Por uma dessas coincidências da vida, um filme francês, na verdade uma comédia, se passa na Rússia, mas a produção foi toda ela feita na Ucrânia por questões logísticas e de segurança. Tudo isso antes de começar a guerra entre os países em fevereiro passado. E a história traz críticas à postura homofóbica do russo médio.

A produção em questão é uma sequência do popular filme “The Spangled Shrimps” (“Les Crevettes Pailletées no original), vai estrear nos cinemas em 13 de abril e se chama “The Revenge of the Glitter Shrimps”, ou “La Revanche Des Crevettes Pailletées”. O curioso é que muitos atores coadjuvantes, figurantes e integrantes da equipe de filmagem foram contratados na própria Ucrânia e muitos estão hoje nas frentes de batalha lutando pelo país.

“The Revenge of the Glitter Shrimps” segue uma fórmula semelhante à de seu antecessor, que contou a verdadeira história de um time gay de pólo aquático baseado em Paris.

Na trama atual, o time está a caminho dos Jogos Gays de Tóquio, perde uma conexão aérea e fica preso nas “profundezas da Rússia”, em uma região particularmente homofóbica. 

É nesse universo que aparece o alegre bando de “Shiny Shrimps”, acompanhado por um novo personagem, Sélim (Bilal El Atreby), um jovem heterossexual cheio de preconceitos. Enquanto alguns se escondem em hotéis, outros se aventuram do lado de fora. Mas na Rússia, encontrar um clube gay para festejar ou uma noite em um aplicativo de namoro pode se tornar um pesadelo.

O filme mostra os personagens fugindo de temíveis “caçadores de gays”, que espancam homossexuais nas esquinas e descobrem o inferno da terapia de conversão. Confira ao trailer:

O objetivo dos diretores, Maxime Govare e Cédric Le Gallo, era acabar com o tabu da homossexualidade no esporte. Porém, agora estão se voltando para temas ainda mais políticos de homofobia patrocinada pelo Estado e crimes de ódio. 

“Atirar na Rússia era impossível por causa da lei que proíbe a propaganda LGBT”, diz Govare. “Filmar dois homens se beijando na rua nos colocaria na cadeia”, completa. 

Por isso, a Ucrânia foi escolhida para gravar o filme, por sua semelhança cênica com a Rússia e pelas instalações de filmagem para equipes ocidentais. Ninguém ousava imaginar uma invasão russa no país, e o rumo dos acontecimentos afetou gravemente seu elenco e equipe, 80% dos quais relatados eram ucranianos.

Hoje, uma atriz do filme está abrigada com seus filhos no metrô de Kharkiv e os membros da equipe pegaram em armas e agora se juntaram ao exército e estão lutando na guerra. Outros profissionais do longa, fugiram para a França, onde pedem solidariedade na profissão para encontrar trabalho. 

“Nós nos divertimos colocando homossexuais no país dos homofóbicos”, diz Le Gallo, mas o filme, entre comédia de aventura e comédia musical, pretende atingir um alvo mais amplo. Os dois diretores têm o sonho de ver seu filme ser exibido na Ucrânia quando o conflito terminar, como planejado antes da guerra.

Vale destacar que o filme de 2019 atraiu um público de quase 600 mil, um grande número para o que muitas vezes é considerado um filme de nicho. No Brasil, “Les Crevettes Pailletées” ou “Os Camarões Brilhantes” está disponível para compra ou aluguel no Google Play Filmes e TV, Apple TV e YouTube