Durante o Google I/O, no início do mês, o CEO do Google, Sundar Pichai, mostrou um recurso experimental do Google Assistente chamado Duplex, que pode fazer ligações telefônicas por você. Em uma impressionante ligação, o assistente digital ligou para um salão de cabeleireiro e marcou um horário com um funcionário — a chamada feita por robô era tão realista que tinha até traços de hesitação.

Todo mundo ficou impressionando. Parecia uma demonstração clara do poder da inteligência artificial do Google. Também foi muito futurista, beirando o inacreditável. Tudo foi meio esquisito e começou a levantar uma série de dúvidas. O site Axios, por exemplo, gastou certa energia ao tentar provar que a demonstração foi manipulada, ou pior, era toda falsa.

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O fato é que a ligação tava com pinta de que não era tão real quanto Pichai e o Google gostaríamos que acreditássemos, ainda mais quando ele disse: “O que você vai ouvir agora é o Google Assistente ligando para um salão real”. Em outra demo, o Duplex ligou para um restaurante para tentar fazer uma reserva. A ligação não foi como planejado, mas o Google Assistente tropeçou, mas acabou recebendo as informações necessárias. Pichai, no fim, disse “novamente, isso foi uma ligação real.”

No entanto, como notaram alguns observadores, o esquisito em ambos os casos é que em nenhum deles os funcionários identificaram os locais quando atenderam. E o Axios notou que não havia som ambiente que você esperaria, por exemplo, de um salão de cabeleireiro ou de um restaurante.

É totalmente possível que o que nós ouvimos foi editado por uma série de razões legítimas, mas muitas pessoas têm lamentado que o Google fez parecer que a situação era real e dito que era verdadeiro, quando na verdade talvez não seja. No entanto, isso é um grande (e importante) lembrete de que você nunca deveria acreditar em demonstrações de empresas de tecnologia.

Só para ficar claro: as demonstrações de tecnologia quase nunca são reais. É claro que a Microsoft ou a Apple às vezes plugam um telefone ou um computador espelhado em um tela grande para mostrar a você o que está acontecendo nos dispositivos. E há muitos exemplos notórios de demonstrações que não deram certo com Bill Gates, da Microsoft, e Craig Federighi, da Apple. Mas mesmo em demonstrações mais realistas, tudo foi repetidamente ensaiado e otimizado para mostrar exatamente o que a empresa quer, usando artifícios dramáticos quando necessário e escondendo coisas para que a demonstração seja eficiente e oportuna.

As demonstrações de palco feitas por empresas de tecnologia são em grande parte uma máquina de relações públicas. Profissionais de marketing e relações públicas costumam se preocupar menos com a precisão quando estão produzindo uma demo que vai gerar uma boa impressão da audiência e de críticos. Para as equipes produzindo essas demos, é sobre vender o produto, e como eles vão ser apresentados — vale lembrar que vender um produto não significa mostrar como, de fato, um produto é.

Alguns casos de encenação

Pense, por exemplo, na história do lançamento do primeiro Macintosh, da Apple, conduzida por Steve Jobs — que foi o cara que inventou esse tipo de tática como conhecemos atualmente.

O filme Steve Jobs faz uma dramatização do processo. A cena se passa nos momentos frenéticos que antecederam a apresentação do Macintosh original ao mundo em 1984. O Macintosh 128k não conseguia dizer “hello” como Jobs quis. Então, o engenheiro da Apple Andy Hertzfeld sugeriu usar um computador mais poderoso, uma versão de 512K, que só estaria disponível mais tarde.

E o que aconteceu foi isso: “Nós decidimos trapacear um pouquinho”, confirmou o Hertzfeld em seu site Folklore. Eles trocaram a máquina para que a demo funcionasse.

A demonstração no palco da Apple foi a pioneira em produzir todas as condutas de teatralidade, algumas brilhantes e outras, nem tanto. E todas elas não são verdadeiras com suas próprias peculiaridades.

Recentemente, a demonstração de “workplace” da Microsoft durante a conferência Build era claramente uma dramatização. No ano passado, um homem atravessou o palco fingindo usar um equipamento de construção de forma errada para mostrar como a inteligência artificial da Microsoft poderia identificar práticas inseguras em um local de trabalho. Foi tão mal orquestrado que acho que ninguém pensou que aquilo era genuinamente real. E eu gostaria de estar pessoalmente presente quando Phil Schiller, da Apple, e tocou uma música no McEnery Convention Center em San Jose, no último WWDC (evento de desenvolvedores da Apple), e disse às pessoas que o som era do HomePod.

Mesmo o Google já fez alguns demonstrações inacreditáveis. Você se lembra do primeiro vídeo do Google Glass que, provavelmente, fez você achar que o aparelho era promissor? Aquele que nós vimos um cara caminhar o dia todo com o Google Glass em seu rosto e nos fez pensar “eu quero isso”.

Foi uma demonstração bem legal! Infelizmente, o Google nem chegou perto de ter as funcionalidades mostradas naquele vídeo, ou muito menos chegou a ser disponibilizado para o público em geral. Mas o vídeo no YouTube, como de todas as outras demos, era uma dramatização com o intuito de ilustrar os recursos.

A única diferença real entre todas essas e a demonstração do Duplex é que Pichai especificamente disse que era real, enquanto ele estava no palco, e o Google, pelo menos até o momento, não provou que eram falsas após repetidos pedidos de comentário.

A história continua a crescer. Após John Gruber, do blog Daring Fireball (especializado em cobrir assuntos relacionados à Apple), pedir aos seus leitores que ajudem a achar o restaurante usado na demonstração do Duplex postada no blog de inteligência artificial do Google (eles encontram quase imediatamente) — o Mashable ligou para o local e a pessoa que atendeu o telefone “parecia estar muito nervosa” e desligou o telefone sem confirmar se o Google contatou o restaurante mesmo. Esquisito, né?

E se tudo aquilo não aconteceu, se tudo for uma mentira, então eu ficarei bem desapontada. Mas honestamente não ficaria surpresa.

Imagem do topo: Captura de tela do Google I/O 2018