A Síria ficou dois dias completamente isolada da internet. O governo sírio diz que isto aconteceu devido a “dificuldades técnicas”, mas não é isso que a investigação da CloudFare sugere. Veja como a Síria desligou a internet – e como o acesso foi restabelecido neste final de semana.


No dia 29 de novembro de 2012, entre 10h26 e 10h29 (UTC), todo o tráfego da Síria para o resto da Internet parou. Na CloudFlare, nós testemunhamos a queda.

A CloudFlare estudou a situação para entender o que aconteceu. Os gráficos a seguir mostram o tráfego dos últimos dias vindo da Síria para nossos servidores.

Desde o começo da interrupção, nós não recebemos tentativas de conexão dos blocos de IP da Síria. É um blackout maior do que vimos em outros paises que cortaram a Internet (veja por exemplo o Egito, onde todo o tráfego foi cortado, mas algumas requisições ainda pipocavam).

O gráfico abaixo mostra dois outros incidentes que ocorreram na semana passada. Em 25 de novembro de 2012, aproximadamente às 8h (UTC), nós vimos um período de 15 minutos em que o tráfego sírio foi cortado a apenas 13% dos níveis normais. Novamente, no dia 27, às 7h30 (UTC), um outro período de 15 minutos em que o tráfego caiu a incríveis 0,2% do normal.

O que aconteceu

O Ministro da Informação da Síria disse que o governo não desativou a Internet, mas, em vez disso, a interrupção foi causada por um cabo cortado. Especificamente: “Não é verdade que o estado cortou a Internet. Os terroristas atingiram as linhas de Internet, resultando no corte do serviço em algumas regiões.” A partir da nossa investigação, isso parece bem improvável.

Para começar, toda a conectividade da Síria – não só de algumas regiões – foi cortada. O provedor exclusivo de todo o acesso à Internet no país é a Instituição de Telecomunicações da Síria. O número de sistema autônomo deles é AS29386. Os seguintes provedores de rede tipicamente conectam a Síria ao resto da Internet: PCCW e Turk Telekom são os provedores primários, e Telecom Italia e TATA fornecem capacidade adicional.

Quando ocorreu o corte, as rotas (de BGP) para os IPs sírios foram simultaneamente retiradas de todos os provedores upstream da Síria. O efeito disso é que as redes ficaram incapazes de rotear o tráfego para os IPs sírios, cortando efetivamente o país da Internet.

A síria tem quatro cabos físicos que conectam o país ao resto da Internet. Três deles são cabos submarinos que chegam à terra pela cidade de Tartus. O quarto é um cabo terrestre que passa pela Turquia. Para um corte total no país, todos esses cabos teriam que ser cortados simultaneamente. É improvável que isso tenha acontecido.

Vendo o corte acontecer

Um de nossos engenheiros de rede gravou o seeguinte vídeo das redes sendo retiradas. A Instituição de Telecomunicações da Síria (AS29386) é representada por um ponto vermelho no meio da tela. As linhas representam rotas para os provedores superiores.

Começando às 10h26 (UTC), foram retiradas as rotas para a PCCW. O roteamento migrou principalmente para a Turk Telecom. O roteamento para Telecom Italia e TATA também foi removido, mas com menos impacto. Então, às 10h29 (UTC), foram removidas as rotas para a Turk Telekom. Depois disso, a Síria estava com a Internet efetivamente cortada. (Note que o caminho que aparentemente resta no vídeo é uma anomalia. Nós confirmamos que ele não está ativo.)

Por enquanto, não podemos ter certeza, mas nossa equipe estima que a Síria tem um pequeno número de roteadores, todos controlados pelo provedor estatal. A maneira sistemática de retirada das rotas sugere que ela foi feita por meio de atualizações nas configurações dos roteadores, e não por uma falha física ou corte no cabo.

O que os sírios estavam acessando antes de a Internet ser cortada?

Os últimos sites requisitados à CloudFlare a partir da Síria nos segundos antes do corte foram: fotoobook.com (blog de compartilhamento de fotos), aliqtisadi.com (site de notícias da Síria), madinah.com (rede social direcionada a muçulmanos) e to2.xxx (um site pornô).

Em outras palavras, o tráfego dos sírios que estavam acessando a Internet momentos antes do corte é similar ao tráfego em qualquer parte do mundo.

Como postamos recentemente, não cremos que nosso papel é tomar partido em conflitos políticos. No entanto, acreditamos que nossa missão é construir uma Internet onde todos tenham voz e acesso à informação. Logo, é muito perturbador para a equipe da CloudFlare quando vemos uma nação inteira impedida de acessar e reportar informações. Enviamos nosso apoio ao povo sírio, e esperamos que a conectividade e a paz sejam restauradas em breve.

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1° de dezembro, 21h05 (UTC): O tráfego na rede CloudFlare em endereços IP da Síria parece ter retornado aos níveis observados antes do desligamento. Quase imediatamente após os primeiros links serem restabelecidos, vimos os níveis de tráfego saltarem de volta.


Matthew Prince é o co-fundador e CEO da CloudFlare, onde este post apareceu originalmente. Você pode segui-lo no Twitter aqui.

Crédito da imagem: Shutterstock/Kheng Guan Toh