Já é sabido que o vírus transmissor do novo coronavírus pode se espalhar pelo contato direto com pessoas infectadas e superfícies. Alguns estudos ainda sugerem que embalagens, mesmo as congeladas, ainda podem servir como canal para uma transmissão. E o próprio ar que respiramos pode estar contaminado. Agora, uma outra pesquisa traz a informação preocupante de que a poluição do ar nos torna mais vulneráveis ao COVID-19.

O relatório foi publicado na Science Advances e foi conduzido por pesquisadores de Harvard, que analisaram dados de emissões atmosféricas de mais de 3.000 condados nos EUA que abrigam 98% da população do país. A análise se concentrou especificamente em pedaços de partículas conhecidas como PM2.5.

Os pesquisadores compararam esse material com dados sobre as taxas de morbidade de COVID-19 dos mesmos condados. Essa correlação permaneceu mesmo depois que os cientistas ajustaram seus resultados para 20 outros fatores de todo o condado, incluindo idade média, raça, hábitos de fumar relatados e graus de medidas de distanciamento social tomadas na região.

As descobertas indicam que a exposição a longo prazo a cada micrograma adicional de PM2.5 por 1 metro cúbico de ar aumenta a taxa de mortalidade de COVID-19 em 11%.

Em um editorial publicado ao lado do estudo, outros pesquisadores observaram que isso não é totalmente surpreendente, uma vez que mesmo a exposição de curto prazo ao PM2.5 foi associada ao aumento do risco de infecções respiratórias agudas inferiores e hospitalizações por gripe. Ainda assim, 1 micrograma é uma pequena quantidade de poluição do ar, o que só eleva a gravidade de contaminação pelo vírus – principalmente porque é praticamente impossível uma pessoa estar totalmente livre de um ar poluído.

Além da exposição à poluição do ar, os dados indicaram outros fatores de risco associados a um aumento na taxa de mortalidade por COVID-19 de uma área, incluindo uma renda familiar média mais baixa e uma porcentagem mais alta de residentes negros.

No entanto, o editorial disse que as últimas descobertas não podem determinar quem exatamente corre maior risco de morrer nas mãos do vírus, porque eles só tinham dados sobre fatores externos como idade e hábitos de fumar em nível de área, não em nível individual.

“A maneira ideal de responder às questões sobre como a poluição por PM2.5 pode influenciar o curso da pandemia envolveria o estudo de conjuntos de dados de saúde detalhados para um grande número de pessoas de todas as esferas da vida e locais”, escreveram os autores editoriais que não estavam envolvidos no estudo. No entanto, eles observam que a novidade da doença torna esses dados impossíveis de serem obtidos.

O relatório é o mais recente em uma série de pesquisas que demonstram a ligação entre o ar poluído e a suscetibilidade ao novo coronavírus. Outro estudo publicado no final de outubro na Cardiovascular Research descobriu que a exposição de longo prazo à poluição do ar contribuiu com 15% para a mortalidade global por COVID-19.

Embora o estudo seja limitado pelas restrições da pandemia, essas descobertas ainda podem ajudar a informar as decisões políticas sobre COVID-19. É mais uma evidência de que precisamos de mais recursos para ajudar as regiões poluídas e empobrecidas a lidar com os impactos da pandemia. E, claro, também é mais uma evidência de que precisamos controlar a poluição do ar.