Vênus pode se parecer com a Terra, com seu tamanho parecido e a presença de uma atmosfera grossa, cheia de dióxido de carbono. Mas quanto mais os cientistas o observam, maiores são as surpresas vindas do segundo planeta mais próximo do Sol.

Novos resultados de uma simulação seguem ilustrando uma estranha imagem de nosso vizinho nocivo. Parece que uma interação entre as montanhas do planeta e sua atmosfera poderiam criar ondas fortes o bastante para mudar a duração do dia em Vênus em até dois minutos.

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Vamos entender este estranho planeta com que estamos lidando. Um rotação completa de Vênus leva 243 dias terráqueos, enquanto uma única órbita em torno do Sol leva 225 dias. Entretanto, o planeta rotaciona na direção oposta à da Terra, portanto, se consideramos um “dia” a virada completa por um planeta, então o Sol na verdade nasce duas vezes em um só dia em Vênus. Enquanto isso, seus topos de nuvem orbitam o planeta a cada quatro dias terráqueos, e a atmosfera em sua superfície é cerca de 90 vezes mais densa do que a da Terra a nível do mar.

A Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial tem uma espaçonave orbitando Vênus chamada Akatsuki. Ela já fez observações importantes, como uma enorme anomalia atmosférica, uma estrutura em forma de arco nas nuvens do planeta que parecem não se mover, apesar dos ventos rápidos abaixo. A equipe por trás da missão levantou a hipótese de que essa estrutura persistente seja o resultado de uma onda produzida quando os ventos velozes do planeta correm contra suas montanhas, como água fluindo sobre uma grande rocha em um rio.

Dois pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles e um outro da Universidade de Paris-Saclay, na França, colocaram os dados da Akatsuki em um modelo da atmosfera de Vênus, e a simulação esteve de acordo com a hipótese anterior de que a estranha anomalia era uma “onda gravitacional”, resultante da interação do vento com as montanhas. Mas ela também descobriu que, levando essas ondas em consideração, a atmosfera poderia causar uma flutuação de dois minutos terráqueos na velocidade de rotação de Vênus sobre seu eixo.

Isso é interessante por várias razões, de acordo com o estudo publicado nesta segunda-feira (18), na Nature Geoscience. Estudar de forma mais aprofundada essas ondas e como elas afetam Vênus poderia ajudar cientistas a entender melhor seu interior, assim como sua estranha atmosfera. E aprender sobre processos em outros planetas poderia nos ajudar a interpretar fenômenos na Terra.

Mas vale apontar que os cientistas não mediram, de fato, uma mudança de duração de dia — eles apenas executaram um modelo que sugeriu que isso seria possível. Eles anunciam em seu novo artigo que o modelo tem seus limites, e será necessária observação direta para saber o que está mesmo acontecendo em Vênus. “Em algum momento, uma medição precisa de duração do dia poderia detectar os vários impactos do fluxo atmosférico contra montanhas”, escrevem.

Independentemente disso, vai levar muito tempo até que qualquer humano possa vivenciar o clima maluco de Vênus diretamente. O planeta é o mais quente do Sistema Solar, com uma temperatura média de superfície superior a 454 ºC.

[Nature Geoscience]

Imagem do topo: NASA