Mais e mais pesquisas estão começando a confirmar uma suspeita preocupante que os cientistas tiveram sobre o COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus: pessoas sem sintomas podem não apenas espalhar a infecção, como também estão alimentando sua propagação pandêmica em todo o mundo.

Em fevereiro, o consenso entre os especialistas em saúde pública era de que o maior perigo de contrair o COVID-19 vinha de estar perto de pessoas cujos sintomas já haviam se manifestado. O período em que uma pessoa está infectada, mas ainda não se sente doente, chamado período de incubação, parece ser normalmente de cinco dias a duas semanas, e não ficou claro se as pessoas podem espalhar a infecção durante esse intervalo. Houve relatos de transmissão assintomática na China, onde o surto começou, mas também alguma confusão. No início de fevereiro, um relatório sobre os primeiros casos espalhados localmente na Alemanha teve que ser corrigido após descobrirem que o paciente que desencadeou o surto não era assintomático.

Desde então, as evidências continuam se acumulando de que as pessoas assintomáticas estão espalhando regularmente o COVID-19, seja como portadoras que apresentam sintomas muito leves ou nenhum, ou antes de realmente ficarem doentes, também conhecidas como pré-sintomáticas.

Alguns pesquisadores descobriram que as pessoas são mais contagiosas antes e durante a primeira semana em que os sintomas começam, o que significa que elas liberam partículas virais infecciosas do nariz e da boca. Acredita-se que um conjunto de 82 casos relatados em Massachusetts na empresa de biotecnologia Biogen, informou a CNN neste fim de semana, tenha sido desencadeado por três funcionários que não apresentaram nenhum sintoma no momento em que espalharam a infecção. Pesquisadores que tentam modelar o caminho do surto em outros países também encontraram evidências substanciais de transmissão assintomática.

Um estudo preliminar publicado no MedRxiv no domingo estimou que cerca de 48% dos casos transmitidos em Cingapura e 62% dos casos em Tianjin, na China, foram disseminados por pessoas pré-sintomáticas. Embora este estudo não tenha sido revisado por pares, ele ecoa as conclusões de um novo estudo publicado na Science nesta segunda-feira (16), que constatou que 86% de todas as infecções na China antes de 23 de janeiro (quando foram impostas restrições de viagens) não foram documentadas.

“Essas infecções não documentadas”, escreveram os autores, “geralmente apresentam sintomas leves, limitados ou inexistentes e, portanto, não são reconhecidas e, dependendo de sua contagiosidade e número, podem expor uma parcela muito maior da população ao vírus do que ocorreria de outra maneira”.

As implicações desta pesquisa são, para ser franco, profundamente preocupantes. As pessoas com sintomas leves a inexistentes provavelmente são menos contagiosas do que aquelas que estão em estado grave devido à doença, mas como há muito mais casos desconhecidos dessas infecções, são essas pessoas que continuam interagindo com outras e levando o surto adiante. Pelas estimativas dos pesquisadores, as infecções não documentadas na China eram quase 50%  tão contagiosas quanto as pessoas com COVID-19 documentadas, mas ainda representavam 79% das infecções documentadas.

Se a proporção estimada pela equipe de casos documentados para não documentados for praticamente precisa em todos os lugares, já houve um milhão de casos de COVID-19 em todo o mundo, com base nos quase 180.000 casos relatados em 16 de março.

Muitos desses casos já podem ter se recuperado, e países como Coreia do Sul e China parecem ter reprimido seus surtos por enquanto. No entanto, a pandemia como um todo só está piorando. A maioria dos países afetados, incluindo os EUA, mal começou a implementar o tipo de medidas drásticas, mas essenciais, necessárias para desacelerar a transmissão em suas comunidades, enquanto os bares e restaurantes de muitas cidades continuaram realizando grandes reuniões no último final de semana.

Os resultados reforçam, mais do que nunca, a importância do distanciamento social. No domingo, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) recomendaram ao público que ninguém deveria comparecer a reuniões com 50 ou mais pessoas pelo menos nas próximas oito semanas, e hoje a Casa Branca recomenda que as pessoas evitem reuniões de mais de 10 pessoas. Mas a página de informações do CDC sobre COVID-19 ainda diz às pessoas que a transmissão assintomática “não é o principal meio de propagação do vírus” – uma declaração que certamente precisará ser corrigida em breve.