Mooly Eden saiu do mundo dos transistores e microprocessadores por um momento. “Se você quer uma explicação simples do que estamos fazendo, olhe para Asimov”, diz o chefe da divisão de computação pessoal da Intel, explicando. “Ou Star Trek, Star Wars, e Avatar. As ideias estão na ficção científica há anos, e agora estão se tornando realidade”. Eles estão pegando conceitos de sci-fi e arrumando um jeito de colocar em prática.

Isso tem uma ligação direta com computação perceptiva como você vai entender, já que os planos que a Intel nos mostrou até agora são bastante ambíguos. Por enquanto, vimos a vanguarda chegar, com recursos como o rastreador de visão Tobbi, um sensor de movimento e gestos parecido com o Kinect, e reconhecimento humano e de sobreposição.

Os objetivos a longo prazo, no entanto, são muito mais ambiciosos. “É inevitável que seja de vestir”, diz Eden, se referindo a tecnologias como o Google Glass. “E implantável é provavelmente o próximo passo”. Imagine um computador implantável que pode monitorar os sintomas de Alzheimer. Ou mesmo implantes que leem o cérebro, que Eden mencionou quando disse claramente que isso é em um senso geral, não um anúncio de produto.

Esse é o tipo de produto que você espera que seja desenvolvido, como o departamento de pesquisa e desenvolvimento de Lucius Fox, operando bem distante do que a versão do mundo real das Empresas Wayne e a Intel estão fazendo. Mas, ao mesmo tempo, é o coração de tudo o que a Intel faz.

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A iniciativa da Computação Perceptiva da Intel começou há cerca de 18 meses, com grande investimento corporativo, mas as raízes são da divisão PC Cliente, onde Mooly Eden e sua equipe trabalhavam há anos. Ela envolve um modo completamente diferente de como se construir um microprocessador. “Por anos, eu olharia para um processador e veria pontos flutuantes e outras especificações técnicas”, diz Mooly. “Mas eu ia para casa, encontro minha esposa e ela dizia ‘Bem, e o que isso faz por mim?’ E eu não tinha uma resposta.”

Foi aí que Eden, parte da divisão e PCs da Intel por mais de 30 anos, e o gerente geral de 2009 a 2012, mudou as coisas. Em vez de focar puramente em especificações técnicas e métricas, a Intel começou a bordar seus objetivos futuros para os microprocessadores baseada em resultados de estudos sociológicos sobre como as pessoas usam os computadores. Mas isso também aconteceu porque a equipe de Mooly antecipou coisas como a necessidade de eficiência de energia.

Como isso vai se manifestar em um brinquedo no futuro? Além da performance e eficiência para os gadgets atuais, eles também têm ideias na mesa. Se você tem uma câmera sempre ligada, por exemplo (você não pensou que o Google Glass era o único com olhos para isso, pensou?) que é inteligente o suficiente para saber como o seu carro parece, você pode simplesmente perguntar “Onde eu deixei o meu carro?” e ela vai mostrar uma imagem ou alguns segundos de um vídeo, poupando meia hora de uma busca por um estacionamento.

Mas como vamos chegar aí é um processo longo. Em vez de apenas se trancar por uns anos e quem sabe, com alguma sorte, chegar a um lugar com algo real para as pessoas usarem um dia (como a Microsoft Research), a Intel está fazendo o trabalho braçal em coisas que vão ser fundamentais para uso futuro. E então ela começa a implementá-los agora, como as próximas gerações de PCs sensíveis ao toque, ou o avançado-mas-ainda-nem-tanto reconhecimento de movimento mostrado na CES.

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Em um futuro próximo, muita coisa usará os processadores Haswell, e o Broadwell que sai no ano que vem também. Na superfície, eles parecem apenas a quarta geração da série Core da Intel. Mas não é só isso, de acordo com Eden. “O Haswell foi desenvolvido do zero com a intenção de melhorar a experiência para as pessoas”, diz. Ele terá métodos avançados de economia de energia, como controle de atualização de tela, modos sleep avançados e controle de energia para quase tudo na placa-mãe.

A equipe da Intel ainda usa tecnologias tradicionais de microprocessadores. “Nós basicamente estamos tentando desafiar a gravidade”, diz Mooly sobre o processo de 22 nanômetros usado na arquitetura Haswell. Os transistores continuam cruciais. “Se eu estou tentando desenvolver a melhor torre de Lego do mundo”, ele continua, “eu preciso das melhores peças de Lego que conseguimos fazer.”

Mas enquanto a Intel fala bastante sobre o que quer fazer com as tecnologias, e os objetivos estão absolutamente apontados na direção certa, uma segunda olhada nos esforços do mundo real até este ponto dão algo a se pensar. Para todos os avanços técnicos e conquistas – aceleradores de hardware dedicados, novas arquiteturas impressionantes, mudanças rápidas de estado de energia – ainda existe um problema: será um longo caminho para os esforços em dispositivos móveis chegarem ao mesmo estágio que está a competição.

Os processadores Clover Trail Atom não tiveram o impacto que a Intel queria, e a atenção focada no Medfield no ano passado parece ter mudado para o Lexington, uma plataforma de baixo custo. Basicamente, a Intel está falando grande sobre o futuro da computação, mas ainda está brincando no presente do mobile.

E mais, se a Intel quer desenvolver a computação perceptiva, ela precisa cravar a interface, ou vai encontrar a mesma resistência de adoção que o Windows 8 está encarando agora. Basicamente, as pessoas ficam felizes em ver uma demonstração técnica, mas se precisam usar todo dia, tem que funcionar perfeitamente.

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Os grandes obstáculos para a interface natural é a entrada e saída. Como interagiremos com futuros computadores não é  algo natural. Interfaces com toque são um bom começo, mas os avanços reais vão chegar de outras ideias como rastreamento dos olhos, gesto e voz. O problema é, nenhum desses métodos está pronto para ser usado atualmente.

Vamos pegar a interpretação natural de idiomas. Está sendo um desafio para engenheiros há anos, e não parece estar melhorando do jeito que queríamos. O Siri é uma farsa, e todo mundo que tenta coisas parecidas diminuiu consideravelmente as expectativas. E ainda mais, esses serviços sofrem do que Eden considera o problema fundamental da fala: é raso ou detecta as palavras erradas. Antes de você conseguir trabalhar em algorítmos ou contexto, você precisa fazer ele funcionar.

Desde o seu lançamento, um dos maiores desafios do Siri foi detectar sotaques. Mooly, falando com um sotaque hebreu, conseguiu fazê-lo reconhecer o seu som “th’ depois de repetir a calibração por cinco vezes. Agora ele consegue falar ‘untethered’ (sem restrições, em inglês) e ter a palavra reconhecida com quase 100% de precisão. É assim que você faz um sistema de reconhecimento de voz. E peça por peça, é assim que Eden e o resto da Intel estão tentando criar o futuro, bem aqui na nossa frente.