No início de março, Isabelle Rosa, de 27 anos, residente na Califórnia, começou a sentir sintomas que se parecia com uma gripe típica. Mas como a febre e a tosse seca se prolongaram, e como a crescente ameaça do novo coronavírus nos EUA se tornou impossível de ignorar, Rosa suspeitou que poderia estar com COVID-19.

Como muitas pessoas nos Estados Unidos, Rosa foi instruída por um médico para ficar em casa após uma consulta remota, pela internet. Ela não fez o teste e só deveria procurar fazê-lo se os sintomas ficassem graves.



Embora os sintomas não tenham piorado, eles se tornaram estranhos. Cerca de três dias depois de adoecer, Rosa percebeu que não conseguia mais sentir o cheiro ou o gosto das coisas.

“Descobri porque bebi leite estragado. Não fazia ideia que não poderia sentir o gosto. E depois com o cheiro, não conseguia sentir nenhum cheiro das coisas. Eu comi um limão e não tive reação alguma. Já cheirei cerca de 50 coisas diferentes e provavelmente tentei provar cerca de 30. Não senti nada”, disse Rosa ao Gizmodo.

Uma semana depois, desde 22 de março, seus sentidos de olfato e paladar continuam prejudicados.

Rosa não é a única pessoa suspeita ou confirmação de COVID-19 a ter perda do olfato e paladar como um de seus sintomas. Conforme a epidemia se espalhou pelo mundo, começaram a surgir notícias locais de pessoas com essas condições.

Mas o que exatamente nessa doença recém-descoberta pode estar causando isso? E poderiam esses sintomas distintos ter maiores implicações na forma como rastreamos a doença?

Existem algumas formas de perder o olfato e/ou paladar, condições conhecidas respectivamente como anosmia e ageusia (o nosso olfato afeta diretamente o nosso paladar e as duas condições são muitas vezes co-diagnosticadas).

Você pode nascer com uma doença congênita. Ou ter uma condição neurológica ou uma lesão traumática que rompe a capacidade do cérebro de processar informações do nervo craniano localizado entre o nariz e o cérebro, conhecido como bulbo olfatório.

Ou você pode pegar uma infecção viral. Quando isso acontece, muitas vezes está ligado a doenças respiratórias como o COVID-19. Mas, ao contrário do que você pode imaginar, a anosmia não é provavelmente causada por congestionamento nasal, nem é geralmente um sinal de dano cerebral grave, segundo o neurologista clínico canadense Paul Masiowski.

“O entendimento é que os vírus respiratórios podem causar danos aos receptores sensoriais de olfato, que são necessários para um sentido de olfato normal. Pode haver também algum inchaço do nervo olfativo, que pode levar a hematomas ou lesões completas”, disse Masiowski, que não é especialista otorrinolaringologia, mas já tratou pacientes com anosmia, ao Gizmodo.

“Normalmente não é algo doloroso. E as pessoas não têm necessariamente uma congestão nasal especialmente ruim no momento em que a função nervosa é danificada. É comum ter um olfato diminuído temporariamente quando o nariz está entupido, como com um resfriado. Mas isso tende a se resolver quando a congestão se resolve”, explica ele.

Há relatos dispersos de anosmia relacionada com o COVID-19 na Alemanha, Irã e EUA, mas pessoas como Rosa têm ido, principalmente, às redes sociais e fóruns como o Reddit para compartilhar suas frustrações.

Só nos últimos dias é que especialistas em saúde pública começaram a analisar essa conexão. Na segunda-feira (23), autoridades da Organização Mundial da Saúde disseram que estavam começando a estudar essa relação, enquanto advertiam que qualquer evidência era preliminar.

Há muitas incógnitas sobre a relação entre o COVID-19 e a anosmia. Uma questão chave é se as pessoas com a infecção são mais propensas a desenvolver a anosmia do que aquelas que sofrem de gripe ou resfriados típicos. Outra é se essa complicação é mais grave ou permanente em pacientes com COVID-19 do que em pessoas que têm outras infecções virais.

“Com essa forma de anosmia, as pessoas podem ter uma diminuição significativa no seu sentido de olfato – ou até mesmo perdê-lo completamente – e isso pode continuar por bastante tempo depois da congestão nasal ter desaparecido. Algumas pessoas com anosmia podem melhorar com o tempo, mas o medo é que uma parte significativa do dano possa ser permanente”, disse Masiowski.

Masiowski não tem tanta certeza de que o COVID-19 está causando mais anosmia do que um vírus da gripe poderia causar – em vez disso, pode ser o pico em casos e foco mundial na doença que está levando as pessoas a notar e falar sobre seus sintomas. Mas ele acha que pode muito bem servir como um farol para a doença.

Em seu tempo livre, Masiowski tem registrado as tendências de busca do Google para termos como “perda do olfato” na língua nativa dos países afetados pela COVID-19. Até agora, ele encontrou um padrão consistente em que as pessoas nesses países passam a procurar em massa por termos relacionados à anosmia, às vezes antes de ser óbvio que há um surto é generalizado na região.

A melhor maneira de rastrear o caminho do COVID-19 pelo mundo seria por meio de testes extensivos (de preferência com testes de sangue que podem encontrar anticorpos contra o coronavírus, independentemente de alguém estar doente naquele momento) e pela análise genética da história evolutiva do vírus. Mas Masiowski acredita que esse tipo de método poderia ser usado no meio tempo para rastrear aproximadamente onde e quando o vírus atingiu cada região.

Embora Masiowski não tenha planos imediatos para seguir em frente com sua teoria, os pesquisadores já utilizam as redes sociais como forma de detectar e prever a trajetória das temporadas de gripe. A anosmia também poderia ser outro sinal de alerta do COVID-19, que os médicos deveriam checar ativamente, conforme uma sugestão feita recentemente pela Academia Americana de Otorrinolaringologia.

A falta de atenção inicial dada a este sintoma pelos especialistas em saúde pública parece refletir a pouca atenção que as pessoas que desenvolvem anosmia recebem em geral. Embora certamente não seja tão perigoso como uma pneumonia grave, pode ser uma experiência assustadora e que muda a vida de alguém.

“É muito perturbador. Honestamente, acho que nunca dei o valor que os meus sentidos mereciam – é algo emocional. Eu gosto muito de cozinhar, é algo que me faz bem, e agora não consigo sentir o gosto de nada do que cozinho”, disse Rosa. “Eu me sinto um pouco deprimida, e acho que muitas pessoas não considerariam isso como algo que pode causar sofrimento.”

A experiência de Masiowski no tratamento de anosmia fez com que ele fosse mais empático com pessoas como Rosa. Embora as pessoas com a condição possam recuperar parte ou toda a sua capacidade do olfato, mesmo que leve anos, muitas vezes há pouco que ele possa fazer pelos pacientes que o visitam, tendo sido fechada a janela de oportunidade para tratar uma causa potencial (tal como uma infecção viral). Ele espera que estas histórias possam estimular pessoas jovens ou saudáveis a fazer o máximo que puderem para evitar ficar doentes em primeiro lugar.

“Se você está na casa dos 20 ou 30 anos e perde o olfato para o COVID-19, com 50 ou 60 anos pela frente, tudo vai ser pior – cada refeição que você terá pelo resto da sua vida será pior – isso é um sério impacto na qualidade de vida das pessoas. Mas essa é uma doença que tem sido colocada como inofensiva para os jovens”, disse ele. “Por isso, a minha esperança seria educar as pessoas sobre esse risco potencial para eles.”