A Netflix removeu um episódio do programa Patriot Act, do comediante Hasan Minhaj, do catálogo de streaming na Arábia Saudita em meio à pressão do governo local. O episódio, que foi disponibilizado mundialmente em 28 de outubro de 2018, critica líderes governamentais por causa da morte do repórter Jamal Khashoggi, do Washington Post, pela guerra no Iêmen e pelos investimentos de bilhões de dólares vindos da Arábia Saudita em direção ao Vale do Silício.

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A decisão da Netflix de remover o episódio foi inicialmente noticiada pelo Financial Times, mas o capítulo ainda está disponível no YouTube na Arábia Saudita. O YouTube é de propriedade do Google, e não está claro se o site recebeu um pedido para remover o episódio também.

O Google não respondeu imediatamente ao pedido de entrevista do Gizmodo, mas a Netflix disse à rádio norte-americana NPR: “Apoiamos firmemente a liberdade artística e removemos este episódio apenas na Arábia Saudita depois de termos recebido um pedido legal válido — e para cumprir a lei local”.

Qual lei local? As autoridades sauditas citaram uma lei sobre “produção, preparação, transmissão ou armazenamento de material que afeta a ordem pública, valores religiosos, moral pública e privacidade, através da rede de informação ou computadores”. Portanto, praticamente qualquer coisa que o governo considere inaceitável. A Arábia Saudita já ameaçou anteriormente qualquer pessoa que espalhasse “notícias falsas” com cinco anos de prisão.

O episódio de Patriot Act sobre a Arábia Saudita é extremamente crítico em relação ao assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, que foi morto dentro do consulado saudita em Istambul, na Turquia, em 2 de outubro. Khashoggi, que havia criticado o governo em vários de seus textos, foi atraído para o consulado por agentes do governo que teriam drogado o repórter e cortado seu corpo em pedaços enquanto sua noiva esperava do lado de fora. Seus restos mortais nunca foram encontrados, embora o governo turco acredite ter vídeo do corpo desmembrado sendo levado do prédio em vários sacos.

Mas a polêmica em torno do episódio não é apenas sobre Khashoggi. Minhaj também mergulha nas conexões do governo saudita com o poder nos Estados Unidos, inclusive com muitos na indústria de tecnologia. E Minhaj faz muitas piadas às custas do Vale do Silício durante o programa.

“Os sauditas efetivamente possuem 10% da Uber, o que faz todo o sentido”, diz Minhaj no episódio. “Arábia Saudita e Uber são ambos lugares em que as mulheres motoristas não se sentem seguras.”

“As empresas de tecnologia estão nadando em mais dinheiro saudita do que uma concessionária Bugatti em Beverly Hills”, continuou Minhaj.

“Todas essas empresas receberam investimentos sauditas, por meio de uma companhia japonesa chamada Softbank”, explica Minhaj, enquanto logotipos de empresas como Slack, WeWork e DoorDash aparecem atrás do apresentador. Minhaj prossegue, explicando que o príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman (comumente chamado de MBS) investiu cerca de US$ 11 bilhões no Vale do Silício desde 2016.

Então, sim, os líderes na Arábia Saudita provavelmente estão irritados com o fato de o episódio discutir a guerra no Iêmen e a morte de Khashoggi, mas também há provavelmente muita preocupação sobre o novo escrutínio envolvendo o dinheiro sujo de sangue que está sendo colocado diretamente nas empresas de tecnologia americanas. Vários CEOs americanos de alto escalão, incluindo o CEO da Uber, se retiraram de uma grande conferência de tecnologia saudita em outubro passado, embora seja interessante ver quanto tempo a aversão ao dinheiro saudita realmente dura.

Por sua parte, o governo norte-americano não parece ter nenhum problema real com a Arábia Saudita, apesar de as agências de inteligência americanas acreditarem que MBS tenha ordenado diretamente a morte de Khashoggi. Na verdade, o presidente norte-americano, Donald Trump, não tem nenhum problema com o assassinato cometido pelos sauditas, contanto que seus interesses financeiros sejam atendidos.

“É uma equação muito simples para mim. Estou prestes a tornar a América grande novamente e eu sempre priorizo a América”, disse Trump no mês passado sobre a relação dos EUA com a Arábia Saudita.

É bom lembrar que Trump nunca divulgou suas declarações de impostos, e não há como saber se ele atualmente tem algum interesse financeiro pessoal no reino saudita. Os críticos do presidente têm se concentrado amplamente em sua possível relação financeira com a Rússia, mas há inúmeros outros países com os quais ele pode ter conflitos de interesse.

O site de notícias canadense Global News tem um bom resumo do que já sabemos:

As ligações do presidente com bilionários e príncipes sauditas remontam a anos atrás e parecem ter se aprofundado.

Em 1991, quando Trump estava oscilando perto de uma falência pessoal e lutando para levantar dinheiro, ele vendeu seu iate de 85 metros chamado “Princess” para o príncipe bilionário saudita Alwaleed bin-Talalal por US$ 20 milhões, um terço a menos do que ele teria pagado por ele.

Quatro anos depois, o príncipe veio em seu socorro novamente, juntando-se a outros investidores em um negócio de US$ 325 milhões pelo Plaza Hotel de Trump, que dava prejuízo.

Em 2001, Trump vendeu todo o 45º andar da Trump World Tower de frente para as Nações Unidas em Nova York por US$ 12 milhões, a maior compra nesse edifício até aquela altura, de acordo com o site Streeteasy. O comprador: o Reino da Arábia Saudita.

Pouco depois de anunciar sua candidatura ao cargo de presidente, Trump começou a lançar as bases para possíveis novos negócios no reino. Ele registrou oito empresas com nomes ligados ao país, como “THC Jeddah Hotel Advisor LLC” e “DT Jeddah Technical Services”, de acordo com um relatório de divulgação financeira de 2016 para o governo federal. Jidá é uma grande cidade da Arábia Saudita.

“Podemos nunca saber todos os fatos em torno do assassinato do Sr. Jamal Khashoggi”, disse Trump em comunicado no final do ano passado. “De qualquer forma, nossa relação é com o Reino da Arábia Saudita. Eles têm sido um grande aliado em nossa luta muito importante contra o Irã.”

[Financial Times]