Brasileiros que gostam de ler livros ganharam um presentão de Natal antecipado. Semana passada Amazon, Livraria Cultura e Google começaram a vender ebooks por aqui, as duas primeiras inclusive com e-readers próprios — Kindle e Kobo Touch por R$ 299 e R$ 399, respectivamente. Elas se somam à iBookstore da Apple, que começou a operar por aqui no final de outubro.

Com tanta oferta, é natural que a disputa se traduza em benefícios para o “e-leitor”. E não só em preços: com todo esse papo de ecossistema, ubiquidade e nuvem, os benefícios de se comprar em uma loja ou outra variam bastante. Dependendo de quais gadgets você tem, às vezes uma diferença de centavos ou poucos Reais não justifica a aquisição de um ebook em outra loja/plataforma.

Qual compensa? A gente tenta responder essa e outras perguntas nesse comparativo. Ele vai além dos preços: nós compramos livros em todas as lojas, experimentamos eles em várias plataformas, vimos o que é legal e o que é imoral, enfim, passamos um pente fino nas quatro já citadas. E de quebra, colocamos o livro físico (aquele de papel, lembra?) no rol também.

Cadastro e meios de pagamento

Google Play e iBookstore (Apple) largam na frente aqui — se você já comprou apps em um smartphone ou tablet Android ou iOS, o seu cadastro está pronto. Em ambos os casos, a brincadeira só começa com um cartão de crédito. As seguintes bandeiras são aceitas:

  • Google Play: Visa, Visa Electron, MasterCard, Amex e Discover;
  • iBookstore: Visa, MasterCard e Amex.

A Amazon também só trabalha com cartão, mas esconde o jogo e não informa, de maneira clara, quais bandeiras são aceitas. Entramos em contato com a assessoria da loja no Brasil e tivemos uma resposta: apenas Visa, MasterCard e Elo.

A Livraria Cultura, apesar do cadastro horrível — cheio de botões pré-selecionados para o recebimento de emails e com restrições na criação da senha –, é a mais democrática das quatro: aceita um punhado de bandeiras (Visa, MasterCard, Amex, Diners Club, Hipercard, Aura, Itaú e Paggo), débito direto da conta (Itaú, Banco do Brasil, Unibanco?!?!? e Bradesco), o bom e velho boleto bancário e pagamento digital, via PagSeguro. Em todos os casos, o arquivo só é disponibilizado após a confirmação do pagamento. O mais bizarro é que, mesmo pagando com cartão, o site informa um “prazo para entrega” do ebook de ~20 minutos. Na prática, porém, eles aparecem de imediato nos apps da loja que você já tiver instalado.

Qual a loja mais barata? E qual tem o maior acervo?

Para confrontarmos valores, pegamos o ranking dos livros mais vendidos da Publishnews, na semana de 26 de novembro a 2 de dezembro. Três títulos de cada uma das cinco categorias (ficção, não-ficção, infanto-juvenil, autoajuda e negócios), excluindo do Top 3 continuações — no ranking de ficção, por exemplo, as três primeiras posições são da coleção “Cinquenta tons…”, de E. L. James; nesse caso, pegamos o primeiro, quarto e quinto lugares do ranking. Situação idêntica só se repetiu na categoria infanto-juvenil, com dois livros da série “Diário de um banana”, de Jeff Kinney, no topo.

Há asteriscos na tabela indicando, mas vale um reforço aqui. De todas as lojas, a iBookstore é a única que vende em dólar e tem a incidência de IOF (6,38%). Usamos como base a cotação do dia 10 de dezembro, que foi de R$ 2,19. Outro ponto que merece atenção é o programa +Cultura, da Livraria Cultura. Gratuito, ele permite o acúmulo de pontos para trocar por descontos ou descontos diretos na compra de vários itens, incluindo ebooks. Nossa tabela contempla os dois valores. Por fim, no caso dos livros físicos, que decidimos colocar a título comparativo, pegamos o preço mais baixo de cada um via BuscaPé, excluindo lojas sem reputação no sistema, e calculamos frete e prazo de entrega usando um CEP de São Paulo-SP.

Clique na tabela para ampliá-la:

Tabelão de preços de ebooks e livros físicos.

Os preços em vermelho são os melhores (mais baixos). A grande surpresa? Dos quinze livros consultados, sete são mais baratos no formato físico. Temos que ponderar que quase todos estavam com bons descontos em relação ao preço sugerido pelas editoras, o frete para São Paulo é bem barato e depois da compra você ainda precisa esperar o recebimento (até cinco dias em alguns casos), mas mesmo assim chama a atenção essa descoberta, principalmente com a pressão da ANL para que o governo proteja os livreiros da invasão das lojas de ebooks. Há motivo para tanto chororô?

Outra vantagem do livro que “dá pra pegar” é a disponibilidade: três títulos, “A vantagem de ser invisível”, de Stephen Chbosky; “Quem pensa enriquece”, de Napoleon Hill; e “Qual é a tua obra?”, de Mario Sergio Cortella, não existem em bits, apenas em papel.

Outros dois livros, o da série “Diário de um banana” e “Viajante Chic”, de Gloria Kalil, são exclusividades da Amazon no formato digital. A primeira, inclusive, aparece destacada na página inicial da loja. A briga de preços é acirrada entre Google, Amazon e Cultura (com o +Cultura ativado); em todos os livros que consultamos a Apple cobra entre R$ 3 e R$ 5 a mais que as concorrentes.

A respeito do tamanho dos acervos, sabe-se apenas quantos livros em português Cultura e Amazon oferecem — 12 mil e 13 mil, respectivamente. O Google tem 10 mil. E a Apple, não diz. Todas têm alguns títulos gratuitos, como apurou o Felipe:

“A Amazon oferece mais de 10.000 livros de graça [não só em português], tanto em português como em outros idiomas. O Google Play tem uma seção de livros grátis, porém mais tímida, com cerca de 100 livros. A Livraria Cultura oferece cerca de 20 livros a zero real, e promete mais 1 milhão deles vindos do catálogo da Kobo.”

Experiência

A experiência com todos esses ebooks, apps e lojas não varia muito, como você já deve imaginar — todas permitem a leitura, sincronia e compra de novos ebooks a partir de apps, fora da web. Há diferenças perceptíveis e que ajudam (ou atrapalham) a leitura, porém. Para facilitar, destrinchamos as quatro lojas em subtópicos.

Amazon

A Amazon é a mais ubíqua de todas as lojas/plataformas. Além dos e-readers Kindle, há apps para praticamente todos os dispositivos mais badalados do momento — e até os menos, como BlackBerry e tablets Android. A lista é grande e contempla os principais sistemas desktop (Mac, Windows XP/Vista/7 e Windows 8), smartphones (iPhone, Android, Windows Phone e BlackBerry) e tablets (iPad, Android e Windows 8).

Apps para Kindle.

Na falta de um app, a versão web, chamada Kindle Cloud Reader, é acessível a partir de alguns navegadores modernos (Internet Explorer e Opera, por exemplo, estão de fora) e presta um serviço bem bom — a interface é rápida, elegante e agradável à leitura, a exemplo dos apps.

Kindle Cloud Reader.

A sincronia é feita constantemente graças à tecnologia Whispersync, que mantém a sua vida de leitor digital atualizada nos servidores da Amazon em tempo real e inclui, além da página, marcadores e anotações.

O único possível problema que o leitor terá será no formato dos ebooks. A Amazon usa um tal de AWZ, proprietário e incompatível com outros e-readers e apps. Isso te “prende” ao ecossistema dela, situação que muitos veem com desconfiança. Mas dada a presença maciça em outros dispositivos, se você não tem problemas com teorias conspiratórias é um contra que, na prática, não causará muito prejuízo.

iBookstore

Toda a ação, na Apple, ocorre nos dispositivos iOS, dentro do app do iBooks. Se você tem o costume de ler na telona do notebook ou desktop, nem perca seu tempo aqui — não há suporte no OS X aos ebooks da iBookstore. Para ler ebooks da Apple, você precisa de um iPad, iPhone ou iPod touch.

Um toque bacana aqui é a opção de mudar a visualização para rolagem, em vez de passar páginas. De resto, ele compartilha de características comuns nesse tipo de software. Anotações, marcadores e definições de termos selecionados na própria página e sincronia de página e desses outros dados. Ebooks em ePub e PDF também podem ser lidos através do iBooks.

Google Play

Sabe comprar ou baixar apps do Google para o seu Android? Então você não terá problemas com os ebooks. O sistema, até o local é o mesmo — o Google Play. A abrangência de atuação do Google faz com que os livros estejam disponíveis em vários locais, o que é sempre bom e (mais) uma vantagem em relação à Apple.

Play Livros em smartphone Android.

A compra é tranquila, exatamente como a de um app. Para ler os livros, há duas opções. Em tablets e smartphones Android, iPhone e iPad, com o app Play Livros (aqui a versão para iOS). Ele é bem direto, tem um carrossel com seus livros na apresentação e vários controles para a fonte, tudo bonitinho e sincronizado em tempo real.

No navegador a experiência é bastante similar, com apresentação em duas colunas e diversos parâmetros para ajustar o texto — menos esquema de cores; é preto no branco, e só.

Livro aberto no Google Books (navegador).

Os ebooks do Google são compatíveis também com vários e-readers. Modelos da Sony, Kobo, Barnes & Noble e Aluratek estão no rol de dispositivos compatíveis. A lista completa, com todos os modelos, você encontra aqui.

Livraria Cultura

A Cultura pegou não só o e-reader, mas também os apps da Kobo, inseriu a sua marca em alguns pontos, traduziu a interface e apresentou essa solução ao mercado brasileiro. Ao Kobo Touch, o e-reader, não tivemos acesso, mas testamos apps, incluindo o letárgico para Windows. Ele é esquisito em vários sentidos, enorme (84 MB o instalador!) e… não tem espaçamento entrelinhas. Parece um detalhe bobo, mas essa configuração dá uma diferença absurda na hora de ler qualquer coisa — e ler é basicamente a única coisa possível de se fazer em um app do tipo.

Você conseguiria passar da primeira página de um livro que se apresentasse assim?

Kobo Desktop: espaçamento entrelinhas inexistente.

O app para iPad é mais azeitado. O layout de leitura é melhor resolvido, há várias opções para ajustar fonte, tamanho da letra e outros detalhes visuais, e grande ênfase em aspectos sociais, o que a Kobo chama de Reading Life. Puxando a parte de baixo da tela aparece o Kobo Pulse, que consiste em estatísticas do livro, quantas pessoas estão lendo ele naquele momento e até um mini-fórum de discussão. O serviço também se conecta a Facebook e Twitter, tem badges a la Foursquare e, talvez o único recurso realmente importante desses todos, sincroniza a página onde você parou em outro dispositivo e outras interações (marcadores, anotações).

A Kobo/Cultura vende livros no formato ePub, compatível com outros e-readers. Nos apps oficiais, basta se autenticar com os dados da Cultura e tudo funciona. Há casos, porém, onde é preciso apelar para o Adobe Digital Editions. Quando? Para importar ebooks de outras lojas (e vice-versa) e ler PDFs protegidos no Kobo (e-reader). Já tinha lido muitas reclamações sobre o sistema, mas não achei tão complexo assim. Basta baixar o app e fazer o cadastro na Adobe e, depois, habilitar o ADE nos apps da Kobo, de forma muito parecida com o que se faz para habilitar Twitter e Facebook neles.

Veredito

Para quem não tinha opção de ebooks até pouco tempo atrás, hoje estamos bem servidos. Os acervos ainda estão longe do ideal, mesmo títulos famosos ainda não têm versão digitalizada, mas é um começo. Apesar de a experiência neles não divergir muito, algumas características se sobressaem.

A Amazon se destaca pela onipresença (há apps para muitas plataformas), preços e exclusividades, mas tropeça no DRM. A Cultura ganha pontos pelas formas de pagamento mais flexíveis, apesar das estranhezas — além das já citadas no texto, há outras, como este ebook “esgotado” flagrado pelo Alexandre Matias. O Google corre pela tangente e oferece apps bem bonitos. A Apple? É a mais careira e mais restritiva quanto aos locais de consumo dos ebooks.

Faça as contas, não descarte o livro físico (em vários casos sai mais em conta e depois você ainda pode trocar/doar) e boa leitura nesse fim de ano.

[Colaborou Giovanni Santa Rosa. Foto: Dmitry Lobanov/Shutterstock.]