O novo coronavírus, até o momento, tem poucas vítimas fatais em território brasileiro, enquanto no mundo já soma mais de 5.000 óbitos. Se não tem havido tantas mortes no Brasil, qual é o motivo de tanto alarde pelo tema?

Em 2019, a dengue matou mais de 700 pessoas no Brasil, e neste ano já temos notícias de milhares de prováveis casos em diferentes regiões do País. Já a gripe, algo que sempre acomete milhões de pessoas anualmente, teve mais de 300 mortes no ano passado. Neste cenário a pergunta que fica é: por que, mesmo com tantos problemas, só se fala em coronavírus?

Para responder a estes questionamentos, consultei três especialistas da área médica para explicar o motivo de alarme das autoridades e por que temos atualizações constantes sobre o assunto.

Novo coronavírus: 100% da população não têm anticorpos

Se fôssemos resumir, o principal motivo é o fator novidade. “É um vírus novo. Então 100% da população não têm anticorpos contra ele, além de não ter uma vacina”, disse Rivaldo Venâncio, coordenador de vigilância em saúde e laboratórios de referência da Fiocruz, em conversa com o Gizmodo Brasil.

Por isso, segundo o João Prats, infectologista do BP (hospital Beneficência Portuguesa), de São Paulo, mesmo com poucas vítimas fatais no Brasil, “o momento que uma epidemia começa a se desenvolver é o melhor para se tomar medidas para evitar que o vírus se espalhe”.

Sobre as outras condições, a questão é que o novo coronavírus representa um elemento pouco conhecido para as autoridades de saúde. “A realidade sanitária de saúde coletiva do País é agravada com esta nova condição. Não está havendo uma substituição de parar de tratar outras condições em detrimento desta. O novo coronavírus pode representar uma sobrecarga ao sistema de saúde que já está saturado”, afirmou Venâncio, da Fiocruz.

Sintomas de gripe, mas a situação pode ficar grave

Como você já deve ter ouvido, o COVID-19 tem sintomas muito parecidos com o da gripe, como tosse, coriza, dor no corpo, febre, espirros, garganta inflamada e, em casos graves, falta de ar.

Na maioria das vezes, os cuidados comuns com gripe devem ajudar a sanar os sintomas e a fazer com que o próprio sistema imunológico do paciente crie defesas. Então, se sentiu febre, tomar um anti-térmico; se a garganta estiver ruim, um anti-inflamatório deve ajudar a reduzir o incômodo. Além de repouso, quando houver indisposição e manter certo isolamento. Agora, se houver falta de ar, a recomendação é procurar um médico.

É justamente esta a preocupação dos infectologistas: casos mais graves de infecção por COVID-19 envolvem procedimentos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

“Nestas situações, são administrados cuidados de UTI, como receber algum tipo de suporte ventilatório, como a ventilação mecânica ou mesmo infecções secundárias bacterianas, que podem evoluir para insuficiência renal e cardíaca. Estes são os pacientes que devem falecer”, disse Luiz Fernando Aranha, que é infectologista do hospital Israelita Albert Einstein.

Gráfico da Universidade de Michigan mostrando gráfico de infecção do novo coronavírus

Gráfico da Universidade de Michigan mostrando evolução de infecção por vírus. Medidas impostas, como evitar aglomerações públicas, têm como objetivo reduzir a curva de disseminação do novo coronavírus. Crédito: University of Michigan

De forma resumida, quanto mais pessoas estiverem com o coronavírus, há mais chances de existirem casos graves, ainda que sejam a minoria — na China, por exemplo, a mortalidade estava em 3%. No entanto, esta quantidade pequena pode demandar muito do sistema de saúde. Sem contar que com o fim do verão e a chegada de estações mais frias, já existe um certo preparo para casos agudos de gripe, e, obviamente, ninguém esperava que surgiria um novo vírus sem cura. De onde sairão leitos de UTI para atender todas estas pessoas de uma vez?

De acordo com o G1, no Estado de São Paulo, que concentra o maior número de casos confirmados de infecção para o novo coronavírus, as autoridades estimam que terão 460 mil casos da doença para os próximos meses — 80% serão de doença assintomática, enquanto 20% precisarão recorrer ao sistema de saúde. Desses, uma pequena porcentagem precisará de internação e uma menor ainda precisará de UTI.

Ao todo, estima-se que há no estado 100 mil leitos, somando hospitais privados, públicos e de beneverência; desses 7.200 de UTI. Mesmo assim, o governo do Estado promete criar mais 1.000 leitos de UTI, sendo 600 na região metropolitana e outros 400 espalhados pelo interior.

Quem deve se preocupar

Segundo os especialistas, crianças, adolescentes e adultos devem ser assintomáticos (portadores do vírus, mas sem sintomas) na maioria das vezes — para eles, o cuidado básico convencional para tratamento de uma gripe, quando houver algum tipo de manifestação de sintomas, deve ser o suficiente.

A preocupação maior é com idosos e pessoas com doenças crônicas pré-existentes, que podem ser mais vulneráveis à condição. Alguns exemplos de enfermidades que podem tornar o novo coronavírus mais potente: diabetes, doença pulmonar, cardiovascular ou renal.

Então, mesmo que você, em tese, não esteja em perigo, é importante que você tome cuidado, sobretudo no contato com pessoas que fazem parte do grupo de risco. Aí valem os cuidados que você já deve ter ouvido por aí: se tiver contato com pessoas infectadas, mantenha a higiene e evite aglomerações, mesmo que não tenha sintomas — há casos de pacientes assintomáticos ou que os sintomas não se manifestam de imediato, pode demorar até 5 dias. Em nosso guia, explicamos como se dá a infecção e de formas como se proteger.

O novo coronavírus deve infectar cada vez mais pessoas, mas cabe a nós frear isso para que as pessoas em estado grave possam ter o tratamento necessário para combater o COVID-19.

Atualização em 19 de março às 10h30 para informar que já houve morte causada pelo novo coronavírus no Brasil.