Bem-vindo de volta ao Giz Asks, uma série onde nós perguntamos a especialistas questões difíceis sobre ciência, tecnologia e o futuro da humanidade. Hoje, vamos à procura do animal “mais faminto”.

Seja quando estão hibernando, migrando milhares de quilômetros para reproduzir ou morando em um deserto seco, muitos animais passam semanas ou até meses sem nenhuma comida. Para alguns, ficar longos períodos sem comer é normal, já está programado em seus instintos e DNA. Alguns animais levam esse jejum ao extremo, como, por exemplo, as assustadoras salamandras cegas chamadas proteus, que conseguem ficar até dez anos sem comer.

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Até em casos menos excessivos, como ursos quando hibernam durante o inverno, a habilidade do animal passar semanas ou até meses sem comer, é uma capacidade incrível que chama a nossa atenção. Mas os animais experienciam a fome como nós? Os animais que fazem jejum estão sempre com fome, ou fome é algo que experimentam raramente? Eles estão constantemente sofrendo, da mesma forma como nós sofreríamos nessa situação?

Nós pedimos para biólogos, psicólogos e neurocientistas nos explicarem como se sente um animal faminto.

Ivan de Araujo

Professor associado de psiquiatria, Yale School of Medicine

Essas são questões interessantes. Para ser franco, eu não acho que nós possamos saber como os animais dessas espécies em particular se “sentem” quando privados de comida por suas fisiologias terem evoluído para serem mais resistentes à falta de nutrientes. Algumas espécies passam meses sem comer via mecanismos de reduções drásticas na função cardiovascular (por exemplo, alguns répteis baixam sua taxa cardíaca a 1 batida por minuto enquanto “esperam” outra estação de caça). Então, dadas as grandes diferenças de sinais internos, eu diria que o que eles experienciam é bem diferente do que espécies menos adaptadas como a nossa. Mas, como eu disse, essa é uma questão difícil de resolver — em mamíferos, parece que a fome produz mecanismos de evitação, então seria interessante saber se a evitação desses animais vem de uma provação de comida prolongada.

Outro ponto é que os animais não precisam necessariamente estar com fome para procurar comida. Na natureza, detectar presa é um evento aleatório que deve ser enfrentado de maneira oportunista, e muitos caçadores perseguem e matam sua presa estando com muita fome ou não.

Chris Braun

Professor e dono da cadeira de psicologia, Hunter College

A fisiologia de uma espécie é totalmente adaptada ao seu consumo típico de comida. Se seu ciclo de alimentação normal tem longos intervalos (hibernação, período de procriação, migração etc), então as adaptações fisiológicas incluem grandes armazenamentos de gordura, metabolismo mais lento, uso de músculos, coisas assim. Isso se relaciona ao consumo de calorias e ao uso de energia. Qualquer espécie que tem longos intervalos entre a alimentação precisa desses tipos de truques fisiológicos.

Mas fome é algo diferente. De um ponto de vista behaviorista, a fome é uma variável abstrata que expressa a chance de um animal trabalhar por comida. Pode ser alterada por experiência passada, incluindo o tempo desde que comeu por último e a memória (nós sempre ficamos com fome antes do sino do jantar). Também é influenciado por processos metabólicos internos, mas apenas indiretamente. Isso é provavelmente baseado em sensores de química do sangue e metabolismo de gordura dentro do corpo e do sistema nervoso.

A nossa própria experiência da fome é um sentimento de desconforto que é proporcional àquela fome abstrata mensurável, mas inclui um sentimento de vazio no estômago e uma motivação para encontrar comida para comer, além de um sentimento de satisfação (ou mais, “oba, chocolate!”) quando você consegue a comida. É hora do almoço, então eu acho que você sabe o sentimento. Mas você também sabe da sua experiência que [fome] não está estritamente ligada ao consumo de comida (infelizmente).

A seleção natural deve afinar esse sentimento interno de comida para o ritmo de alimentação para cada espécie. Eu acho que da mesma forma que um humano pode ficar absorvido em uma tarefa ao ponto de pular uma refeição sem perceber, um pássaro migratório não “pensa” em comida. Se você pegar um pássaro no meio da época de migração e fizer um experimento em que ele poderia trabalhar por comida (apertar um botão), eu acho que ele não tentaria. Do lado de fora, ele não parece com fome. A partir do que podemos adivinhar ou fazer analogia de sua perspectiva interna, eu acho que não é apenas parte de suas consciências. Eles não sentiriam ataques de fome, ansiedade sobre quando será a próxima refeição ou nenhum tipo de desejo por comida, da mesma forma que você nem percebe a hora do jantar passando quando está profundamente absorto em outra motivação.

Marshall McCue

Professor associado, departamento de ciências biológicas, St. Mary’s University

Essas são perguntas difíceis de colocar em termos objetivos. Eu vou apontar que alguns animais simplesmente não vão consumir uma refeição se eles consumiram uma refeição dentro do mês passado (exemplos incluem muitas cobras de corpos grandes). Também note que os humanos que fizerem jejum além de mais ou menos cinco dias vão gradualmente perdendo os sentimentos mais fortes da fome (essa resposta é potencialmente adaptativa). Certamente, animais (incluindo humanos) mostram diversas estratégias de adaptação fisiológica para lidar com períodos naturais de limitação de alimentos.

Brian Palestis

Professor, departamento de ciências biológicas, Wagner College

Eu não sei a resposta para a pergunta específica sobre como a fome é sentida [pelos animais], mas você deve considerar a diferença entre animais de sangue frio e sangue quente (endotérmicos e ectotérmicos). Muita da energia que conseguimos da comida é usada para manter o nosso metabolismo e produzir calor. Pequenos endotérmicos como pequenos pássaros precisam comer muito frequentemente. Animais como cobras, que podem passar longos períodos sem comer, são ectotérmicos, então não precisam comer com tanta frequência.

Deniz Atasoy

Professor assistente, Istanbul Medipol University

Essas são ótimas perguntas cujas respostas eu adoraria saber também. Eu não tenho certeza sobre a inanição prolongada e como ela é sentida pelos animais, mas, em anos recentes, nós ganhamos algumas informações sobre a neurobiologia do apetite. Especificamente, cientistas identificaram os neurônios chave que fazem os animais procurarem e consumirem comida. A ativação artificial desses neurônios em ratos saciados é o suficiente para eles começarem a comer vorazmente. Algumas pesquisas interessantes investigaram os aspectos psicológicos disso, usando abordagens de alta tecnologia. De acordo com elas, a fome é um sinal de ensino de valência negativa, e os animais tentam evitá-la se possível ao consumir comida, e esse estado pode ser retraçado simplesmente ativando uma pequena população de neurônios no hipotálamo, chamados de neurônios-AgRP. Por outro lado, se você tiver comida por perto quando esses neurônios são ativados, você tem uma situação completamente diferente. Agora a fome e o subsequente consumo de comida se tornam recompensadores, e os animais preferem esse estado.