Além da longevidade e da legião de fãs fiéis, outro ponto que se destaca no universo Star Trek é que, desde os primórdios, a saga opta por abordar temas que eram (ou ainda são) considerados tabus sociais.

Começou com o primeiro beijo inter-racial da TV americana — retratado na série clássica de Kirk, Spock e companhia, em 1968. Mas não parou por aí.

Na série “Star Trek: A Nova Geração”, por exemplo, durante o episódio “The Outcast”, da 5ª temporada, o comandante William Riker se apaixona por Soren, um membro da espécie alienígena andrógina que não aceita a distinção de gênero entre masculino e feminino. O episódio foi divulgado em 1992 — e certamente introduz uma discussão muito além do seu tempo.

A alegoria dos Trills

A questão também é abordada na série “Star Trek: Deep Space Nine”, mais especificamente com Jadzia Dax, uma personagem da espécie alienígena Trill, que tem a capacidade de transferir a consciência e memórias — um tipo de simbionte — de um corpo para outro, mesmo que ele seja de um gênero diferente.

No episódio “Rejoined”, da quarta temporada, Jadzia enfrenta o tabu dos trills de não poder se reencontrar com entes queridos de antigos corpos anfitriões de seu simbionte, fazendo uma alegoria direta à homofobia. Neste episódio, há também o primeiro beijo lésbico da franquia — em 1995.

Mais recentemente, em “Star Trek: Enterprise”, no episódio “Cogenitor”, da segunda temporada, a nave se encontra com os vissianos, uma espécie avançada formada por três gêneros: masculino, feminino e cogenitores. Esse terceiro gênero representava apenas 3% da população e eram tratados como inferiores, não podendo ler ou aprender, e existindo apenas para facilitar a reprodução entre homens e mulheres.

Apesar da atitude louvável de retratar o tema, esses três episódios têm finais tristes e trazem alguns problemas pontuais de entendimento dos roteiristas da época sobre a comunidade LGBTQIA+, como bem pontuou Jessie Gender, youtuber trans e fã de Star Trek, em um vídeo publicado em seu canal.

A diversidade de Star Trek: Discovery

A causa trans se tornou ainda mais evidente na atual “Star Trek: Discovery”. A série é considerada uma das mais diversas e inclusivas de Jornada nas Estrelas, por trazer uma mulher negra como capitã da nave, um casal abertamente gay no elenco principal e uma engenheira lésbica entre os personagens recorrentes. A série retrata até mesmo um romance interespécies — com culturas totalmente distintas.

Foi neste cenário que foi introduzido o personagem não-binário Adira, — no episódio “People of Earth”, da 3ª temporada — que tem como intérprete o também não-binário artista Blu Del Barrio. Adira, inclusive, usa uma linguagem neutra na série e tem um relacionamento amoroso com o trill Gray Tal, um personagem transgênero interpretado por Ian Alexander. Adira é descrita como altamente inteligente, com uma autoconfiança muito além de sua idade. Já Gray é empático e caloroso.

Os roteiristas da série se reuniram com os intérpretes, assim como organizações LGBTQIA+, para adaptarem a história dos personagens e garantir que eles refletissem de forma fiel as pessoas trans e não binárias.

Aqui, em vez de histórias e reflexões tristes, os personagens estão inseridos na trama com total naturalidade, sem quaisquer preconceitos, com todos trabalhando juntos em prol de um bem comum.

Ian Alexander, interpretando o trill Gray Tal em Star Trek Discovery. Imagem: Paramount+/Divulgação

Infinita diversidade

A celebração da diversidade como valor central da franquia pode ser materializada no conceito filosófico vulcano do IDIC, sigla em inglês para “Infinita Diversidade e em Infinitas Combinações”.

Os vulcanos pregam que a verdadeira beleza do universo está na pluralidade e que mesmo coisas contraditórias podem se unir. Afinal, se você tem a tecnologia para viajar pela galáxia, é fundamental que você esteja disposto a encontrar, entender e aceitar espécies de diferentes culturas.

Segundo Avery Kaplan, editora de recursos do site Comics Beat, ter um personagem como Gray incluído no elenco de Discovery envia uma mensagem importante de como pessoas trans são parte integrante da utopia futura retratada por Star Trek.

“Em uma época em que ser trans é visto com preconceito, Discovery nos dá esperança de um mundo onde podemos ter certeza de que seremos aceitos por quem somos. Além disso, o valor de ver personagens trans que são retratados com empatia e cuja perspectiva é valorizada em uma franquia com o impressionante impacto cultural que Star Trek possui não pode ser subestimado”, afirmou Kaplan ao site Star Trek.