Após tantas críticas à indústria de combustíveis fósseis, está na hora de incluirmos a indústria pecuária nas discussões sobre a crise climática. Um novo estudo mostra que o agronegócio, além de grande fonte de emissões de carbono, também propaga muita desinformação sobre o assunto.

A pesquisa, publicada no mês passado na Climatic Change, analisa os movimentos de relações públicas por trás de alguns dos maiores produtores mundiais de carne e laticínios, comparando-os com suas emissões. O mais chocante é que a análise revela que as 10 maiores empresas agrícolas dos Estados Unidos contribuíram para os esforços de minimizar a relação entre o agronegócio e as mudanças climáticas.

“Estamos tentando mostrar a importância de pensar sobre o ator corporativo neste problema”, disse Jennifer Jacquet, professora associada de estudos ambientais da Universidade de Nova York e coautora do artigo. “Essas empresas não estão influenciando apenas os processos geofísicos, elas estão influenciando os processos sociais. Isso simplesmente não foi tão discutido como em outros setores, como os combustíveis fósseis.”

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a pecuária responde por mais de 14% das emissões globais. Um relatório seminal de 2018, no qual esta nova análise se baseia, descobriu que os 35 maiores produtores de carne e laticínios do mundo sozinhos são responsáveis ​​por 15% de todas essas emissões. Um dos problemas mais complicados da pecuária é, obviamente, o metano produzido pelas vacas. O metano é um gás de efeito estufa de curto prazo — não permanece na atmosfera tanto quanto o dióxido de carbono — mas é substancialmente mais potente e pode causar mais danos enquanto está lá.

Uma pesquisa publicada no ano passado descobriu que as emissões globais anuais de metano aumentaram 9% de 2000 a 2017 — o equivalente a dobrar as emissões totais de dióxido de carbono da Alemanha ou da França — principalmente como resultado da agricultura.

O estudo da Climatic Change é dividido em três partes. Primeiro, os autores pesquisaram a lista dos 35 maiores produtores mundiais e analisaram seus compromissos de sustentabilidade usando quaisquer documentos disponíveis — incluindo relatórios para investidores, sites e relatórios anuais — para obter o máximo de detalhes possível.

Das 35 empresas pesquisadas, somente algumas poucas tinham qualquer tipo de compromisso explícito com a redução das emissões; apenas quatro tinham uma meta líquida de zerá-las até 2050, enquanto três outras tinham algum tipo de meta definida para as décadas seguintes. A maioria desses compromissos, descobriu o estudo, eram vagos e focados em mitigar o uso de energia nas cadeias de suprimentos da empresa, em vez de realmente reduzir as emissões de metano de animais em seus sistemas.

Em seguida, o estudo comparou as pegadas de emissões de gases de efeito estufa específicas dessas empresas com a dos países em que estão sediadas para ver como elas estavam alinhadas com os compromissos individuais dos países com o Acordo de Paris. Os resultados mostram que muitas das emissões dessas empresas são tão grandes que incorporar suas emissões às dos países em que estão sediadas excederia muito o limite nacional de carbono. As emissões da Nestlé e da produtora de laticínios Fonterra, sediadas na Suíça e na Nova Zelândia, respectivamente, consumiriam todo o limite de carbono desses países.

Há muita matemática entre países envolvida em alguns desses cálculos — empresas sediadas na Suíça, por exemplo, possuem terras agrícolas em outras partes do mundo — e, como Jacquet apontou, não se encaixa exatamente em como o Acordo de Paris exige que os países contabilizem suas emissões. Mas o processo, disse Jacquet, era mais um exercício de reflexão para encorajar os países a agir e ajudar a manter o agronegócio sob controle.

“Se a Smithfield está plantando ou comprando soja da Amazônia, talvez isso devesse fazer parte do cálculo de emissões do WH Group [na China], que é dona da Smithfield”, disse Jacquet. “Será que os países que abrigam grandes empresas pecuárias estão pensando muito neste setor? [Essas empresas] fazem parte da base tributária desses países e empregam seus cidadãos. O que esses países farão com relação a esse setor?”

Finalmente, a terceira parte do estudo se concentra nos EUA e nos esforços dos produtores de carne sediados no país para minimizar seu papel na crise climática. Esta descoberta é talvez a mais chocante: 10 dos maiores produtores de carne — incluindo grandes nomes como Tyson, Cargill e Hormel — apoiaram iniciativas para financiar o negacionismo climático, ajudaram a espalhar retórica negacionistas ou doaram para políticos negacionistas ou aqueles que são contra políticas climáticas.

Essas empresas gastam muito dinheiro. De 2000 a 2020, descobriu o estudo, a gigante do agronegócio Tyson doou mais de US$ 3 milhões para campanhas políticas. Isso é apenas uma fração dos US$ 17 milhões que a Exxon (empresa norte-americana de combustíveis fósseis) gastou no mesmo período, mas uma porção significativamente maior da receita da Tyson em comparação com a da Exxon. No contexto das receitas, a Tyson também gastou 33% a mais em lobby durante esse período do que a Exxon.

Analisar a intenção de algumas dessas doações é um pouco complicado. Como observa o relatório, grande parte desse dinheiro tinha como objetivo “apoiar uma ampla agenda política que incluísse questões além da mudança climática, incluindo leis de financiamentos agrícolas e subsídios”. Mas, disse Jacquet, esse dinheiro também foi distribuído entre associações comerciais que fazem lobby contra a política climática e foi destinado diretamente a apoiar cientistas que minimizaram publicamente as associações entre o setor agrícola e as emissões globais.

“Eu subestimei até que ponto eles estavam envolvidos nas mudanças climáticas, especificamente”, disse Jacquet. “Eles estão trabalhando muito para minimizar a ligação entre o que suas empresas fazem e as mudanças climáticas, e também estão mobilizando grandes esforços, especificamente para minar a política climática. Isso parece meio sombrio. Isso é algo que o público merece saber.”

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E a consciência pública pode se espalhar em breve. Jacquet disse que o foco nas empresas específicas investigadas no estudo é algo que ela acredita que se tornará muito importante à medida que intensificarmos os esforços para manter as emissões globais de gases do efeito estufa sob controle.

“Essa conversa ainda não está tão quente quanto eu esperava”, disse ela. “Estamos tentando intensificar isso.”