Cientistas recorreram aos céus para estudar as emissões de metano no Ártico. Em uma série de mais de 400 viagens de avião em 2017, pesquisadores do Experimento de Vulnerabilidade Ártico-Boreal (ABoVE, na sigla em inglês) da NASA descobriram 2 milhões de pontos de concentração de metano na região.

As descobertas apontam para um dos aspectos mais perturbadores da mudança climática no Ártico, à medida que o solo congelado descongela, liberando gases de efeito estufa na atmosfera.

A equipe documentou as descobertas em um artigo publicado na revista Geophysical Research Letters nesta semana. Eles equiparam aviões com tecnologia infravermelha capazes de detectar pontos de concentração de metano — para definir o que era um pontos de concentração, foi estabelecido uma área de 3 mil ppm (partes por milhão) de metano no ar.

No total, os cientistas cobriram mais de 32 mil km² e fizeram cerca de 1 bilhão de observações.

Essa tecnologia foi usada para encontrar vazamentos de metano em infraestruturas construídas pelo homem, como fábricas de gás, mas essa é a primeira vez que esse tipo de tecnologia é usada no Ártico, onde os cientistas sempre têm dificuldade para reunir dados observacionais, afinal trata-se de um local frio e remoto.

Os cientistas da NASA descobriram que a maioria destes pontos de concentração ficam mais próximos de corpos d’água. Isso se deve ao fato de a água corrente poder correr em solos congelados. Porém, os pesquisadores descobriram uma curiosidade: a maioria dos pontos de concentração estão a 44 metros dos cursos d’água, uma característica que ainda estão tentando entender.

Eles conseguiram confirmar isso durante uma excursão em campo, com descida na Terra, realizada em 2017 em dois lagos.

Isso é motivo de grande preocupação. O Ártico está aquecendo a um ritmo acelerado, e está fazendo com que camadas de permafrost derretam. Tudo isso entra na conta da mudança climática, mas este ciclo de feedback de permafrost derretido torna as coisas dramáticas porque é aí que o metano do Ártico se esconde.

E o metano é um poderoso gás com efeito de estufa: tem um potencial de aquecimento global que é cerca de 30 vezes maior do que o do dióxido de carbono em 100 anos.

À medida que mais gás é liberado na atmosfera, o aquecimento também aumenta. Isso poderia criar uma mudança climática desenfreada, embora não seja possível afirmar o quão perto estamos de um ponto de virada — o que demanda uma pesquisa ativa e intensa.

Mas há sinais de mudança além do que os cientistas da NASA encontraram. O Boletim do Ártico da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA do ano passado descobriu que a região está emitindo dióxido de carbono, outro subproduto do degelo do permafrost.

Além de ameaçar o clima, o descongelamento do solo também está causando enormes problemas para a infra-estrutura no Ártico. Até um terço de todos os edifícios da região pode ficar com problemas até o meio deste século.

Os dados recolhidos nos voos de 2017 devem ajudar a informar melhor os modelos que os cientistas climáticos usam para prever o impacto que esses pontos de concentração podem ter na crise climática.