Quando você diz o nome de uma cor, você está se referindo a propriedades específicas das ondas de luz. O som funciona da mesma forma, mas com as propriedades das ondas de compressão. Mas e o olfato? Com todas as coisas que cheiram por aí e suas complexas interações, tem sido impossível criar uma escala simples para descrever os odores que os nossos narizes sentem.

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Os cientistas entendem que a forma como as coisas cheiram, seja alho ou urina, vem da forma que os receptores do nosso corpo interagem com as estruturas das diferentes moléculas odoríferas. Mesmo assim, dada certa combinação molecular, é difícil dizer com precisão que cheiro vamos perceber. Um time internacional de cientistas entendeu isso e, usando um imenso banco de dados, fez um concurso para criar uma estrutura de algoritmo que relacione os cheiros às moléculas. Os cientistas esperam que a pesquisa revolucione a forma como os humanos entendem o olfato.

“Hoje, o que eles fazem para criar novos cheiros é usar especialistas treinados durante anos e anos”, ou centenas de pessoas testando milhares de odores, o autor Pablo Meyer do centro de pesquisa Thomas J. Watson da IBM disse ao Gizmodo. “Eu acho que isso vai mudar”.

A pesquisa começou com um conjunto de dados que pesquisadores da Rockefeller University coletaram de 49 pessoas, muitas recrutadas no Craiglist, sobre como eles percebiam o cheiro de quase 500 substâncias diferentes. Depois de cada teste de cheiro, os participantes precisavam escolher uma descrição, de uma lista de 19, que melhor encaixava com o odor. Isso produziu uma imensa quantidade de dados, que 22 times combinaram com algoritmos para desenvolver um modelo compreensível do olfato. Por meio da colaboração organizada pela IBM, os times desenvolveram um sistema simples: entra a molécula com sua informação química e estrutural, e o nome do cheiro sai. Quanto melhor o algoritmo conseguia ligar essas moléculas, melhor ele era classificado.

cheiro-catalogo-1Imagem: Rockefeller University

Os modelos descobriram que várias propriedades das moléculas se correlacionam com vários cheiros. Moléculas que contém enxofre, por exemplo, fornecem cheiros de queimado e de alho. Moléculas que parecem com vanilina, que dá o cheiro da baunilha, deixam um cheiro de padaria, de acordo com a pesquisa que será publicada essa semana na Science. Moléculas que pareciam com a droga contra o câncer paclitaxel, ou uma substância chamada fenilacetato, tinham um odor agradável.

Meyer disse que alguns podem se opor à seleção de apenas 19 descrições de cheiro, que eu listei ao final dessa matéria para a sua conveniência, mas disse que esse é um bom lugar para começar. Futuramente, talvez seja possível “avançar na complexidade e descobrir como as pessoas descrevem vinho, perfume e café”, ele disse. “Nós também achamos que é possível prever misturas”, ou criar uma espécie de círculo cromático que você vê nas aulas de arte, “mas ninguém tentou isso antes. Nós precisamos começar em algum lugar”. A pesquisa também repara que o modelo ainda precisa avançar muito, ele previu alguns cheiros com uma precisão muito maior do que outros, e teve dificuldade em prever cheiros como “ácido”, “frio”, “quente”, e “urina”. Eu pessoalmente não tenho dificuldade em reconhecer o cheiro de urina.

Então, algum dia nós podemos aprender sobre e ser capaz de misturar cheiros como tinta, baseado nos formatos e propriedades das moléculas ao invés das nossas opiniões pessoais. Quem, afinal de contas, não quer um futuro onde você aponte uma molécula na aula de química e diga “Professor, essa molécula cheira a mijo!”.

Para os leitores dedicados que chegaram até aqui: os 19 cheiros usados no estudo são: grama, padaria, doce, fruta, especiarias, frio, madeira, químico, podre, flor, azedo, ácido, almíscar, alho, quente, queimado, peixe, suor e urina.

[Science]

Imagem do topo: Rockefeller University