A tendência de investimento na indústria de petróleo e gás diminuiu nos últimos anos, e a pandemia derrubou ainda mais esse setor. Essas companhias tinham esperança que o plástico pudesse ajudar a virar a maré, mas novas pesquisas mostram que essa aposta também será perdida.

Um relatório divulgado na quinta-feira (3) pelo Carbon Tracker, um grupo que analisa a transição econômica para uma economia de baixo carbono, expõe um cenário comercial que deveria impedir a indústria petroquímica e os investidores de colocarem US$ 400 bilhões em obras de expansão. É um complemento prático ao argumento de que “cobrir o planeta com plástico descartável está sufocando a vida na Terra”.

Este argumento é suficiente para mim, um ex-guarda florestal que vê o valor inerente de uma biosfera saudável e está francamente cansado de ler histórias de criaturas marinhas recheadas de plástico até as guelras. Sério, não quero falar disso de novo. Se você é motivado por outras coisas (como, digamos, dinheiro), o relatório também mostra que o futuro do plástico não é nada bom. O relatório observa que o pico de demanda pelo material pode chegar por volta de 2027, mesmo com o aumento da produção da indústria.

Os governos finalmente começaram a levar a sério os danos que o plástico está causando tanto na terra quanto no mar. Nos últimos anos, uma série de proibições de sacolas e descartáveis ​​foi adotada no mundo todo. Mas os esforços chegaram ao ponto máximo depois que a China, que recebia todo tipo de lixo reciclável, parou de importar plásticos em 2017. Por causa disso, o mundo terá lidar com cerca de 111 milhões de toneladas excedentes somente nesta década.

Desde então, as medidas foram lideradas pela União Europeia e pela China. Ambos promulgaram ou estabeleceram uma data para proibições rígidas contra o material. A UE também definiu uma taxa de cerca de US$ 950 por tonelada de resíduos de plástico como parte de seu pacote de recuperação econômica do coronavírus, que deve entrar em vigor em 2021. Enquanto isso, apesar dos melhores esforços da indústria do plástico para embalar seus produtos de maneira limpa e higiênica durante a pandemia, o uso do material deve cair 4% este ano, de acordo com o relatório.

Então, o cenário é este: você tem governos implementando políticas para limitar o plástico, pesquisas de opinião mostrando que as pessoas odeiam plástico e querem que os fabricantes lidem com o lixo que eles produzem e uma pandemia que esmaga a demanda. Apesar desses ventos contrários, a indústria do plástico está avançando a todo vapor.

Em 2024, ela poderá ter a capacidade de produzir 230 milhões de toneladas de etileno — um produto químico nas formas mais comuns de plástico — enquanto a demanda deve permanecer estável em cerca de 160 milhões de toneladas.

“Você tem muitos ativos perdidos porque esses caras estão prontos para ultrapassar a capacidade para fazer plástico”, disse Kingsmill Bond, autor do relatório e estrategista de energia da Carbon Tracker, em uma chamada via Zoom. “Eles estão planejando construir mais 80 milhões de toneladas de capacidade a um custo de cerca de US$ 400 bilhões nos próximos cinco anos para um mercado em que a demanda pode não crescer. Eu vejo isso como um analista financeiro e, bem, isso é simplesmente burrice.”

Não sou analista financeiro, mas concordo, Kingsmill. Concordo.

Os produtores de plástico estão tentando suprir a demanda dos países em desenvolvimento que não contam com fortes estruturas regulatórias ou supervisão.

Uma investigação realizada no início desta semana pela Unearthed, o projeto de jornalismo do Greenpeace, também descobriu que grandes empresas petroquímicas recorreram a aliados como a administração Trump para ajudar a impulsionar a demanda e o comércio de resíduos plásticos na África.

O plano é tentar lucrar com as brechas que criam o que os economistas chamam de “externalidades”. Coisas como lixo se acumulando fora das favelas em Nairóbi, a mancha de resíduos do Pacífico, a poluição tóxica do ar no Cancer Alley da Louisiana e o carbono que destrói o clima são todos os custos que recaem sobre toda a sociedade e que a indústria de plástico não paga.

O novo relatório estima de maneira conservadora que essas externalidades custam algo em torno de US$ 800 a US$ 1.400 por tonelada de plástico produzida. Esse valor é, olha só, mais ou menos o que a UE vai cobrar de imposto sobre o plástico. Isso aponta para algumas das soluções políticas disponíveis para manter a poluição do plástico sob controle já existente.

Em dois relatórios não diretamente relacionados publicados há alguns meses, os pesquisadores traçaram uma série de outros caminhos que os governos estão ou poderiam considerar para reduzir ainda mais a oferta e a demanda, desde o investimento em melhores programas de reciclagem até a redução do excesso de embalagens ou a opção por alternativas (o relatório recomenda o uso de sacos e recipientes compostáveis ​​ou mesmo folhas de bananeira para levar para viagem).

Bond comparou este momento para o plástico ao carvão no início de 2010, quando uma série de fatores criaram uma forte retração para a indústria nos EUA e na Europa. Uma revolução tecnológica e política está chegando e aponta para a necessidade de a indústria de plástico planejar seu declínio — ele pode vir mais cedo do que o imaginado.

“Se a indústria do carvão em 2012 tivesse dito: ‘Puxa, a demanda está prestes a atingir o pico e, em seguida, vai se estabilizar e diminuir, então precisamos nos reequipar, parar de fazer obras de expansão, precisamos começar a nos planejar para reduzir todas as operações lentamente ao longo do tempo’, isso teria sido muito benéfico para eles financeiramente e para a força de trabalho”, disse o analista. “Não vamos parar de usar as montanhas de plástico que usamos da noite para o dia. Mas se estamos perto do topo e vamos começar a mudar para uma nova rota, então agora é a hora de repensar.”