Vários usuários da rede social de extrema-direita Parler parecem estar entre a horda que conseguiu invadir o prédio do Capitólio dos Estados Unidos e acessou áreas normalmente restritas ao público, de acordo com metadados de GPS vinculados a vídeos postados na plataforma no dia da insurreição em Washington.

Os dados, obtidos por meios legais por uma hacker de computador antes de o Parler ser eliminado da internet na segunda-feira (11), oferecem uma visão panorâmica dos usuários que lotaram os jardins do Capitólio depois de serem incentivados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em uma grave violação que fez legisladores e visitantes do Capitólio se misturarem em meio a tiros e ameaças de morte.

Coordenadas de GPS obtidas de 618 vídeos do Parler analisados ​​pelo Gizmodo já foram solicitadas pelo FBI como parte de uma ampla investigação nacional por suspeitos em potencial. Pelo menos 20 pessoas já estão sob custódia.

O ataque de 6 de janeiro, que durou cerca de duas horas, resultou em cinco mortes, incluindo a de um policial que, segundo as autoridades, foi espancado com um extintor de incêndio e não resistiu aos ferimentos. As janelas foram quebradas, as mesas derrubadas e as paredes do prédio de 220 anos foram pichadas e danificadas — alguns manifestantes ameaçavam o assassinato de jornalistas abrigados nas proximidades.

Gráfico: Dhruv Mehrota/Gizmodo

O Gizmodo mapeou cerca de 70.000 publicações geolocalizadas do Parler e, na terça-feira (12), isolou centenas postadas em 6 de janeiro perto do Capitólio. Os dados mostram usuários do Parler postando durante todo o dia, documentando sua marcha do National Mall até o Capitólio, onde ocorreu a violenta insurreição.

A localização precisa dos usuários dentro do prédio pode ser difícil de ser identificada. As coordenadas não revelam em quais andares eles estão, por exemplo. Além disso, os dados incluem apenas usuários do Parler que postaram vídeos feitos em 6 de janeiro. E as próprias coordenadas têm uma precisão de aproximadamente 11 metros.

O ponto vermelho ao sul do centro da Rotunda do Capitólio no mapa acima está ligado a um vídeo que o Gizmodo verificou. Ele mostra manifestantes usando bonés vermelhos do Maga (“Make America Great Again”, slogan de Trump) gritando obscenidades sobre a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, cujo escritório fica próximo, a oeste. Mas outros pontos próximos podem indicar vídeos capturados em escritórios adjacentes, escadarias ou corredores que levam às salas da Câmara e do Senado. Um segundo vídeo mostra uma multidão na Rotunda cantando: “Câmara de quem? Nossa Câmara?” (enquanto estava do lado oposto à área do Senado no edifício).

Outras coordenadas obtidas do Parler apontam para usuários vagando pelo lado norte do prédio perto da Câmara do Senado, podendo estar próximos aos escritórios da liderança ou à galeria da imprensa, dependendo do andar em que se encontravam.

Momentos antes do cerco, o vice-presidente Mike Pence presidia um debate para certificar a votação, após alegações infundadas de fraude eleitoral endossadas por seus colegas republicanos. Repórteres observavam da galeria. O senador Ted Cruz, que por semanas disseminou falsas alegações de que a eleição havia sido roubada, parecia alheio à violência externa ao se levantar para argumentar contra a certificação dos votos eleitorais do Arizona.

Um mapa criado com dados de GPS do Parler mostra uma enxurrada de manifestantes deixando o National Mall após um discurso do presidente Donald Trump e indo em direção ao edifício do Capitólio dos EUA, onde ocorreu o tumulto. Gráfico: Dhruv Mehrota/Gizmodo

Outros dados de localização de fora do Capitólio seguem a rota precisa que a multidão tomou do National Mall logo após um discurso do presidente Trump, no qual ele pediu para seus apoiadores “lutarem ao máximo”, dizendo que não poderiam “retomar [seu] país com fraqueza”.

O FBI se recusou a fornecer quaisquer detalhes sobre os materiais que está coletando como parte de seu inquérito. Os investigadores, no entanto, buscaram acesso aos dados de GPS do Parler na segunda-feira, segundo uma fonte com conhecimento do assunto.

Os dados do Parler foram obtidos por uma hacker identificada no Twitter como @donk_enby, conforme relatado pelo Gizmodo.

Em uma entrevista na segunda-feira, @donk_enby disse que começou a arquivar postagens do Parler no dia do ataque, documentando o que ela descreveu como evidências “muito incriminatórias” ligadas a uma multidão de usuários da rede social no Capitólio. Quando mais tarde ficou claro que a Amazon pretendia expulsar o aplicativo de seus servidores, ela redobrou seus esforços para salvar todo o conteúdo.

De acordo com @donk_enby, mais de 99% de todas as postagens do Parler, incluindo milhões de vídeos com a localização dos usuários, foram salvas. Ao contrário da maioria de seus concorrentes, o Parler aparentemente não tinha nenhum mecanismo para retirar metadados confidenciais dos vídeos de seus usuários antes de publicá-los online.

As autoridades lançaram investigações em todo o país para localizar os suspeitos que participaram do cerco, incluindo um homem fotografado com um capuz cinza suspeito de colocar dispositivos explosivos do lado de fora dos escritórios dos Comitês Nacionais Republicano e Democrata. Entre as 20 detenções até agora, está um homem do Colorado que supostamente levou armas e centenas de cartuchos de munição com ele para Washington, dizendo que queria matar Pelosi.

Dois policiais do Capitólio foram suspensos na segunda-feira, incluindo um que tirou selfies com manifestantes dentro do prédio do Capitólio e outro que supostamente colocou um boné do Maga enquanto os guiava pelo prédio.