Há dois minutos, procurei por "PlayStation 3" no Buscapé. Foram 46 resultados: no lugar mais barato, o videogame custava R$ 947; no mais caro, R$ 1.679. Quarenta e seis lojas. Todas legais, pagando seus impostos, com nota fiscal e, na maioria dos casos, uns bons 6 meses de garantia contra defeito. Há algumas horas, a Sony anunciou o lançamento oficial do seu (ótimo) videogame, no Brasil, com quase quatro anos de atraso. Por 2 Mil Reais. Eu entendo o preço de impostos e burocracia, Sony. Entendo que no Brasil tudo é difícil. Entendo que o selo da Anatel é chato, caro. Entendo que o volume de vendas não deve ser grande, que a margem vai ser mais alta. 

Mas não dá mais para engolir esse papinho.

Vamos supor que a Sony compra seus produtos de uma Best Buy nos EUA, e não da Sony internamente (aparentemente a Sony Brasil não tem desconto). Ela paga 28% 20% de imposto de importação (se o produto for reindustrializado aqui a alíquota é diferente); de 25% a 32% de ICMS (dependendo do Estado); 50% de IPI (por ser um bem supérfluo) e uns trocados de PIS + 1,65% de PIS e 7,6% de COFINS.

Se você fez as contas, o aparelho que custa US$ 299 nos EUA teria um preço de partida de cerca de 730 dólares no Brasil, ou, na cotação de hoje, R$ 1.285. Novamente: a Sony no Brasil não o compra por US$ 299 – este é o preço final do varejo nos outros países -, mas ficamos assim para fins de simplificar a conta. O que a Sony Brasil acrescenta a esse preço? Um cabo de energia diferente, certificado pela Anatel, um manual em português e uma garantia de um ano. Como o custo dessa garantia existe nos outros países e está embutido no preço, acho difícil de dizer que tudo isso é acrescentado ao valor. Mas, de todo modo, esse custo mais o lucro dá R$ 700, chegando aos R$ 2.000 que a Sony pede? Setecentos Reais de lucro, um cabo e uma hotline?

Não, a história é pior: a Sony Brasil acha que está fazendo um sacrifício para o bem do gamer brasileiro, já que o preço original deveria ficar na casa dos R$ 2.500. 

"Na noite de ontem [terça-feira] conseguimos chegar ao preço de R$ 2 mil. Não estamos tendo margem em cima das vendas do console", disse hoje Anderson Gracias, gerente da divisão de videogames da Sony no Brasil, em almoço com jornalistas ao G1. Não fomos convidados  para o almoço, infelizmente. Também não conseguimos entrevista com o Anderson, quando pedimos, meses atrás. Mas isso é outro papo.

Eu queria estar lá no almoço para perguntar 15 vezes ao Anderson, para ver se eu entendi: "A Sony então está perdendo dinheiro com o PS3 no Brasil? Então a Microsoft, com um Xbox 360 Arcade a R$ 999 (US$ 100 a menos nos EUA) está perdendo MUITO dinheiro, certo?"

Parece muito simples. Mas o imposto não explica tudo. Temos de apoiar iniciativas como o Jogojusto, mas também temos que parar de alimentar essa desculpa eterna. Pedi para o professor de Economia da UnB Vander Mendes Lucas analisar a situação. O que ele me disse:  

Os impostos são altos: com uma carga elevada ele apenas estimula a importação ilegal ou direta. Mas o videogame é um bem de diversão, e um bem do tipo monopólio. Só há um fornecedor de PlayStation 3 [a Sony] então a margem de lucro dele pode ser bastante elevada. Não é simplesmente o governo. O imposto é alto, mas quem deseja esse bem já adquiriu mais barato – ninguém deixou de comprar por causa disso. 

E é mais ou menos isso. Eu comprei meu PlayStation 3 no Submarino por R$ 1.300, em 12 vezes no cartão. Bom? Foi um preço altíssimo: nos EUA, ele custa US$ 299, paguei mais que o dobro do preço. Mas há um detalhe meio incrível na minha transação: o Submarino obteve lucro. Todo mundo ganhou, não? Para a Sony, algumas redes grandes importam de maneira às vezes ilegal (mudando a descrição do produto, para pagar menos impostos), e o consumidor será educado a valorizar o produto oficial. 

Vai mesmo? Então quer dizer que uma empresa atuando no Brasil é pior para o consumidor final? Encarece o produto? Será que, no caso dos videogames, é melhor ter uma representação indireta, como a Apple?

Apesar de não ser uma fabricante de videogames, ela é um bom exemplo porque 1) é considerada careira e 2) não tem fábrica aqui. Ela, como a Sony e seu PS3, apenas reembala o seu Macbook no Brasil, com tomada nova. E cobra bem menos em cima. O Macbook Pro que custa US$ 1.200 nas lojas dos EUA (R$ 2.113) sai por R$ 3.800 aqui. É bem caro, mas é menos que o dobro, o mínimo que estamos acostumados. A verdade, como já demonstramos aqui, é que a política da Sony no Brasil é ter uma margem significativamente maior, cobrando 3 ou 4 vezes o preço em dólares, convertido.

Qual é a ideia? Para os otimistas, como o nosso Fabio Bracht, a simples "aposta" no mercado nacional é algo a se comemorar. Será?

Eu tenho um conselho, parafraseando um ministro do STF: "Saia às ruas, Sony". Anderson Gracias, reserve uma tarde entre uma reunião e outra e veja as respostas dos nossos comentaristas no outro post, ou os indignados do Fórum UOL. Ninguém engole mais a simples (e cruel, terrível, ok) explicação tributária.  Eu não entendo.

Mas queremos entender você. De onde vem esse preço? Sabemos que no Brasil o lucro do varejista é dos maiores do mundo: se nos EUA a Best Buy vende um notebook por 7% a mais que comprou (ganhando em volume), aqui, pelo que ouvi, o lucro de grandes redes passa dos 25%. Mas explica tudo? Como podemos criar um mercado oficial? Só o Jogojusto é a solução? Ou uma nova postura dos fabricantes é necessária?

Eu, um feliz dono de PlayStation 3 que já comemorou o preço reduzido dos jogos, falo por todos os consumidores aqui do Giz: estamos de coração aberto, queremos entender o que você quer com os PlayStations a esse preço. Na minha cabeça, não faz sentido. E não vejo – sequer recomendo – alguém comprando. Sua vez.