Inimigas há mais de 70 anos, as Coreias do Norte e do Sul voltaram a se provocar no último fim de semana. Os dois países efetuaram uma série de lançamentos de mísseis balísticos, elevando – ainda mais – a tensão na região.

No último domingo (5), a Coreia do Norte lançou oito mísseis de curto alcance em direção ao mar que banha a sua costa leste. O teste — o 18º só em 2022 — aconteceu um dia depois que a Coreia do Sul e os Estados Unidos encerraram exercícios militares navais conjuntos no Mar das Filipinas.

Em resposta ao teste do vizinho do Norte, a Coreia do Sul também disparou um míssil dos EUA e outros sete mísseis sul-coreanos em direção ao mar. Segundo destacou o Washington Post, o objetivo foi demonstrar que o país do sul pode “responder rapidamente a eventos de crise”.

Apesar das tentativas de uma aproximação entre as duas Coreias nos últimos anos, o presidente sul-coreano recém-empossado, Yoon Suk-yeol, prometeu adotar em seu governo uma abordagem mais firme com a Coreia do Norte. Tal postura do novo presidente, assim como as provocações norte-coreanas, podem ameaçar não apenas o armistício na região, mas também o nordeste da Ásia e o resto do mundo.

Os mísseis da Coreia do Norte

Após assumir o poder, em 2011, o presidente Kim Jong-un tratou de acelerar o programa de desenvolvimento de mísseis balísticos da Coreia do Norte. Esse tipo de arma pode alcançar longas distâncias, mas não podem mudar de direção após o combustível ser consumido, caindo em direção ao alvo em uma trajetória parabólica.

De acordo com o Missile Threat, o país conta com pelo menos 15 modelos de mísseis balísticos operacionais, além de seis em desenvolvimento.

Entre os mísseis operacionais, está o Hwasong-6, produzido a partir do russo “Scud C”. A arma tem 10,94 metros de comprimento, usa combustível líquido em um único estágio e pode transportar uma ogiva de até 770 kg. Ele é usado desde 1992 e tem capacidade de alcançar até 500 km, o suficiente para atingir qualquer cidade da Coreia do Sul.

De acordo com relatórios, a Coreia do Norte pode ter exportado até 400 mísseis Hwasong-6 para o Egito, Irã, Iraque, Líbia, Síria, Vietnã e Iêmen.
De acordo com relatórios, a Coreia do Norte pode ter exportado até 400 mísseis Hwasong-6 para o Egito, Irã, Iraque, Líbia, Síria, Vietnã e Iêmen.

No caso do teste realizado neste último fim de semana, os mísseis sul-coreanos voaram entre 110 km e 600 km, alcançando altitudes entre 25 km a 90 km. O governo do Japão também informou que a Coreia do Norte havia lançado um míssil balístico suspeito, conforme apontou a Al Jazeera.

Entretanto, os norte-coreanos também têm feito avanços em mísseis balísticos intercontinentais, que podem transportar armas nucleares e atingir alvos em todo o território dos Estados Unidos. É o caso do Hwasong-14 e o Hwasong-15, que estão atualmente operacionais. Esses mísseis têm cerca de 20 metros de comprimento, tem dois estágios e podem alcançar alvos entre 10.400 km e até 13.000 km de distância.

A Coreia do Norte desenvolveu parte dessa tecnologia intercontinental tendo como base o seu programa Unha-3, um foguete militar desenvolvido para colocar satélites em órbita.

Recentemente, a Coreia do Norte transmitiu imagens de um grande desfile militar, em celebração ao 90º aniversário da fundação do exército do país, incluindo a apresentação de mísseis balísticos. Veja o vídeo abaixo.

Vale lembrar que, desde 2006, a Coreia do Norte conduziu seis testes nucleares, tendo atualmente um arsenal de 40 a 50 ogivas nucleares. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os norte-coreanos também retomaram a produção de plutônio em seu reator nuclear em Yongbyon, no início de julho do ano passado. Estima-se que Yongbyon pode produzir plutônio suficiente em doze meses para uma ou duas ogivas nucleares.

O objetivo de Kim Jong-un é utilizar essa capacidade militar, incluindo armas de destruição em massa, para manter alvos e centros populacionais em risco para deter potenciais ameaças externas ao regime do país.

Os mísseis da Coreia do Sul

Apesar de não possuir capacidade nuclear, a Coreia do Sul tem apoio militar dos Estados Unidos em um eventual conflito com os norte-coreanos. Inclusive, existem cerca de 80 bases militares americanas em solo coreano.

Atualmente, a política da Coreia do Sul é desenvolver armas que contam com tecnologia guiada e de precisão. O país também conta com sistemas de vigilância e inteligência, para que seja possível detectar, antecipar e retaliar um ataque norte-coreano convencional ou nuclear.

Para isso, a Coreia do Sul tem 9 modelos de mísseis operacionais, com alcances entre 180 km e 1.500 km, podendo assim atingir alvos em qualquer lugar da Coreia do Norte. O maior deles é o Hyunmoo-3, que tem 6,2 metros de comprimento e pode transportar uma carga útil de até 500 kg, dependendo da versão.

O Hyunmoo-3 foi testado pela primeira vez em 2006, e incorpora sistema de navegação inercial, GPS e tecnologia de correspondência de terreno.
O Hyunmoo-3 foi testado pela primeira vez em 2006, e incorpora sistema de navegação inercial, GPS e tecnologia de correspondência de terreno.

Além da ameaça do Norte, os sul-coreanos também cria armas pensando em um potencial conflito com a China – que apoiam a Coreia do Norte –, mesmo que o relacionamento com os chineses esteja em ascensão nos últimos anos. É por isso que a Coreia do Sul também vem desenvolvendo o míssil balístico Hyunmoo 3D/4, que pode alcançar até 3.000 km, podendo assim atingir boa parte do leste do território chinês, incluindo a capital Pequim.

Para aumentar ainda mais a tensão na região, os Estados Unidos e a Coreia do Sul selaram recentemente um acordo para que os dois países compartilhem tecnologia de pequenos reatores nucleares modulares. Isso permitiria que a capital Seul desenvolvesse submarinos movidos a energia nuclear.

É válido destacar que, em dezembro passado, Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un, chegou a afirmar que seu país estaria aberto para negociações de paz, desde que os EUA deixassem de realizar exercícios militares próximos à península coreana, assim como a suspensão das sanções americanas. Por outro lado, conforme apontou a BBC, os Estados Unidos afirmam que a Coreia do Norte deve, primeiro, desistir de suas armas nucleares.