A automedicação no mundo animal é relativamente comum. Nossos parentes próximos, chimpanzés e bonobos, por exemplo, já foram vistos mastigando plantas com propriedades químicas capazes de matar parasitas intestinais. 

Mas os animais são uma verdadeira caixinha de surpresas. Pesquisadores do Ozouga Chimpanzee Project, em parceria com a Osnabrück University, da Alemanha, perceberam que alguns chimpanzés estavam utilizando insetos para curar feridas. Além disso, os biólogos relataram um comportamento pró-social destes primatas, que pareciam agir como médicos de outros membros da espécie em alguns momentos.

Para entender a história, é preciso voltar a 2019, quando a então voluntária Alessandra Mascaro estava gravando estes animais em uma floresta no Gabão, país africano. Diante de suas lentes, estava a chimpanzé fêmea Suzee com seu filho Sia. Em determinado momento, a mãe mexeu em uma folha, pegou um pequeno inseto, prendeu-o nos lábios e depois aplicou um material não identificado em uma ferida no pé de Sia.

Após a cena inédita, os pesquisadores passaram a olhar para os animais com ferimento com mais atenção, e viram o processo se repetir mais de 20 outras vezes. As observações viraram um estudo publicado na revista científica Current Biology.

O comportamento nunca havia sido registrado antes entre estes animais. Além do fato curioso dos chimpanzés estarem passando “pomada de insetos”, os pesquisadores também ficaram intrigados com o fato de que alguns primatas passavam a substância em outros indivíduos da espécie, mesmo sem ter relação de parentesco com eles. 

Esse comportamento pró-social é mais comum em humanos. Porém, sua observação em chimpanzés pode ajudar cientistas a entender como essa ação empática evoluiu e quais podem ser seus benefícios evolutivos.

Os biólogos ainda não sabem dizer qual inseto está sendo utilizado pelos animais, mas sugerem que seja algum tipo de bicho com asas e propriedades anti-inflamatórias ou antissépticas. O próximo passo do estudo envolve recuperar partes perdidas destes insetos para identificar a espécie e também investigar suas propriedades farmacológicas.