CEO da Uber diz que assassinato de jornalista por governo saudita é um erro que pode ser perdoado, mas depois volta atrás

Dara Khosrowshahi, CEO da Uber, disse em entrevista que morte de jornalista Jamal Khashoggi tinha sido um "erro" perdoável, mas depois voltou atrás.

CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, em entrevista ao Axios

CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, em entrevista. Crédito: Axios/HBO/YouTube

O CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, está sendo alvo de críticas após ele ter defendido o governo saudita, um dos maiores investidores da Uber, em um programa de TV exibido nos EUA durante à noite de domingo (10). Khosrowshahi foi questionado sobre o assassinato e desmembramento do jornalista Jamal Khashoggi, do Washington Post, que a CIA acredita ter sido ordenado por autoridades sauditas. O executivo reduziu a importância do ocorrido, chamando o incidente de um “erro” e dizendo que até a Uber comete erros.

“Nós também falhamos, certo?”, disse Khosrowshahi aos jornalistas do Axios em um programa para a HBO. “Com os carros autônomos, nós paramos esses veículos e estamos nos recuperando do erro. Acho que as pessoas cometem erros. Não significa que elas nunca podem ser perdoadas. Acho que eles levaram isso a sério.”

A Arábia Saudita, por meio do seu fundo soberano, é o quinto maior investidor da Uber. Yasir Al-Rumayyan, o responsável pelo fundo, está no conselho administrativo tanto da Uber como da Softbank. A defesa de Khosrowshahi da família real saudita invocou os próprios erros da empresa, incluindo o incidente de 2018, quando um carro autônomo atingiu e matou um pedestre em março de 2018. O NTSB, organização dos EUA responsável por investigar acidentes, liberou recentemente um relatório dizendo que o sistema da Uber “não considerava que pedestres atravessavam fora da faixa”.

Curiosamente, Khosrowshahi liberou um comunicado após a entrevista ao pessoal do Axios desaprovando o que ele disse anteriormente, possivelmente porque alguém no departamento de relações públicas da Uber percebeu que o executivo fez uma defesa da morte do jornalista do Washington Post e sabia que falar isso é bem sem noção.

“Disse algo naquele momento que não é o que acredito”, disse Khosrowshahi em um comunicado ao pessoal do Axios. “Sobre Jamal Khashoggi, o assassinato dele foi repreensível e nunca deve ser esquecido ou alvo de desculpas [que justifiquem o ato].”

Khashoggi foi assassinado na embaixada da Arábia Saudita na Turquia. Também se supõe que ele foi desmembrado. Acredita-se que o jornalista tenha sido morto sob ordem do príncipe Mohammed bin Salman, conhecido como MBS, e alguns reportam que o príncipe estava em uma videochamada com os assassinos enquanto o jornalista era brutalmente torturado. O corpo de Khashoggi nunca foi encontrado.

O CEO da Uber não foi ao evento chamado de “Davos no Deserto” neste ano, dizendo que teria uma reunião de conselho. Quando um repórter do Axios pressionou o CEO da Uber do fato de que ele poderia mudado a data, Khosrowshahi argumentou que as reuniões são marcadas com “anos de antecedência”.

O Vale do Silício é incrivelmente dependente do dinheiro da família real saudita, e, como sabemos, a Uber tem perdido bilhões de dólares todos os anos. Na semana passada, a empresa reportou uma perda de US$ 1,2 bilhão no último trimestre, algo que, de alguma forma, superou as expectativas de Wall Street.

A dependência da indústria da tecnologia do dinheiro saudita já levou algumas empresas a reprimirem discursos contra a nação. A Netflix, por exemplo, decidiu tirar do ar um episódio de “Patrioct Act com Hasan Minhaj”, que era muito crítico a MBS. No entanto, o episódio não era sobre MBS — Minhaj detalhou que muitas companhias, incluindo a Uber, dependiam de dinheiro saudita para sobreviver.

O CEO da Netflix, Reed Hastings, defendeu a decisão na semana passada de ter removido o episódio. “Não estamos no negócio de notícias. Não estamos tentando fazer ativismo. Estamos apenas tentando entreter”, disse Hastings.

Você provavelmente vai ouvir um monte dessas defesas do regime saudita conforme a morte de Khashoggi se torna uma memória distante, pois é assim que as coisas funcionam. O Vale do Silício precisa de dinheiro, e quando uma companhia perde bilhões, não importa de onde ele vem. Pelo menos, neste caso, podemos agradecer os profissionais de relações públicas que sabiam com antecipação o que a audiência gostaria de ouvir. Matar um jornalista é objetivamente ruim. E é difícil definir como um “erro” um caso que envolve tortura, desmembramento e assassinato de uma pessoa.

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