O tecido cerebral é bem macio e repleto de líquido, e, através da autólise, ele começa a se decompor rapidamente após a morte. Mas em alguns casos ele pode ser preservado.

Em 1998, arqueólogos escavaram restos fossilizados de uma criança de 18 meses de idade em um local próximo à Quimper, na França. A criança tinha morrido cerca de 700 anos antes, e seu corpo foi encontrado envolto em couro e dentro de um caixão de madeira com um travesseiro sob a sua cabeça. Seu crânio tinha uma grande fratura, o que sugere que hemorragia cerebral foi a provável causa da morte — e ainda continha restos murchos da parte esquerda do cérebro.

O tecido cerebral tinha perdido cerca de 80% do seu volume original, mas tirando isso estava muito bem preservado. Os lobos frontal, temporal e parietal mantiveram o formato original, e outras estruturas cerebrais, como as ranhuras e os cumes característicos do córtex cerebral, eram visíveis a olho nu. Além disso, os pesquisadores conseguiam distinguir facilmente entre a massa cinzenta e branca em exames de ressonância magnética. O exame microscópico dos tecidos mostrou que ele ainda continha células intactas.

No ano passado, uma equipe de pesquisadores russos relatou uma nova descoberta — a carcaça parcial de um mamute de 39.000 anos de idade, escavado a partir do gelo permanente na República da Iacútia, na Rússia, completo com um cérebro bem preservado.

Essas descobertas são extremamente raras porque o tecido cerebral só é preservado em restos humanos ou de animais caso eles sejam enterrados em condições ambientais bastante específicas. Os restos do esqueleto da criança foram encontrados em uma área contendo tanto água fresca quanto salgada, e a sua imersão contínua na água – combinada com a ausência de oxigênio – provavelmente foi o que fez o cérebro se preservar tão bem.

Condições como essa favorecem a formação de adipocere (também conhecida como cera cadavérica) através de um processo conhecido como saponificação. A adipocere é como um sabão, uma substância semelhante à cera formada quando bactérias anaeróbicas quebram a gordura corporal de uma pessoa. Ela consiste principalmente de ácidos graxos saturados, e sua formação produz um molde firme e estável dos tecidos moles que de outra forma sofreriam putrefação.

Se as condições foram as ideais, a formação da adipocere começa entre duas semanas e dois meses após a morte — e em alguns casos ela consegue até ajudar investigadores a determinaram a causa de uma morte.

Muitos anos atrás, o corpo de uma mulher de meia idade foi encontrado embrulhado em um saco plástico em um lago raso próximo a Delhi. Os restos da mulher ficaram submersos por cerca de três meses, graças a um bloco de concreto preso ao seu pescoço, e seu corpo estava em decomposição. Como ele ficou tanto tempo debaixo da água e durante a temporada de chuvas, no entanto, a adipocere conseguiu se formar ao redor de tudo. Isso acabou preservando a lesão fatal da mulher: um grande corte na garganta que ainda era visível, e, concluíram os investigadores, foi isso o que a matou. Em outro caso, pedaços de adipocere se formaram dentro das feridas de bala de uma vítima de assassinato. Os investigadores recuperaram a bala de um dos pedaços e identificaram a arma do crime a partir dela, e, assim, chegaram ao culpado.

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