O debate sobre os perigos e benefícios potenciais do cigarro eletrônico (ou vaping) já dura anos. Porém, os resultados de um grande ensaio clínico no Reino Unido oferece ao lado pró-cigarro eletrônico sua maior vitória até agora. Ele descobriu que pessoas tentando parar de fumar tinham quase duas vezes mais chance de ter sucesso ao longo de um ano usando cigarros eletrônicos do que pessoas que escolheram a terapia de substituição de nicotina comum.

O estudo, publicado no New England Journal of Medicine na quarta-feira (30), recrutou quase 900 fumantes no Reino Unido. Todos eles haviam passado por centros dedicados a ajudar a largar o vício. Lá, eles foram aleatoriamente encaminhados a uma das duas intervenções — cigarro eletrônico ou terapia tradicional.

Um grupo recebeu um suprimento de três meses do tratamento de cessação padrão de sua escolha, como goma de mascar de nicotina, adesivos ou pastilhas. O outro grupo recebeu um kit de cigarro eletrônico para iniciantes, completo com alguns frascos de essência, e essas pessoas foram incentivadas a continuar fumando o cigarro eletrônico. Ambos os grupos também receberam um mês de sessões de aconselhamento semanais. Para medir objetivamente seu progresso, eles também tiveram seus níveis respiratórios de monóxido de carbono (uma toxina comum na fumaça do cigarro que permanece no ar exalado) monitorados.

A altura da primeira e da quarta semana, as pessoas que receberam cigarros eletrônicos tiveram menos probabilidade de sentir uma vontade forte de fumar. Elas também se sentiam menos irritadas ou incapazes de focar mesmo após apenas uma semana de tentativa de parar de fumar. E, mais importante, em todos os momentos do estudo, esses usuários tiveram maior probabilidade de se abster completamente de fumar cigarro. Na 52ª semana, 18% do grupo do cigarro eletrônico ainda estava sem fumar cigarros, em comparação com 9,9% do grupo do tratamento padrão.

Isso pode não parecer uma taxa de sucesso enorme, mas é notoriamente difícil parar de fumar. Mesmo a taxa de sucesso usando a terapia de reposição de nicotina observada nesse estudo é na verdade muito elevada em comparação com outros estudos que medem a sua eficácia. Os usuários de cigarros eletrônicos também estiveram mais propensos a reduzir seu consumo de cigarros em 50% ou mais, mesmo que não parassem completamente.

“Este é um estudo bem projetado e muito necessário que pode ter implicações clínicas e políticas importantes para o uso de cigarros eletrônicos como um auxílio à cessação”, disse ao Gizmodo Scott Weaver, epidemiologista da Escola de Saúde Pública da Universidade Estadual da Geórgia e que não esteve envolvido com a pesquisa.

Testes e estudos anteriores tentaram descobrir o quão bem os cigarros eletrônicos podem ajudar os fumantes a parar de fumar. Mas alguns estudos (incluindo um de Weaver) não mostraram nenhum benefício real em comparação com outras opções de cessação. De acordo com os autores, porém, o deles é o primeiro estudo clínico a testar os cigarros eletrônicos modernos em pessoas que tentam ativamente parar de fumar. Esses dispositivos agora geralmente têm mais nicotina e vêm de uma forma mais conveniente do que os dispositivos de vaping da primeira geração.

“Algo que as pessoas muitas vezes não reconhecem é como os produtos de fumo eletrônico se tornaram substitutos muito melhores para os cigarros ao longo do tempo. Portanto, os resultados não são tão surpreendentes assim”, afirmou David Levy, professor de oncologia do Centro Médico da Universidade de Georgetown, não envolvido na pesquisa, em entrevista ao Gizmodo.

Outra consideração importante, de acordo com Sven-Eric Jordt, anestesiologista, farmacologista e biólogo de câncer da Universidade Duke, que estudou os potenciais riscos à saúde do vaping, é como esses pacientes foram tratados.

“O estudo foi realizado sob supervisão médica e com apoio comportamental médico dos fumantes que tentaram parar de fumar”, disse Jordt, que não é afiliado à pesquisa. “Ele não considera a disponibilidade ilimitada de cigarros eletrônicos.”

Weaver acrescentou: “Os resultados desse estudo indicam que, nessas condições, os cigarros eletrônicos melhoraram a probabilidade de parar de fumar. No entanto, particularmente nos EUA, os fumantes não estão, em geral, usando cigarros eletrônicos sob tais condições”.

Por exemplo, disse Weaver, a maioria dos fumantes aqui não fuma cigarros eletrônicos todos os dias, ou então eles o fazem enquanto ainda fumam regularmente. A cultura no Reino Unido em torno do fumo e dos cigarros eletrônicos também é diferente da dos EUA.

O Reino Unido, por exemplo, já tem sido bastante receptivo à ideia do uso do cigarro eletrônico como uma ferramenta para largar o tabagismo. Em 2015, a agência de saúde pública do governo, a Public Health England, endossou um relatório independente que constatou que os cigarros eletrônicos eram significativamente menos nocivos do que os cigarros de tabaco e deveriam ser abraçados como uma forma de ajudar os fumantes a parar de fumar. E eles estão igualmente de acordo com as últimas descobertas.

“Essa pesquisa marcante mostra que mudar para um cigarro eletrônico pode ser uma das maneiras mais eficazes de parar de fumar, especialmente quando combinado com um suporte presencial”, disse Martin Dockrell, chefe da divisão de Controle de Tabaco do Public Health England, em um comunicado. “Todos os serviços para parar de fumar deveriam dar as boas-vindas aos fumantes que desejam parar com a ajuda de um cigarro eletrônico.”

Mas Jordt apontou que dispositivos mais novos, como a cápsula Juul, só recentemente chegaram ao Reino Unido. Esses dispositivos têm até três vezes mais nicotina do que os dispositivos usados no ensaio clínico. A rápida popularidade da Juul entre os adolescentes nos EUA — que gerou receios de que isso poderia levar mais jovens a fumar tabaco e reverter o sucesso que temos visto com a redução das taxas de fumo entre os adolescentes — pode explicar a atitude mais relutante dos médicos nos EUA em abraçar entusiasticamente os cigarros eletrônicos como uma ajuda para parar de fumar.

Embora algumas pesquisas (incluindo uma feita por Levy) tenham colocado dúvida sobre a ideia de que adolescentes fumando cigarros eletrônicos levarão a mais adolescentes fumando tabaco, agências como a Food and Drug Administration (equivalente norte-americano à Anvisa) estão promovendo políticas que deverão restringir que cigarros eletrônicos aromatizados sejam disponibilizados amplamente em lojas ou online. Alguns estados, incluindo Vermont, estão até sugerindo projetos de lei para proibir a venda de produtos aromatizados completamente.

Outra preocupação que Jordt tem sobre os cigarros eletrônicos é de que muitos usuários simplesmente nunca parem de usá-los. Mesmo no atual estudo, aproximadamente 80% das pessoas ainda estavam fumando cigarro eletrônico regularmente no fim do ano. Idealmente, esperaria-se que as pessoas largassem a nicotina e as toxinas potencialmente nocivas dos cigarros eletrônicos. Mas pode ser um preço que valha a pena.

“É uma preocupação. Mas as pessoas que trocam ainda têm probabilidade de ter menores riscos de saúde”, disse Levy.

Apesar das descobertas, Levy e outros especialistas consultados pelo Gizmodo disseram que é preciso fazer mais pesquisas nos Estados Unidos e em outros países, com dispositivos mais novos, antes que os médicos possam cravar o vaping como um método de cessação superior ao tratamento padrão (provavelmente com aconselhamento regular para começar).

“É necessário cuidado”, disse Levy. “Os fumantes, em particular, precisam reconhecer a importância de mudar completamente para os cigarros eletrônicos. Ainda assim, acho que tem um papel importante que eles podem desempenhar.”

[NEJM via Queen Mary University of London]