A gigante do e-commerce Amazon tem sido relatada como um lugar desagradável para se ter um trabalho. Um artigo atrás do outro têm retransmitido alegações de uma cultura de local de trabalho ultracompetitiva, com funcionários sendo tratados como robôs sem alma, com requisitos de desempenho desumanos e longas horas de trabalho monótono. Isso inclui horas extras sazonais obrigatórias que alguns trabalhadores disseram que às vezes resultam em lesões.

Agora, temos um panorama perturbador do que essas condições de trabalho significaram para alguns membros da força de trabalho do homem mais rico do mundo: de outubro de 2013 a outubro de 2018, autoridades responderam a pelo menos 189 chamadas de emergência para “tentativas de suicídio, pensamentos suicidas e outros episódios de saúde mental” nos armazéns da Amazon, de acordo com uma reportagem do Daily Beast na segunda-feira (11).

Esses foram apenas os que foram descobertos, segundo a matéria, com os 46 armazéns em 17 estados dos EUA onde as ligações foram feitas respondendo por “aproximadamente um quarto dos centros de triagem e atendimento que compõem a rede americana da empresa” (outros locais não tiveram nenhuma dessas ligações listadas ou os registros não estavam disponíveis, escreveu o Daily Beast).

Algumas das ligações envolveram pessoas que ficaram chateadas com questões não relacionadas ao seu trabalho na Amazon, enquanto outras envolveram pessoas não empregadas ou contratadas para trabalhar nas instalações. E, embora a reportagem do Daily Beast tenha apontado que não havia nenhuma evidência de que a equipe da Amazon tivesse mais crises de saúde mental no local de trabalho que exigissem intervenção do que outras empresas, ela constatou que muitos dos incidentes pareciam estar relacionados às condições de trabalho.

Um ex-funcionário de armazém da Amazon em Etna, Ohio, que trabalhava em uma estação de contagem de inventário por US$ 14,50 por hora, Nick Veasley, disse que tinha que processar centenas de itens por hora e descreveu gerentes tão focados em métricas que os trabalhadores tinham medo de falar uns com os outros, para não serem acusados de tirar uma pausa não autorizada. Ele disse ao Daily Beast que ficar de pé o dia todo levou ao agravamento da dor no tornozelo que por fim o levou a ter que fazer uma cirurgia. E, quando ele voltou ao trabalho após um intervalo de dois meses, foi punido por fazer os intervalos necessários para lidar com sua síndrome do intestino irritável e diverticulite:

Ele recebeu dois avisos e foi informado de que outra violação poderia resultar em suspensão ou rescisão (a Amazon chamou sua versão de “altamente improvável”, dizendo que os gerentes trabalham com o RH para ter uma conversa completa sobre “barreiras” que levam os associados a “acumular tempo fora da tarefa”). “Normalmente, eu consigo me livrar de um problema, mas não conseguia fazer isso trabalhando na Amazon”, disse Veasley. “Senti que tinha 500 quilos presos no tornozelo, e isso me puxava para baixo, para baixo e para baixo, e não havia como sair.”

Com o tempo, depois que Veasley disse a um guarda no estabelecimento que queria dirigir seu carro penhasco abaixo, a Amazon chamou a polícia, e ele foi colocado em uma ala psiquiátrica durante três dias.

“Aquele lugar me ferrou tanto que me colocou em depressão, em que eu estive de fato preso por 72 horas em uma ala psiquiátrica”, disse Veasley ao site.

Seis funcionários atuais ou ex-funcionários da Amazon que haviam passado por crises de saúde mental “que exigiram assistência emergencial no armazém” disseram ao Daily Beast que as exigências implacáveis de trabalho na empresa contribuíram para a situação. Um deles disse que os gerentes culpavam os funcionários por não cumprirem as cotas mesmo quando não era possível completá-las, enquanto o ex-empregado de armazém Jace Crouch, que trabalhou em Lakeland, na Flórida, descreveu o ambiente como uma “colônia isoladora infernal onde pessoas tendo colapsos são uma ocorrência regular”.

A reportagem do Daily Beast também destacou que a intervenção do pessoal de emergência não foi o fim das humilhações enfrentadas pelos trabalhadores da Amazon, com vários dizendo ao site que tiveram dificuldades para obter indenização ou receber tratamento:

Dos seis atuais ou ex-trabalhadores da Amazon que falaram com o Daily Beast, cinco foram dispensados do trabalho. Eles disseram que lutaram para obter a indenização prometida, acharam o aconselhamento psicológico insuficiente ou inacessível e, em alguns casos, foram demitidos.

Depois de serem retirados da Amazon por socorristas de emergência — uma situação que alguns acharam humilhante —, os trabalhadores eram frequentemente colocados em licença médica de curta duração ou por incapacidade, o que lhes dá direito a 60% do seu salário e a um retorno ao trabalho após a liberação psiquiátrica… Durante a licença, alguns trabalhadores usaram o programa de assistência ao funcionário da empresa, que inclui três conversas telefônicas com um conselheiro, e também procuraram ajuda psiquiátrica externa. Mesmo com o seguro de saúde fornecido pela Amazon, os custos eram muitas vezes uma pressão financeira.

A Amazon negou as denúncias da reportagem, dizendo ao Daily Beast em um comunicado que o número de ligações feitas em seus armazéns foi uma “generalização” que “não leva em conta o total de de funcionário associados, horas trabalhadas ou nossa rede em crescimento”.

“O bem-estar físico e mental de nossos associados é nossa prioridade máxima, e estamos orgulhosos de nossos esforços e do sucesso geral nessa área”, disse a Amazon ao site. “Fornecemos cuidados médicos abrangentes desde o primeiro dia para que os funcionários tenham acesso aos cuidados quando mais precisarem, serviços de aconselhamento gratuito e confidencial 24 horas por dia e várias opções de licenças e acomodações médicas que abrangem preocupações de saúde mental e física.”

[The Daily Beast]