Quando falamos do Google, o respeito à privacidade pessoal é geralmente a última coisa que nos vem à mente. Nesta semana, a companhia anunciou a atualização do seu navegador Chrome e disse que essa versão tem diversas novidades destinadas a reforçar a privacidade e segurança do browser. Quando li isso, confesso que fiquei cética em relação às afirmações.

De certa forma, fiquei surpresa (de maneira positiva) – especialmente sobre as novidades relacionadas à segurança do navegador. Um exemplo é a “verificação de segurança” que agora vem ativada por padrão no navegador – uma funcionalidade que permite aos usuários verificar se alguma senha que eles armazenaram gerenciador de senhas do próprio Chrome foi comprometida, ou se baixaram alguma extensão que possa ser maliciosa ou mal-intencionada.

Outra atualização importante se chama “Navegação Segura Aprimorada“, uma ferramenta que orienta os usuários sobre a segurança dos sites que eles estão visitando. A ideia é evitar uma potencial tentativa de phishing, por exemplo.

Com o Chrome 83, a empresa também se preocupou em criptografar algumas comunicações entre o browser e os servidores que hospedam um determinado site – um passo extra que poderia impedir que atores maliciosos bisbilhotassem os sites que você possa estar navegando.

Não estou desconsiderando as novas medidas de segurança do Chrome. É uma ótima notícia saber que a companhia está tentando ter uma linha mais dura para lidar com sites fraudulentos e extensões que, até agora, poderiam coletar dados pessoais e informações sensíveis dos usuários.

Porém, no final das contas, a postura da empresa em relação à segurança não é grande questão. Cibersegurança é algo que todos da indústria precisam lidar e o Google é bastante ciente sobre ameaças, além de fazer bons trabalhos para a comunidade.

São as práticas de privacidade da companhia que podem preocupar, algo que chegou a chamar a atenção até mesmo de Procuradores Gerais dos EUA e do Departamento de Justiça dos EUA (entre outros). E com essa atualização do Chrome, essas práticas não sofreram grandes alterações técnicas.

É verdade que o Google fez alguns pequenos ajustes para facilitar a compreensão das arcanas políticas de privacidade do navegador, incluindo “linguagem e visuais simplificados”, de acordo com o post no blog oficial. Eles também remodelaram algumas de suas configurações pré-existentes específicas para sites para torná-las mais fáceis de acessar:

Em Configurações do site, reorganizamos os controles em duas seções distintas para facilitar a busca das permissões mais sensíveis de sites: acesso à sua localização, câmera ou microfone, e notificações. Uma nova seção também destaca a mais recente atividade de permissões.

No topo das configurações do Chrome, você verá “Você e Google” (anteriormente “Pessoas”), onde poderá encontrar controles de sincronização. Esses controles colocam você no comando de quais dados são compartilhados com o Google para serem armazenados na sua Conta Google e que ficam disponíveis em todos os seus aparelhos.

Como muitas pessoas apagam regularmente o histórico de navegação, nós movemos esse controle, “Limpar dados de navegação”, para o topo da seção Privacidade e Segurança.

Pequenos ajustes à parte, houve uma grande mudança que vale a pena esmiuçar. Com a última atualização, o Google anunciou que finalmente bloquearia todos os cookies de terceiros por padrão para navegação em modo anônimo, com a opção de bloqueá-los também durante uma sessão de navegação regular.

Isso acontece depois de meses de discussões sobre os planos de limitar métodos de rastreamento em nome da criação de uma web mais privada e segura, livre de anunciantes que poderiam bisbilhotar cada site que você visitar.

Mas só porque esses terceiros não estão coletando dados da sua navegação, não significa que o Google também não esteja fazendo isso. Como foi apontado várias vezes, o Google continua coletando dossiês de informações a cada site que você navega e a cada pesquisa que você faz – e está usando essas informações para alimentar o seu império de tecnologias de anúncios publicitários. Estes dados coletados em nome do Google, juntamente com os do Facebook e da Amazon, não estão indo a lugar algum.

Colocando de outra forma, com sua própria tecnologia de rastreamento se tornando inútil nesse novo ambiente, os anunciantes não vão parar de tentar impactar os cerca de 70% de pessoas que usam o Chrome para navegar no desktop. Em vez disso, essas empresas precisarão usar dados coletados pelo Google para conseguir mostrar os anúncios para o seu público-alvo – gastando bilhões de dólares nesse processo.

Nossas vidas digitais não se tornam mais privadas ao bloquear esses cookies, e sim mais monopolizados.

Tudo isso significa que o Google está em um beco sem saída.

Ao interromper o suporte a cookies de terceiros, a companhia pode tentar parecer defensora da privacidade, mas acabar se colocando numa posição de comportamento anticompetitivo. Se a companhia mantiver os rastreadores, terá uma fatia menor do mercado, mas será cúmplice na vigilância pela web.

Seja qual for a opção escolhida pelo Google, ainda teremos nossos comportamentos na web rastreados e a companhia vai continuar recebendo bilhões de dólares – como sempre aconteceu.