Imagens de satélite tiradas nas últimas duas décadas mostram que os microrganismos bioluminescentes tóxicos responsáveis ​​pelos mares azuis cintilantes da China estão se tornando cada vez mais abundantes.

Uma nova pesquisa publicada na Geophysical Research Letters é a primeira a utilizar dados de satélite para rastrear proliferações de algas consistindo em Noctiluca scintillans vermelhos (RNS, em inglês), um microrganismo unicelular que produz o belo brilho azul bioluminescente conhecido como “lágrimas azuis”. Essas pequenas criaturas marítimas preferem as águas costeiras, especialmente ao longo da costa do Mar da China Oriental, onde elas aparecem em quantidades necessárias para produzir o espetacular brilho azul.

Também conhecidos como brilhos do mar, os Noctiluca scintillans vermelhos contribuem para as marés vermelhas – florações de algas mortíferas que são tóxicas para a vida marinha. O excesso de algas também pode privar a água de oxigênio, criando zonas mortas nocivas. Ao mesmo tempo, no entanto, as RNS são importantes para os ecossistemas oceânicos, pois se alimentam de outros fitoplânctons e zooplânctons.

Células do Noctiluca scintillans vermelho produzindo o brilho azul, observadas por um microscópio. Imagem: Sheng-Fang Tsai/National Taiwan Ocean University

Os biólogos marinhos gostariam muito de acompanhar os fluxos e refluxos dinâmicos dos Noctiluca scintillans vermelhos, mas não é algo fácil. O tamanho dessas flores muda drasticamente dependendo da estação, e sua natureza transitória e efêmera torna-as notoriamente difíceis de detectar e monitorar. Os biólogos tentaram acompanhar a floração do RNS usando barcos, mas não conseguiram mostrar padrões de distribuição em grandes áreas.

O novo estudo, liderado por Lin Qi, um oceanógrafo óptico da Universidade Sun Yat-Sen, na China, é o primeiro a usar satélites para acompanhar a floração de RNS. Como mostra o estudo, esses microrganismos podem ser encontrados mais longe da costa e em águas mais quentes do que se imaginava. Talvez, o mais importante, no entanto, é que o novo estudo sugere que essas criaturas marinhas azuis se tornaram mais abundantes nos últimos anos.

Os pesquisadores foram capazes de detectar as florações de RNS devido à maneira única como este plâncton absorve e dispersa a luz. Em comparação com outras algas, seus minúsculos corpos absorvem mais luz azul e disseminam mais luz vermelha.

Para realizar o estudo, os cientistas analisaram quase mil imagens do Mar da China Oriental capturadas pelos satélites Terra e Aqua da NASA e pela Estação Espacial Internacional de 2000 a 2017. A partir dessas imagens, os pesquisadores conseguiram detectar as distintas flores vermelhas do RNS, que se distinguem de outras espécies de algas.

Imagem de satélite do Mar da China Oriental mostrando as flores de Noctiluca scintillans vermelhos ao leste da Baía Hangzhou. Imagem: NASA/Laboratório de oceanografia ótica da University of South Florida.

O resultado da análise revelou padrões sazonais distintos em termos de crescimento, mais notavelmente a observação indicou que o pico de florescimento da RNS é de abril a agosto. Esses microrganismos também foram encontrados mais longe da costa do que nunca – em alguns casos até 300 quilômetros da costa. Os RNS também foram encontrados em águas quentes tipicamente não conhecidas por abrigarem as espécies; RNS são normalmente vistos em águas com temperaturas entre 20 e 25 graus Celsius, mas o novo estudo mostra que eles podem viver e prosperar em águas a 28 graus Celsius. No geral, estas observações expandem o habitat conhecido dos Noctiluca scintillans vermelhos.

O tamanho das florações de RNS variou a cada ano, mas uma tendência geral de crescimento foi observada durante os 18 anos estudados, especialmente entre 2013 e 2017. Os pesquisadores detectaram um florescimento particularmente prolongado em 2017, que durou de meados de abril a meados de julho. Quanto à causa desse fenômeno, os pesquisadores atribuíram o excesso de nutrientes das fazendas na China devido ao aumento do uso de fertilizantes. Curiosamente e perturbadoramente, algo semelhante está acontecendo no Golfo do México. Os pesquisadores afirmam que gostariam de fazer mais observações nos próximos anos para confirmar essa aparente tendência de crescimento no Mar da China Oriental.

É importante ressaltar que a análise também mostrou uma diminuição nas florações de RNS em 2000, que os pesquisadores atribuíram à construção da hidrelétrica das Três Gargantas da China. Um comunicado da American Geophysical Union explica :

A barragem abrange o rio Yangtze, no leste da China, e gera aproximadamente a quantidade de energia de 12 reatores nucleares. A barragem tem sido controversa desde que os líderes chineses apresentaram a ideia pela primeira vez devido aos impactos ambientais e por causar o deslocamento de mais de um milhão de moradores locais.

A construção da barragem começou em 1994 e foi concluída em 2006; a barragem entrou em operação total em 2012. O fluxo de água no rio Yangtze diminuiu drasticamente durante a construção, mas uma vez que a barragem foi preenchida e se tornou operacional, o fluxo se recuperou. O rio Yangtze deságua no Mar da China Oriental e as florações Noctiluca scintillans vermelhos são frequentemente encontradas perto da foz do rio, então os autores suspeitam que o fluxo reduzido do rio durante a construção da represa também reduziu as florações de 2000 a 2003.

Uma compreensão mais profunda de como as flores do RNS crescem e se espalham pelo Mar da China Oriental é obviamente importante, dado o valor ecológico desta espécie, e seu potencial para causar estragos como um organismo que contribui para as marés vermelhas. Dito isto, esta pesquisa também poderia impulsionar o turismo na região.

Conforme apontado pela publicação da AGU, a nova técnica de monitoramento por satélite poderia ser usada por autoridades locais para identificar a localização das flores de RNS, permitindo alertar os turistas sobre a presença das lágrimas azuis. Assim, os turistas saberiam os melhores momentos e lugares para contemplar esse espetáculo marcante.

É uma pena que as melhores coisas da vida, quando em excesso, se tornam venenosas.