.

Vicunhas na Cordilheira dos Andes – uma possível presa entre os habitantes da região há 9.000 anos. Imagem: Randall Haas

As pontas de projéteis de pedra provavelmente eram usadas para derrubar animais grandes, enquanto as facas e lascas de pedra teriam sido usadas para remover órgãos internos e raspar e transformar peles em couro.

Essencialmente, os autores estão dizendo que essa mulher foi enterrada junto com suas coisas, o que é uma suposição totalmente razoável. Os bens da sepultura estão fortemente associados ao status social e ao papel de uma pessoa enterrada. Os guerreiros, por exemplo, costumam ser enterrados com suas espadas e escudos. E, de fato, essa associação exata foi usada recentemente para mostrar que alguns guerreiros Viking eram mulheres.

Não contente em parar em Wilamaya Patjxa, Haas e seus colegas mergulharam nos registros arqueológicos para ver se conseguiam encontrar exemplos semelhantes. A equipe analisou 429 relatos de enterros em 107 locais na América do Norte e do Sul, que datam do Pleistoceno Superior e do Holoceno Inferior. No total, eles encontraram 27 exemplos inequívocos de pessoas enterradas com seus equipamentos de caça, dos quais 16 eram homens e 11 mulheres.

“A amostra é suficiente para garantir a conclusão de que a participação feminina na caça pesada inicial era provavelmente não trivial – maior do que os níveis de traços de participação observados entre caçadores-coletores etnográficos e sociedades contemporâneas”, escreveram os autores.

Claramente, os arqueólogos do passado estavam cientes desses enterros, mas eles descartaram a possibilidade dessas mulheres serem caçadoras de grandes animais. Simplesmente porque tinham um pensamento machista. Ou, como os autores colocam, “as construções modernas de gênero muitas vezes não refletem as do passado”, com os cientistas fazendo “suposições acríticas sobre os papéis de gênero do passado”.

Além do mais, os autores afirmam que as sociedades pré-históricas com uma dependência da caça pesada teriam recebido “ampla participação de mulheres e homens”.

Na verdade, embora devêssemos evitar representações otimistas da pré-história, é muito possível que a divisão sexual do trabalho fosse mais justa no passado, pelo menos em algumas culturas. A equipe agora gostaria de se aprofundar neste tópico e estudar como os papéis de gênero mudaram ao longo do tempo nas sociedades pré-históricas.

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